barco voador
  • A AeroRiver, startup de Manaus, prevê iniciar os testes do primeiro barco voador tripulado do Brasil entre o fim deste ano e o início do próximo.
  • O Voadeiro usa a tecnologia de efeito solo, testada em simulador em rios sinuosos como o Juruá, e opera com motor híbrido, a combustão e elétrico.
  • Segundo a empresa, a passagem deve custar de 60% a 70% menos que um voo regional, com preço próximo ao de uma lancha rápida.

A AeroRiver, startup fundada em Manaus, prevê iniciar os testes operacionais do seu primeiro veículo tripulado entre o fim deste ano e o início do próximo, segundo afirmou o cofundador e diretor de negócios Túlio Duarte, em entrevista ao jornalista Márcio Azevedo. O Voadeiro, nome do protótipo, é um veículo de efeito solo com capacidade para quatro passageiros ou 250 kg de carga e está em fase avançada de construção, com partes fabricadas em Manaus e em São José dos Campos (SP). Se confirmado o cronograma, será o primeiro barco voador tripulado do país a operar nos rios amazônicos.

A tecnologia por trás do projeto não é nova. Vem do período pós Segunda Guerra Mundial e foi amplamente usada pela União Soviética. Segundo Duarte, os avanços recentes em sensores e automação, típicos da indústria 4.0, permitiram resolver esse gargalo e viabilizar a aplicação comercial da tecnologia.

O efeito solo é o fenômeno físico que sustenta a operação: quando uma asa voa muito próxima da superfície da água, forma-se uma espécie de colchão de ar que aumenta a sustentação e reduz o arrasto. O Voadeiro tem cerca de 10 metros de comprimento por 10 metros de envergadura e é híbrido, combinando motor a combustão com motores elétricos auxiliares usados no momento da decolagem, quando é preciso vencer a resistência da água. Em cruzeiro, o consumo estimado fica entre 7 e 8 km por litro de gasolina comum, próximo ao de um carro médio.

“A estimativa é que ele fica em torno de 60, 70% mais barato do que uma aeronave e um custo próximo de uma lancha mais potente, uma lancha mais rápida”, explicou Duarte sobre a projeção de valores das passagens.

Na prática, a empresa projeta um valor entre 10% e 15% mais caro que uma viagem de lancha rápida, mas com redução expressiva no tempo de deslocamento. A comparação direta resume o problema que a AeroRiver diz ter identificado na Amazônia.

“A gente tem o barco, que é muito lento, e o avião, que é muito caro.”

A operação do veículo segue regulamentação náutica, não aeronáutica. A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) já reconheceu que esse tipo de veículo está fora da certificação aeronáutica, e organismos internacionais como a Organização Marítima Internacional (IMO) classificam o barco voador como embarcação. Para pilotar, é preciso ter carteira náutica somada a um curso específico no equipamento. Em simulador, segundo Duarte, o software controla automaticamente a altitude de voo, inclusive nas curvas, erguendo a ponta da asa mais próxima da água para evitar contato com a superfície.

Homem de barba grisalha de camisa verde e blazer preto
Túlio é um dos três sócios da AeroRiver e criador dos barcos voadores da Amazônia – Foto: Divulgação

Os outros projetos da AeroRiver

O Voadeiro é o segundo de três produtos da empresa. O primeiro a chegar ao mercado foi um drone de efeito solo não tripulado, batizado de Stingray, que nasceu de um protótipo em escala reduzida transformado em produto a pedido de clientes. Ele voa a 90 km/h rente à água, com autonomia de 200 km e capacidade de carga de 15 kg, voltado ao transporte rápido de itens como medicamentos, amostras de laboratório ou peças de reposição entre comunidades ribeirinhas.

Uma variação do mesmo drone, chamada Igara, foi desenvolvida para o transporte de bioinsumos em parceria com o Programa Prioritário de Bioeconomia, ligado ao Idesam. O maior projeto da empresa, porém, é o terceiro da fila: o Volitã, com capacidade para 12 ocupantes e velocidade de 150 km/h, ainda em fase de projeto.

Da pandemia a um projeto amazônida

A ideia do barco voador surgiu durante a pandemia de covid-19, quando as limitações logísticas da região ficaram mais evidentes para Duarte, mineiro radicado há mais de 20 anos em Manaus. Ele buscou os engenheiros mecânicos Lucas Guimarães e Felipe Bortolete, ambos formados na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e integrantes da equipe de aeromodelismo Urutau, que na época cursavam mestrado no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos. O convite veio no dia em que os dois defenderam a dissertação.

“Eu disse a eles: vamos aproveitar agora esse conhecimento e vamos trabalhar para melhorar um pouco a vida da Amazônia, das pessoas que aqui vivem e que têm tantos desafios logísticos”, lembrou Duarte.

A empresa foi fundada no fim de 2020 pelos três sócios. Ela é uma deep tech, um tipo de startup que exige não apenas desenvolvimento de produto, mas produção de conhecimento científico original. No caso do barco voador, isso significou pesquisa em engenharia naval, aeronáutica, eletrônica e telecomunicações, já que o comportamento de um veículo em efeito solo próximo à água segue princípios físicos diferentes dos usados em aviação convencional em altitude de cruzeiro. Segundo Duarte, boa parte desse conhecimento não estava disponível em literatura aberta, por ter sido historicamente aplicado a fins militares, o que obrigou a equipe a produzir teses e experimentos próprios para validar tanto o projeto quanto a operação segura do veículo.

Reconhecimento e apoio financeiro

O projeto passou por programas de aceleração como o Sinergia e ganhou repercussão internacional em eventos como o Web Summit, tanto na Europa quanto na edição realizada no Rio de Janeiro. Publicações do setor náutico já classificaram o Volitã como o único barco voador em desenvolvimento na América Latina. Túlio Duarte foi eleito por dois anos seguidos, em 2023 e 2024, um dos dez principais empreendedores do ecossistema de inovação de Manaus pelo prêmio Jaraqui Graúdo, e participou de um programa de empreendedorismo do governo dos Estados Unidos. O cofundador Lucas Guimarães, por sua vez, recebeu reconhecimento internacional do MIT por seu trabalho à frente do projeto.

Mas para Túlio Duarte, muito maior que os prêmios conquistados e o reconhecimento pela tecnologia desenvolvida, é saber que o sonho de três jovens engenheiros pode mudar a vida e a realidade de uma região e de milhares de pessoas que hoje enfrentam problemas para usufruir do direito básico de ir e vir. Com a chegada do Voadeiro ao mercado naval, tudo vai mudar. E não só para os três, mas para a Amazônia.

“É essencial a gente colocar o ser humano no meio e olhar para as pessoas, e falar como a gente pode, verdadeiramente, gerar um impacto para as pessoas e melhorar a vida delas.”

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