• A startup AmidoMato captou R$ 2 milhões para padronizar a farinha de babaçu para a indústria alimentícia.
  • O financiamento inclui a AMAZ, aceleradora do Idesam, e três fundos de capital semente focados em bioeconomia.
  • A cadeia do babaçu enfrenta gargalos históricos de oferta e qualidade: resolver isso amplia renda de quem coleta o fruto na floresta.

A AmidoMato, startup fundada em 2024 para padronizar derivados da farinha de babaçu para a indústria de alimentos, concluiu uma rodada de capital semente de R$ 2 milhões e passou a integrar o portfólio da AMAZ, aceleradora de negócios de impacto coordenada pelo Idesam. O aporte reúne três investidores: Grão Venture Capital, sócia-fundadora do negócio; RG Futures, frente de inovação alimentar da RG Think Food; e Abunã, braço de investimento voltado à Amazônia dos empresários Ilana e Denis Minev.

Para entender por que o financiamento importa além do negócio em si, é preciso olhar para quem está na base da cadeia. O babaçu ocupa cerca de 15 milhões de hectares entre a Bolívia e o Nordeste brasileiro. A coleta dos frutos é feita predominantemente por mulheres, as chamadas quebradeiras de coco, que extraem a amêndoa para a produção de óleo. O mesocarpo do fruto, porção que rende a farinha, historicamente ficou de fora dessa equação: deteriora rápido após a queda e, sem comprador industrial, não gera renda.

O gargalo que o dinheiro precisa resolver

A irregularidade na oferta, a contaminação oriunda da coleta tradicional e a ausência de padrões técnicos de granulometria, coloração e teor de fibras sempre impediu a farinha de babaçu de competir com trigo, milho, arroz e mandioca nas grandes indústrias. Sem essa padronização, não há contrato de fornecimento estável. Sem contrato, não há incentivo para que as comunidades invistam em melhores práticas de coleta e processamento.

É nesse ponto que o capital semente entra como variável direta para as comunidades. O recurso vai financiar a consolidação do processo produtivo da AmidoMato e a expansão da base de clientes, o que, na prática, significa criar demanda industrial contínua por uma matéria-prima que hoje tem aproveitamento limitado. A empresa já firmou seu primeiro grande contrato de fornecimento com a Griffith Foods, multinacional do setor alimentício, e conta com suporte tecnológico da EBS, especializada em processos industriais para amidos e farinhas.

“Nosso objetivo é tornar a farinha de babaçu um produto seguro, competitivo e disponível, uma nova opção no mundo das farinhas, que não se limite ao nicho de produtos da floresta. Buscamos entregar para a indústria um produto padronizado, de alta qualidade nutricional.”

A fala é de Eduardo Roxo, fundador da AmidoMato. Biólogo, mestre em Ecologia e Agronegócios, Roxo trabalha com a cadeia do babaçu desde 2007, quando participou do desenvolvimento da farinha do mesocarpo para a indústria cosmética. Antes da AmidoMato, cofundou a Atina, a Mombora e o Painel da Floresta.

A entrada da AMAZ e o que ela sinaliza

A seleção da AmidoMato encerra o ciclo do primeiro fundo da AMAZ. Neste ano, a aceleradora não abrirá nova chamada de negócios. Em cinco anos de operação, a AMAZ avaliou 500 startups, acelerou 52 e investiu em 29, das quais 16 permanecem ativas no portfólio.

Gabriela Souza, líder de Novos Negócios do Idesam e gestora de operações da AMAZ, avalia o momento de transição:

“Em 2026 fechamos o ciclo do primeiro fundo da AMAZ. Nosso portfólio reflete a diversidade de soluções necessárias à bioeconomia amazônica: restauração florestal, inovação em ingredientes e produtos, soluções financeiras e logísticas. Nos próximos 5 anos vamos consolidar aprendizados, multiplicar mecanismos de apoio e fortalecer os negócios investidos.”

A AmidoMato aposta que criar um ingrediente competitivo a partir do mesocarpo do babaçu é condição necessária para que a cadeia produtiva se torne economicamente viável para quem coleta o fruto. Sem demanda industrial organizada, o potencial de geração de renda na floresta permanece represado. Com ela, o mesocarpo deixa de ser resíduo e passa a ter preço.

Mais informações sobre a AMAZ e seus negócios investidos estão disponíveis no site do Idesam. A proposta da AmidoMato de conectar biodiversidade à indústria alimentícia se insere num movimento mais amplo documentado pela Embrapa Babaçu sobre o aproveitamento integral do fruto.

Glossário

  • Mesocarpo: Camada intermediária do fruto do babaçu, entre a casca externa e a amêndoa, de onde se extrai a farinha.
  • Capital semente: Investimento inicial destinado a validar o modelo de negócio e estruturar operações de uma startup em fase inicial.
  • Sociobiodiversidade: Conceito que articula a diversidade biológica da floresta com os sistemas produtivos e culturais das populações que a habitam.
  • AMAZ: Aceleradora de negócios de impacto na Amazônia, coordenada pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam).

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