- Instituto Mamirauá passa a integrar o Nature Index em 2026, com destaque em ciências biológicas e ambientais.
- Ranking considera apenas artigos publicados em periódicos científicos de alto impacto e ampla circulação internacional.
- Reconhecimento reforça o papel da ciência produzida na Amazônia em temas globais como biodiversidade, clima e manejo sustentável.
O Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, centro de pesquisa vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e sediado em Tefé (AM), passou a integrar em maio de 2026 o Nature Index, referência internacional no acompanhamento da produção científica de excelência. A inclusão coloca o instituto entre os principais centros brasileiros de pesquisa de alto impacto e amplia a visibilidade da ciência produzida na Amazônia.
Na primeira participação no ranking, o Instituto Mamirauá alcançou a 56ª posição entre as instituições brasileiras e a 2ª colocação entre as organizações do terceiro setor no país. O desempenho foi ainda mais expressivo nas áreas de Ciências Biológicas, em que ficou em 21º lugar, e em Ciências da Terra e Ambientais, onde atingiu a 8ª posição.
Para Rafael Rabelo, Coordenador de Pesquisa e Monitoramento do Instituto Mamirauá, a entrada no Nature Index é um marco na trajetória da instituição. Ele destaca que é a primeira vez que o centro amazônico aparece entre as instituições brasileiras listadas nas áreas de conhecimento avaliadas pelo indicador.
O que é o Nature Index e o que ele mede
Criado pelo grupo editorial da revista Nature, o Nature Index acompanha a produção científica de excelência em escala global. O indicador considera artigos publicados em um conjunto seleto de periódicos de alto impacto e ampla circulação internacional, com foco em qualidade e relevância.
Segundo Rabelo, o índice não mede toda a produção acadêmica das instituições, mas apenas a fração publicada em revistas de maior impacto.
“É um índice que quantifica não toda a produção científica, mas a produção científica de alto impacto. São artigos publicados em revistas que têm alto fator de impacto, alto alcance e grande audiência”, explica o pesquisador.
Na prática, isso significa que o desempenho do Instituto Mamirauá no Nature Index reflete a capacidade de seus grupos de pesquisa de publicar em periódicos de referência internacional, em áreas estratégicas para a compreensão da Amazônia e das mudanças ambientais globais.
Ciência da Amazônia com alcance global
O resultado no ranking é consequência de um crescimento contínuo na publicação de estudos em periódicos de excelência. As melhores colocações foram registradas justamente nas áreas que compõem o núcleo de atuação do instituto: biodiversidade, ecologia, ciências da terra e meio ambiente.
Esse desempenho evidencia a consistência do trabalho desenvolvido por equipes dedicadas a entender os ecossistemas amazônicos, a dinâmica da floresta, dos rios e da fauna, e os impactos de pressões como desmatamento, mudanças climáticas e uso de recursos naturais.
Rabelo aponta que a participação em redes de pesquisa nacionais e internacionais foi decisiva para o avanço da instituição no cenário global. Muitas das publicações consideradas pelo Nature Index resultam de estudos colaborativos, que reúnem grandes bases de dados e análises em diferentes escalas espaciais e temporais.
“Esse estilo de pesquisa em rede que a gente vem fazendo contribuiu para que entrássemos nesse ranking. Algumas dessas publicações tiveram o Instituto como protagonista; em outras, participamos de grandes redes de pesquisa, o que também fortaleceu nossa presença científica”, afirma o coordenador.
Essas colaborações incluem parcerias com universidades brasileiras, institutos internacionais e organizações que atuam em conservação, clima e desenvolvimento sustentável. A abordagem em rede permite comparar a Amazônia com outros biomas tropicais, integrar dados de longo prazo e qualificar a tomada de decisão em políticas públicas.
Relevância de um centro de excelência no interior da Amazônia
Para um instituto sediado no interior da Amazônia, o reconhecimento no Nature Index tem peso simbólico e prático. O resultado demonstra que centros de pesquisa localizados fora dos grandes polos acadêmicos podem alcançar produção científica de alto impacto e contribuir diretamente para agendas globais, como conservação da biodiversidade, clima e segurança alimentar.
O Instituto Mamirauá atua em 36 áreas protegidas da Amazônia, com mais de 200 projetos de pesquisa e extensão voltados à melhoria da qualidade de vida de populações ribeirinhas e povos indígenas. A instituição integra ciência, inovação social e manejo sustentável, o que reforça a relevância de sua produção científica para além dos indicadores bibliométricos.
Parte importante dos estudos publicados em periódicos de alto impacto está ligada a temas como manejo de pesca, monitoramento de fauna, dinâmica de florestas alagáveis e impactos de eventos extremos. Em muitos casos, os resultados alimentam diretamente programas de manejo sustentável e políticas de conservação.
Ciência aplicada e impacto social
Um diferencial do Instituto Mamirauá é a forte ênfase em ciência aplicada. A instituição transforma resultados de pesquisa em ações concretas, como planos de manejo de pesca, programas de conservação de espécies ameaçadas e iniciativas de geração de renda para comunidades locais.
O manejo sustentável do pirarucu, por exemplo, tornou-se um caso de referência internacional ao associar conservação de estoques pesqueiros, aumento de renda de pescadores e segurança alimentar. Experiências desse tipo conectam diretamente a produção científica a políticas públicas e a decisões de gestão territorial na Amazônia.
Para o leitor, o avanço do Instituto Mamirauá no Nature Index indica que parte crescente da ciência sobre a Amazônia que influencia debates globais sobre clima, biodiversidade e desenvolvimento sustentável está sendo produzida dentro da própria região, em diálogo com saberes tradicionais e demandas locais.
História, reconhecimento e formação de pesquisadores
Fundado em 15 de abril de 1999, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá é resultado das pesquisas pioneiras do cientista José Márcio Ayres, que contribuíram para a criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a primeira do gênero no Brasil.
Ao longo de quase três décadas, o instituto consolidou-se como uma das principais referências em pesquisa aplicada, conservação da biodiversidade e promoção do desenvolvimento sustentável na Amazônia. A trajetória inclui prêmios como o Prêmio Unesco para Ciência e Meio Ambiente (2001), o Prêmio Unesco para Pesquisa e Conservação (2003), o Prêmio Finep de Inovação (2012), o Prêmio Nacional da Biodiversidade (2015), o Energy Globe National Award (2015) e o Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica (2018).
A instituição também recebeu reconhecimento da Convenção Ramsar, certificações da Fundação Banco do Brasil em Tecnologias Sociais e integrou a lista das 100 Melhores ONGs do Brasil, o que reforça sua credibilidade institucional e sua capacidade de articular ciência, conservação e inovação social.
Além da produção científica, o Instituto Mamirauá investe na formação de recursos humanos, com incentivo à participação de jovens pesquisadores, mulheres e populações indígenas na ciência. Essa estratégia amplia a diversidade de olhares sobre a Amazônia e fortalece a base de especialistas capaz de atuar em pesquisa, gestão ambiental e políticas públicas.
Glossário
- Nature Index: Indicador internacional que acompanha a produção científica de excelência com base em artigos publicados em um conjunto selecionado de periódicos de alto impacto.
- Fator de impacto: Métrica bibliométrica que estima a relevância de uma revista científica a partir da média de citações recebidas pelos artigos publicados em um determinado período.
- Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS): Categoria de unidade de conservação brasileira que concilia proteção da natureza com o uso sustentável dos recursos naturais por populações tradicionais.
- Manejo sustentável: Conjunto de práticas de uso de recursos naturais que busca garantir a conservação dos estoques no longo prazo, mantendo ou melhorando as condições ecológicas e sociais.