- Quatro estados do Norte não têm nenhum curso superior de inteligência artificial ativo.
- O dado vem de mapeamento nacional conduzido pelo MCTI com dados do e-MEC e da Capes, publicado em maio de 2026.
- O relatório fornece base empírica para o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que prevê criação de novos cursos de graduação em IA.
Quatro estados da região Norte, Acre, Amapá, Rondônia e Roraima, não têm nenhum curso superior dedicado à inteligência artificial em funcionamento. O dado consta do Mapeamento Nacional de Cursos Superiores em Inteligência Artificial (2025-2026), publicado em maio de 2026 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com base em dados do e-MEC coletados em fevereiro do mesmo ano. O levantamento cobriu graduações, especializações e programas de pós-graduação em todo o país.
O padrão se aprofunda quando se observa a pós-graduação stricto sensu. A região Norte registra apenas 4 cursos em computação, de um total nacional de 118, e seis dos sete estados da região, Amazonas, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Pará, não contam com nenhum programa nessa modalidade. Alagoas e Tocantins também ficam sem PPG stricto sensu, reforçando que a lacuna não é exclusiva do Norte, mas é ali onde ela aparece de forma mais sistemática.
Federais como único ponto de apoio
No Norte, 75% das instituições que oferecem graduação em IA são públicas federais. Não há registro de instituições privadas com fins lucrativos atuando na área na região. O dado mostra que, nas áreas onde a oferta privada é reduzida, a formação em inteligência artificial depende principalmente da estrutura federal de ensino superior.
Pará e Amazonas despontam como os principais polos de computação da região Norte. Segundo o levantamento, o Pará possui bacharelado em IA e ampla oferta de cursos de computação correlatos. Já o Amazonas aparece como um dos principais centros regionais de formação em computação.
Região Norte: cursos superiores em inteligência artificial (2026)
Estados sem graduação em IA
4
Acre, Amapá, Rondônia e Roraima
Especializações em IA
128
cursos registrados na região Norte
Participação nacional
6,1%
das especializações em IA do país
Situação por estado do Norte
Acre
Amapá
Amazonas
Pará
Rondônia
Roraima
Tocantins
Distribuição de especializações em IA por região (% do total nacional)
Fonte: Mapeamento Nacional de Cursos Superiores em Inteligência Artificial (MCTI/CGEE/IIA-LNCC), com dados do e-MEC (fevereiro de 2026). Informações sobre a oferta atual no Amazonas foram complementadas por apuração própria junto às instituições de ensino do estado.
Embora o estudo identifique apenas um curso tecnólogo em IA no Amazonas, o cenário atual da formação no estado é mais amplo. A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) mantêm iniciativas de formação e pesquisa ligadas à inteligência artificial, incluindo cursos, projetos acadêmicos e programas de pós-graduação que não foram integralmente capturados pela metodologia adotada no levantamento nacional.
O curso de computação da Ufam está entre os mais tradicionais da região. O Instituto de Computação (IComp) mantém o Programa de Pós-Graduação em Informática (PPGI), com linhas de pesquisa voltadas para inteligência artificial, ciência de dados e áreas correlatas.
Nas especializações lato sensu, a presença regional é maior do que na graduação. Todos os estados do Norte possuem pelo menos um curso registrado. Os números, porém, permanecem modestos quando comparados aos principais centros do país. O Pará lidera na região com 41 especializações, seguido pelo Amazonas com 22. Acre registra 14 cursos, enquanto Amapá, Rondônia e Roraima possuem 9 cada. No conjunto, a região Norte responde por apenas 6,1% das especializações em IA do Brasil.
Panorama nacional: crescimento concentrado no Sudeste
No plano nacional, o levantamento registra 202 cursos de graduação ativos em inteligência artificial e ciência de dados, distribuídos em 153 instituições de ensino superior. O número inclui 76 bacharelados e 126 tecnólogos. Para efeito de comparação, a China contava com cerca de 600 universidades com cursos relacionados a IA em 2025, e os Estados Unidos com 151 instituições de graduação na área.
São Paulo concentra 44 das 153 instituições nacionais, com 20 bacharelados e 46 tecnólogos em IA. Paraná aparece em segundo lugar, com 21 instituições, seguido por Minas Gerais e Rio Grande do Sul, com 14 cada. A assimetria reproduz o padrão histórico do ensino superior brasileiro: onde há mais economia, há mais cursos.
