- Estudos de Fiocruz, UFBA, INPA e Oxford mostram que Manaus está mais quente e mais vulnerável a ondas de calor.
- Análises de 50 anos de dados climáticos e registros do SUS relacionam calor extremo a desconforto térmico e aumento de mortalidade.
- Resultados reforçam a necessidade de adaptação urbana, fortalecimento da saúde pública e uso de ferramentas como o Atlas ODS Amazônia.
Manaus registra aumento consistente de calor extremo e desconforto térmico nas últimas décadas, apontam estudos de instituições como Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade de Oxford e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), que relacionam o fenômeno à combinação entre mudanças climáticas globais e expansão urbana acelerada na capital amazonense.
Um estudo nacional da Fiocruz e da UFBA, que analisou dados de temperatura, internações e óbitos do Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2000 e 2019, estimou que as ondas de calor estiveram associadas a cerca de 120 mil mortes no Brasil no período. A pesquisa, realizada pela primeira vez em escala nacional, reforça a preocupação com os impactos do calor extremo sobre a saúde pública.
Manaus mais quente que a floresta ao redor
Na capital amazonense, diferentes levantamentos mostram que a cidade está mais quente do que as áreas de floresta no entorno. Estudos indicam que Manaus é, em média, 1,74°C mais quente do que as regiões florestadas próximas, com diferenças que podem superar 3°C nas temperaturas máximas anuais.
Outro estudo identificou 225 episódios de ondas de calor em Manaus entre 1970 e 2019. Desse total, 88% ocorreram entre 2000 e 2019, o que aponta para uma intensificação recente desses eventos extremos.
Recorde em 2023
Em outubro de 2023, Manaus teve o dia mais quente em 30 anos. Os dados foram captados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Os termômetros da capital amazonense chegaram a 39,2ºC.
Naquele ano, os termômetros ainda marcaram 38,9ºC e 38,7ºC num espaço de 15 dias.
Um levantamento internacional da Universidade de Oxford classificou Manaus como a cidade brasileira mais ameaçada pelas ondas de calor e a 27ª mais vulnerável do mundo entre grandes centros urbanos. O estudo avaliou cidades com mais de 1 milhão de habitantes, o que permite comparar realidades urbanas de porte semelhante.
No ranking, Manaus aparece em posição mais vulnerável que outras capitais brasileiras, como Goiânia (46ª), Belo Horizonte (66ª), Fortaleza (67ª), São Paulo (77ª), Rio de Janeiro (83ª), Brasília (88ª), Recife (89ª), Salvador (93ª), Curitiba (119ª) e Porto Alegre (120ª).
Relatórios internacionais sobre clima urbano, como os divulgados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), vêm destacando o aumento de eventos extremos de calor em grandes cidades, especialmente em regiões tropicais.
Desconforto térmico em alta em Manaus
Para o coordenador do Atlas ODS Amazônia e diretor do INPA, Dr. Henrique Pereira, os dados mostram um aumento consistente da exposição da população de Manaus ao calor extremo.
“Nossos estudos sobre os impactos dos eventos climáticos extremos em Manaus mostram que a cidade está ficando progressivamente mais quente. Ao analisar 50 anos de dados climáticos, identificamos uma tendência clara de aumento do Índice de Desconforto Humano, especialmente durante o verão amazônico. Em muitos casos, os valores já ultrapassam o nível 80, considerado crítico para a saúde humana. Isso significa que as ondas de calor tendem a se tornar mais frequentes e severas, exigindo medidas urgentes de adaptação urbana para proteger a população.”
O Índice de Desconforto Humano combina temperatura e umidade para estimar como o corpo humano percebe o calor. Valores acima de 80 indicam condições críticas, em que o organismo tem mais dificuldade para regular a temperatura interna.
Por que Manaus está esquentando
Segundo o pesquisador, o cenário resulta da soma de fatores globais e locais. De um lado, o aquecimento global aumenta a frequência e a intensidade de ondas de calor. De outro, a forma como a cidade cresce agrava o problema.
