- Levantamento da UFAM mostra que municípios do Amazonas, exceto Manaus, têm os piores índices de ODS entre os nove estados da Amazônia Legal.
- A pesquisa cruzou dados oficiais do IBGE, DataSUS e DNIT em uma plataforma online que gestores públicos podem usar para direcionar políticas.
- O estudo questiona usar municípios do agronegócio como referência de desenvolvimento para a região amazônica.
Um estudo da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) aponta que os municípios do Amazonas, com exceção da capital, registram os piores resultados entre os nove estados que compõem a Amazônia Legal na Agenda 2030 da ONU. O diagnóstico integra o projeto Atlas ODS Amazônia e já resultou em uma plataforma pública que gestores municipais podem consultar para identificar onde investir primeiro. A pesquisa é assinada pelo pesquisador Bruno Cordeiro Lourenzi, doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade pela UFAM.
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os ODS, foram apresentados pela ONU em 2015 como uma agenda global com prazo até 2030. O princípio central é não deixar nenhuma região para trás no processo de desenvolvimento. Ao todo são 17 objetivos oficiais, que envolvem as dimensões ambiental, social e econômica.
O Atlas ODS Amazônia incorporou ainda um 18º objetivo, criado pelo governo federal e existente apenas no Brasil, voltado para a igualdade étnico-racial. Segundo Bruno Cordeiro Lourenzi, o projeto reuniu indicadores que vão da erradicação da pobreza à igualdade de gênero, passando por conservação da água e parcerias institucionais.
Diagnóstico: municípios amazonenses entre os piores do ranking
A pesquisa avaliou 772 municípios da Amazônia Legal com base em dados secundários oficiais, como IBGE, DataSUS e DNIT, padronizados em uma escala de 0 a 100, em que 100 representa a meta plenamente atingida. Manaus se destaca por sua estrutura de capital, mas o restante do estado apresenta os desempenhos menos satisfatórios da região.
Os indicadores mais críticos no Amazonas envolvem acesso à água potável e saneamento, além do número de famílias inscritas no Cadastro Único e beneficiárias de programas de transferência de renda, que indicam alta vulnerabilidade social. O município de Uiramutã, em Roraima, o mais setentrional e mais rural do país, aparece na última posição do ranking geral. No Amazonas, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira ocupam colocações delicadas.
O pesquisador defende que o diagnóstico só tem valor se abrir caminho para ação:
“Não basta a gente ter um número. Não adianta nada a gente ter esse diagnóstico e não propor sistemas de melhoria”, defendeu Bruno Lourenzi.

Painel de ODS permite que gestores priorizem políticas públicas
O produto prático da pesquisa é o Painel Atlas ODS, disponível em painelatlasods.info. A ferramenta cruza os indicadores de cada um dos 772 municípios em um gráfico único, permitindo comparar o desempenho local com o de outras cidades da Amazônia Legal.
Para gestores públicos, o painel funciona como um roteiro de prioridades: mostra em qual dimensão, saúde, educação, saneamento ou igualdade de gênero, o município está mais fragilizado, orientando onde concentrar recursos escassos. Para o cidadão, a mesma ferramenta serve como instrumento de controle social, permitindo cobrar explicações sobre por que a educação ou a saúde do próprio município está pior que a da cidade vizinha.
Por que o topo do ranking não deveria virar modelo
O levantamento também expõe um problema de método. As primeiras posições do ranking nacional são ocupadas majoritariamente por municípios do Mato Grosso ligados ao agronegócio, caso de Cuiabá, Lucas do Rio Verde e Tapurah, com presença também de cidades paraenses. Para o pesquisador, isso não significa que esse modelo de desenvolvimento deva ser replicado na Amazônia com floresta em pé.
A crítica recai sobre a própria forma de aplicar uma métrica global a um território tão heterogêneo quanto a Amazônia Legal:
“Chamar todos esses municípios de Amazônia Legal, por si só, já é muito complexo. Nós não estamos dizendo que é necessário desmatar para trazer o desenvolvimento que a gente apurou lá em Mato Grosso, mas a gente precisa de mensurações que tragam a realidade da vocação da floresta para a nossa população”, defende Lorenzi.
O estudo mostra ainda que crescimento econômico não garante equidade: os piores indicadores de violência contra mulheres aparecem justamente nas regiões mato-grossenses de maior desenvolvimento econômico, evidenciando que os ganhos não foram distribuídos igualmente entre homens e mulheres.
A Agenda 2030 é alcançável até o prazo da ONU?
Para o pesquisador, a meta integral da Agenda 2030 não será cumprida na Amazônia dentro do prazo estipulado pela ONU. Ele defende que as próximas rodadas de negociação da agenda global incorporem indicadores regionais, capazes de medir desenvolvimento sem comparar diretamente a Amazônia a outros territórios, como a Europa. No estado, a Secretaria de Planejamento já incorporou parte dos dispositivos da Agenda 2030 ao plano plurianual, mas a adesão nos municípios ainda é considerada incipiente, limitada pela falta de qualificação técnica, tempo e recursos dos gestores locais.
Glossário
- DataSUS: Sistema de dados do Ministério da Saúde usado para indicadores de saúde municipal.
- PPA: Plano Plurianual, instrumento orçamentário que pode incorporar metas da Agenda 2030.