Os cursos começaram a surgir no setor privado em 2017. A partir de 2019, com a criação do primeiro bacharelado em IA em uma universidade pública, a Universidade Federal de Goiás (UFG), a institucionalização ganhou tração. Os tecnólogos cresceram de forma mais acelerada, atingindo o pico de 22 novos cursos só em 2024. Esse crescimento coincide com a difusão das ferramentas de IA generativa no ambiente de trabalho a partir de 2023, embora o relatório não estabeleça relação causal direta entre os dois fenômenos.
A qualidade dos cursos é difícil de avaliar. Dos 202 mapeados, apenas 80 têm avaliação disponível no sistema e-MEC pelo Conceito de Curso (CC). Todos os avaliados obtiveram notas 4 ou 5, os dois patamares mais altos da escala, e as três públicas federais com avaliação registraram nota máxima. Mas a maioria dos cursos, 122 dos 202, ainda não passou pelo ciclo avaliativo do Ministério da Educação, o que impede conclusões mais amplas sobre a qualidade da oferta.
Currículo de IA difere do de Ciência da Computação
O relatório também analisou as diferenças curriculares entre bacharelados em Ciência da Computação e em Inteligência Artificial em cinco universidades públicas, uma por região: UFPB, UFF, UEL, UFPA e UnB. Os resultados apontam uma reorganização de prioridades, não apenas uma adição de conteúdo.
Nos cursos de Ciência da Computação analisados, a IA aparece como uma disciplina introdutória única, em geral entre o quarto e o quinto período. Nos cursos de IA, o mesmo conteúdo funciona como ponto de partida para uma sequência obrigatória que inclui aprendizado de máquina supervisionado e não supervisionado, redes neurais artificiais, aprendizado profundo, aprendizado por reforço e processamento de linguagem natural. Estatística e probabilidade também avançam para os primeiros períodos e se desdobram em múltiplos componentes autônomos.
Em contrapartida, os cursos de IA reduzem ou tornam optativos conteúdos de infraestrutura computacional, como sistemas operacionais, compiladores e redes de computadores, que permanecem obrigatórios na Ciência da Computação. A exceção é a UFPA, que mantém arquitetura de computadores e programação paralela no núcleo obrigatório por sua ênfase em sistemas embarcados.
Alta evasão limita o aproveitamento da oferta existente
O crescimento no número de cursos não se traduz diretamente em mais profissionais formados. Entre 2019 e 2023, as matrículas em graduações de TIC cresceram 70,4%, chegando a cerca de 1,8 milhão de estudantes. Mas menos de 5% desse contingente concluiu o curso em 2023. Em termos absolutos, apenas 89.696 alunos se formaram naquele ano.
A taxa de conclusão no Brasil em cursos STEM é de 38%, ante 58% nos países da OCDE. No acumulado de 2018 a 2023, foram formados cerca de 464,5 mil profissionais em cursos superiores e técnicos de TIC, volume ainda abaixo das necessidades apontadas pelo mercado.
Para o Norte, o problema é duplo: além da alta evasão que afeta todo o país, a oferta formativa é estruturalmente menor. O mapeamento calcula que o Brasil precisaria de aproximadamente 1,08 milhão de pessoas com formação especializada em IA, com base na estimativa de que 1% da força de trabalho nacional demanda esse nível de qualificação. A distribuição geográfica dos cursos indica que boa parte desse contingente terá de ser formada longe de onde a oferta existe.
O levantamento integra as ações do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028, que prevê, entre outras medidas, a criação de novos cursos de graduação em IA e a ampliação de bolsas de pós-graduação. O relatório foi produzido pelo CGEE e pelo Instituto de Inteligência Artificial do Laboratório Nacional de Computação Científica (IIA-LNCC), a pedido do MCTI. Os dados do e-MEC usados como base são de fevereiro de 2026.
Estudo Completo
Glossário
- IA (Inteligência Artificial): Campo da computação dedicado ao desenvolvimento de sistemas capazes de executar tarefas que normalmente requerem inteligência humana, como reconhecimento de padrões, aprendizado e tomada de decisão.
- e-MEC: Cadastro Nacional de Cursos e Instituições de Educação Superior do Ministério da Educação.
- Lato sensu: Pós-graduação de especialização, sem exigência de dissertação ou tese. Inclui cursos de especialização e MBAs.
- Stricto sensu: Pós-graduação acadêmica ou profissional com dissertação (mestrado) ou tese (doutorado), regulada pela Capes.
- PPG: Programa de Pós-Graduação.
- PBIA: Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, documento de política pública que orienta o desenvolvimento, uso e governança da IA no Brasil entre 2024 e 2028.
- TIC: Tecnologias da Informação e Comunicação.
- STEM: Sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática.
- Tecnólogo: Curso superior de graduação com duração entre dois e três anos, com foco em aplicação profissional, distinto do bacharelado pela menor carga teórica e científica.