A expansão urbana, a redução da cobertura vegetal e a impermeabilização do solo favorecem a formação de ilhas de calor, em que áreas densamente construídas registram temperaturas mais altas do que regiões florestadas próximas. Em Manaus, esse contraste é ainda mais evidente pela proximidade com grandes áreas de floresta.
Estudos de climatologia urbana, como os compilados pelo Organização Mundial da Saúde (OMS), indicam que cidades com pouca arborização e grande quantidade de asfalto e concreto tendem a reter mais calor, especialmente à noite.
Impactos do calor extremo na saúde
Os efeitos do aumento da temperatura vão além da sensação de desconforto. Especialistas em saúde pública apontam que o calor extremo pode:
- Agravar doenças cardiovasculares e respiratórias;
- Aumentar o risco de desidratação e insolação;
- Elevar a demanda por atendimentos de emergência;
- Impactar principalmente idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.
No Brasil, o estudo de Fiocruz e UFBA reforça a necessidade de integrar dados de clima e saúde para orientar políticas públicas. A pesquisa utilizou registros do SUS para estimar a associação entre ondas de calor e mortalidade, metodologia alinhada a recomendações de órgãos como a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).
Desafio para o planejamento urbano em Manaus
O avanço das ondas de calor coloca pressão adicional sobre o planejamento urbano e a gestão pública em Manaus e em outras cidades amazônicas. Entre as medidas apontadas por pesquisadores e planejadores urbanos estão:
- Ampliação da arborização em ruas, praças e áreas residenciais;
- Preservação e recuperação de áreas verdes e de floresta urbana;
- Melhoria da infraestrutura urbana, com materiais e soluções que reduzam a retenção de calor;
- Fortalecimento da rede de saúde para responder a picos de demanda em períodos de calor extremo;
- Integração de dados climáticos em planos diretores e códigos de obras.
Essas ações buscam aumentar a resiliência climática das cidades amazônicas, reduzindo a vulnerabilidade da população aos eventos extremos.
Atlas ODS Amazônia e monitoramento de vulnerabilidades
Os dados sobre calor extremo e saúde em Manaus se conectam diretamente aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), em especial os ODS 3 (Saúde e bem-estar), 11 (Cidades e comunidades sustentáveis) e 13 (Ação contra a mudança global do clima).
Ferramentas como o Atlas ODS Amazônia contribuem para monitorar indicadores de saúde, meio ambiente e qualidade de vida nos 772 municípios da Amazônia Legal. A plataforma permite acompanhar o desempenho local em temas como:
- acesso a serviços de saúde;
- infraestrutura urbana;
- preservação ambiental;
- desenvolvimento econômico.
Ao reunir dados em um único ambiente, o Atlas apoia a formulação de políticas públicas baseadas em evidências e o fortalecimento da Agenda 2030 na região.
Adaptação ao calor será cada vez mais necessária
Em um cenário de aumento das temperaturas globais, entender os impactos do calor extremo e investir em estratégias de adaptação tende a se tornar parte permanente da agenda de governos, empresas e sociedade civil em Manaus.
Monitorar indicadores climáticos e de saúde, planejar a expansão urbana com foco em conforto térmico e proteger os grupos mais vulneráveis são passos centrais para garantir melhores condições de vida nas cidades amazônicas nas próximas décadas.
Glossário
- Ondas de calor: períodos de vários dias consecutivos com temperaturas muito acima da média histórica para aquela região e época do ano.
- Índice de Desconforto Humano: indicador que combina temperatura e umidade do ar para estimar o nível de desconforto térmico percebido pelas pessoas.
- Ilhas de calor urbanas: áreas de cidades que registram temperaturas mais altas do que regiões rurais ou florestadas próximas, devido à concentração de construções, asfalto e baixa arborização.
- Resiliência climática: capacidade de uma cidade, comunidade ou sistema de se preparar, responder e se recuperar de eventos extremos relacionados ao clima.