- Pesquisadores identificaram as primeiras pinturas rupestres registradas pela arqueologia na Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas.
- O achado ocorreu durante expedições do projeto intercultural “Vozes da Amazônia Indígena”, coordenado pelo Museu Goeldi, com participação de pesquisadores indígenas Baniwa e Koripako.
- Os sítios arqueológicos têm acesso restrito por decisão das próprias comunidades, que reconhecem os locais como espaços sagrados ancestrais.
Pesquisadores identificaram as primeiras pinturas rupestres registradas pela arqueologia na Terra Indígena Alto Rio Negro (Tiarn), no extremo noroeste do Amazonas, região conhecida como “Cabeça do Cachorro”. O achado foi feito durante expedições do projeto intercultural “Vozes da Amazônia Indígena”, coordenado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). A área é habitada pelos povos Baniwa e Koripako.
A identificação compõe os primeiros resultados de uma pesquisa com vigência de 36 meses, iniciada em fevereiro de 2025. O projeto reúne cerca de 100 pessoas, entre pesquisadores indígenas e não indígenas, de mais de 20 instituições científicas. Por decisão das próprias comunidades, o acesso ao sítio está restrito aos participantes do projeto.
Pinturas em dois setores, com pigmentos de ocre
A presença de pinturas rupestres foi confirmada em dois sítios ao longo do rio Içana, afluente do rio Negro. O arqueólogo Raoni Maranhão Valle, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), descreve que os locais formam um sistema de abrigos sob rocha em uma formação serrana, dividido em dois setores.
No setor 1, um abrigo apresenta pinturas identificadas com total segurança. As figuras foram feitas com tinta vermelha, provavelmente derivada de hematita (ocre), com traços grossos acima de 1 centímetro. As formas são interpretadas como possíveis biomorfos e figuras geométricas. No setor 2, o padrão se repete, mas as condições de preservação são mais precárias: há manchas que ainda precisam ser analisadas para confirmar se são de origem humana.
O relatório preliminar descreve as pinturas como feitas nas cores vermelha e amarela, provavelmente de ocre, “massivamente recobertas por uma camada orgânica esbranquiçada, provavelmente líquenes”. Valle explica que o ferro é o mineral mais usado no mundo para a produção de pigmentos naturais em tons de vermelho, marrom e amarelo. A fração orgânica das tintas, de origem vegetal ou animal, costuma se perder com o tempo: nas análises químicas, a fração mineral é a que persiste.
“O levantamento é preliminar e outros sítios com essas características podem existir nessa área. Topamos com a ponta do iceberg, apenas”, disse Valle.
Um achado arqueológico, não uma “descoberta”
Os pesquisadores fazem uma distinção deliberada: o ineditismo vale apenas do ponto de vista do registro arqueológico ocidental. Os lugares são conhecidos dos povos Baniwa e Koripako há gerações e estão presentes em sua tradição oral.
“São lugares ancestralmente conhecidos, pelos quais os Baniwa e os Koripako têm grande respeito e com os quais estão entrelaçados. Alguns indígenas possuem chaves espirituais e corporais que permitem abrir essas casas de conhecimento para que pesquisem com os ancestrais, com os espíritos, com os animais, com as plantas, com as rochas, e com os heróis míticos que habitam esses lugares. Dessa maneira, esses sítios somente podem ser considerados ‘descobertas’ arqueológicas inéditas do ponto de vista da limitação amostral da arqueologia ocidental na Amazônia. Não estamos descobrindo e explorando o desconhecido e o abandonado, estamos, sim, generosamente sendo recebidos como aprendizes e sendo cobrados para pormos nossos conhecimentos técnicos e teóricos a serviço de demandas dos donos dessa casa-território.”
A fala é do arqueólogo Raoni Valle e sintetiza a postura metodológica adotada pelo projeto: o trabalho de campo é conduzido a partir das demandas das comunidades, não o contrário.
Estilo possivelmente inédito na Amazônia
A análise dos temas ainda é preliminar. Até o momento, não foram identificadas figuras antropomórficas nem zoomórficas sem ambiguidade. O material é tratado como constituído por “grafismos puros ou abstrato-geométricos, alguns potencialmente biomórficos”.
Um elemento chama a atenção dos pesquisadores: em alguns casos, o pigmento foi aplicado para seguir os contornos naturais da rocha. Valle observa que esse fenômeno ocorre também em Monte Alegre, no Pará, mas que a forma como é executado no Tiarn, na interface tinta-rocha, apresenta diferenças.
