Dois pesquisadores do Inpa selecionados para serem financiados pelo Serrapilheira
Os pesquisadores Israel de Jesus e Gabriel Jorgewich tiveram seus trabalhos selecionados – Imagem: Divulgação
  • Inpa tem dois projetos entre os 10 selecionados pelo Instituto Serrapilheira, em universo de 404 propostas.
  • Pesquisas vão medir hormônios de estresse em árvores gigantes e mapear a comunicação acústica de tartarugas amazônicas.
  • Financiamento de até R$ 700 mil por projeto fortalece ciência de fronteira e consolida o protagonismo da pesquisa amazônica.

O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) terá dois novos projetos financiados pelo Instituto Serrapilheira a partir de 2026, na 9ª Chamada Pública de Apoio à Ciência. Entre 404 propostas inscritas, apenas 10 foram selecionadas, colocando a Amazônia no centro de estudos de fronteira em ecologia de florestas e comportamento animal, com investimentos de até R$ 700 mil por projeto ao longo de cinco anos.

Árvores gigantes sob estresse climático e risco de “dendropausa”

Um dos projetos aprovados é liderado por Israel de Jesus Sampaio Filho, pesquisador do Inpa. A pesquisa vai investigar se o estresse climático de longo prazo pode levar árvores amazônicas gigantes a uma espécie de “dendropausa”, situação em que deixam de produzir hormônios-chave e se tornam mais vulneráveis à morte.

O estudo vai medir hormônios de estresse em folhas de árvores gigantes submetidas a seca natural e a seca experimental. A abordagem combina ecohidrologia de campo, fisiologia vegetal e análises fitohormonais em laboratório, em colaboração com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e instituições nacionais e internacionais.

“Esse apoio representa uma grande oportunidade para meu início de carreira como líder de projeto, com uma equipe de grande peso. Vamos testar uma pergunta de alto risco com potencial de abrir um caminho novo na ciência da Amazônia”, afirma Israel.

A pesquisa se conecta ao avanço de estudos sobre mudanças climáticas globais e pode ajudar a explicar por que grandes árvores, fundamentais para o estoque de carbono na floresta, podem estar mais suscetíveis a eventos extremos de seca.

Tartarugas que “conversam”: comunicação acústica na Amazônia

O segundo projeto aprovado é “Tartarugas que ‘conversam’: comunicação acústica na Amazônia”, coordenado pelo biólogo Gabriel Jorgewich Cohen, também pesquisador do Inpa. Ao longo de cinco anos, a equipe vai estudar a flexibilidade da comunicação acústica em quelônios, com foco na tartaruga-da-Amazônia.

A hipótese central é que ambientes e interações sociais diferentes influenciam a complexidade dos sons emitidos por esses animais. Segundo o pesquisador, a teoria de referência indica que quanto mais complexas são as relações sociais, mais complexo tende a ser o repertório acústico. O projeto quer testar se essa relação se aplica às tartarugas e quais fatores, como isolamento geográfico, tipo de ambiente ou aprendizado, explicam as variações observadas.

O estudo combina experimentos de campo e de cativeiro, incluindo playbacks (reprodução controlada de sons) e testes de interação entre populações. Além de contribuir para a biologia evolutiva e para o entendimento da comunicação em vertebrados aquáticos, os resultados podem subsidiar estratégias de conservação de espécies pouco estudadas.

“É um sinal de que existe interesse da comunidade científica no que estou desenvolvendo. Esse apoio dá um impulso não só financeiro, mas também moral”, relata Gabriel.

Finalistas e fortalecimento da pesquisa amazônica

Além dos dois projetos aprovados, outras duas pesquisadoras do Inpa chegaram à fase final da 9ª Chamada Pública do Serrapilheira. Aline Martins, especialista em ecologia evolutiva e biogeografia com ênfase em abelhas, e Dirce Komura, das áreas de genética e micologia com foco em diversidade de fungos, ficaram entre os 40 finalistas que participaram da etapa de entrevistas.

Os projetos de Israel Sampaio e Gabriel Cohen começam em 2026, com duração prevista de cinco anos. O modelo de apoio do Serrapilheira prioriza ciência de fronteira e redução de burocracias de execução, o que tende a dar mais flexibilidade para trabalho de campo na Amazônia, logística de laboratório e formação de equipes multidisciplinares.

Imagem de duas pesquisadores do Inpa
As pesquisadoras Fernanda Weneck e Lydiane Lúcia foram pioneiras no financiamento pelo Serrapilheira

Pioneirismo feminino e histórico do Inpa no Serrapilheira

Com os novos projetos, o Inpa passa a somar quatro pesquisadores financiados pelo Serrapilheira. O pioneirismo veio com a bióloga Fernanda Werneck, contemplada em 2019 com um estudo sobre impactos das mudanças climáticas na megadiversidade neotropical. O projeto usa lagartos do gradiente Amazônia-Cerrado para testar adaptação evolutiva e risco de extinção local, e foi por anos o único da região Norte apoiado pelo programa.

“Fiquei muito feliz de ver dois novos colegas contemplados. Quatro novos pesquisadores foram classificados para fase final. Isso mostra, e muito, a excelência e competência das pesquisas que nós aqui no Inpa fazemos, nas mais diversas áreas do conhecimento.”

Werneck destaca que o apoio do Serrapilheira ampliou as possibilidades de desenvolvimento de suas linhas de pesquisa e ofereceu uma rede de apoio e iniciativas inovadoras no cenário científico nacional, considerada por ela essencial para pesquisadores em início de carreira. A parceria com o Instituto se mantém ativa.

Mais recentemente, a engenheira florestal Lydiane Lucia, também do Inpa, foi contemplada com um projeto de inteligência artificial aplicada a sementes nativas. A pesquisa usa raio X e machine learning para prever a viabilidade de sementes de cerca de 200 espécies amazônicas, reduzindo o tempo de laudos e apoiando a cadeia de restauração florestal.

“A pesquisa do Inpa só tem a ganhar com esses financiamentos do Serrapilheira. Projetos inovadores vão ganhar o incentivo que precisavam para alavancar a ciência amazônica. Além disso, ter vários projetos do Inpa aprovados nesta chamada mostra o alto nível das nossas pesquisas, uma vez que esse edital é um dos mais concorridos do mundo”, avalia Lydiane.

O conjunto de projetos financiados reforça o papel do Inpa como referência em ciência produzida na Amazônia, com impacto direto em temas como mudanças climáticas, conservação de biodiversidade e restauração de florestas.

Glossário

  • Dendropausa: termo usado para descrever uma possível interrupção na produção de hormônios-chave por árvores, associada a estresse climático prolongado.
  • Ecohidrologia: área que estuda a interação entre processos ecológicos e o ciclo da água em ecossistemas.
  • Fitohormônios: hormônios vegetais que regulam crescimento, desenvolvimento e respostas das plantas a estresses ambientais.
  • Quelônios: grupo de vertebrados que inclui tartarugas, cágados e jabutis.
  • Playbacks: técnica experimental em que sons gravados são reproduzidos para animais a fim de observar suas respostas comportamentais.
  • Machine learning: conjunto de métodos de inteligência artificial que permitem a sistemas computacionais aprender padrões a partir de dados.

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