“Sugerem fortemente que o suporte, em si, já era significativo, sensorial e simbolicamente ativo para as pessoas que pintaram naqueles abrigos, e que o uso de tinta, eventualmente, funcionaria como processo de reativação cognitiva da sacralidade situada no espaço geológico paulatinamente familiarizado por humanos e espíritos”, disse Valle. A observação aponta, segundo ele, para um possível estilo novo de pinturas rupestres amazônicas, a ser confirmado com o avanço das pesquisas.
Estimativa aponta para o holoceno médio
Datações confiáveis ainda não são possíveis. A hipótese de trabalho situa as pinturas no holoceno médio, entre 8.000 e 4.000 anos antes do presente. A estimativa se baseia na relação entre as pinturas e processos naturais acumulados depois que os grafismos foram feitos.
Um dos indícios é a presença de líquenes sobre as pinturas, e não sob elas. O raciocínio dos pesquisadores é que, se as pinturas foram feitas em superfícies sem líquenes, as condições climáticas eram diferentes das atuais. Estudos paleoambientais na Amazônia registram indicadores de menor umidade no holoceno médio. Um dos próximos passos é tentar datar os líquenes para estabelecer um limite mínimo de idade para a arte.
“A gente não vai liberar ainda”
Sidney Garcia, pesquisador do povo Baniwa com licenciatura intercultural indígena pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), integra a equipe do projeto desde o início. Indicado pela sua pesquisa sobre lugares sagrados no território, ele esteve nas expedições ao rio Içana e relata que as pinturas não eram conhecidas presencialmente pela geração atual.
“Foi muito bom. Eu tenho certeza que daqui pra frente a gente vai ter mais, porque estamos no começo ainda”, disse. Mas Sidney foi igualmente claro quanto ao acesso: a comunidade decidiu restringir as visitas ao sítio.
“A gente não quer que alguém chegue querendo ver, tirar fotos. Na nossa reunião, a gente não vai liberar ainda. A gente não vai aceitar pesquisadores, qualquer pesquisador, pode ser do nosso país ou de fora.”
Qualquer mudança nessa decisão, afirmou, será discutida na e pela comunidade. O Museu Goeldi disponibilizou a fala completa de Sidney Garcia em áudio no canal do Museu Goeldi no YouTube, para preservar a integridade da expressão oral do pesquisador.
Três territórios, múltiplas frentes de pesquisa
O “Projeto Vozes” abrange três terras indígenas: o Alto Rio Negro (AM), onde está o achado rupestre; a TI Kaiapó (PA), que teve sua primeira expedição em 2025; e a TI do Xingu (MT), onde o projeto dá continuidade a quatro décadas de pesquisa com o povo Kuikuro. Além da arqueologia, as frentes incluem inventários biológicos, descrição de novas espécies, documentação de práticas culturais, geoprocessamento e levantamentos com tecnologia Lidar, um sistema a laser de coleta de dados topográficos de alta precisão.
As três terras indígenas abrangidas pelo projeto reúnem, segundo estimativa do Instituto Socioambiental (ISA), mais de 38,5 mil pessoas: cerca de 26 mil na TI Alto Rio Negro, 6,3 mil na TI Kayapó e 6,1 mil na TI Xingu.
A coordenadora do projeto, a arqueóloga Helena Lima, do Museu Goeldi, descreve a proposta como uma tentativa de unir metodologias da ciência acadêmica e da ciência indígena. “A floresta que se forma nessas regiões é um mosaico de florestas culturais, uma floresta que nasce biodiversa, justamente dessas interações de povos, de comunidades com o ambiente, ao longo de gerações, de séculos e de milênios de ocupação indígena”, afirmou.
Para Lima, os três territórios são estratégicos: “As terras indígenas são locais da Amazônia cuja biodiversidade está preservada e isso se deve à própria relação que esses povos têm com esses lugares.”
Demandas das comunidades guiam o projeto
Uma preocupação transversal ao projeto é a produção de materiais em línguas indígenas, para uso na educação escolar e na transmissão do conhecimento dos mais velhos às gerações futuras. Entre os produtos já viabilizados está o primeiro volume do dicionário Kuikuro-Português: Inhanhingü (obra, artefato, artesanato), resultado de parceria entre o Museu Goeldi e o Museu Nacional/UFRJ. Estão em desenvolvimento dicionários temáticos sobre plantas e mapas interativos com narrativas e formas de respeito associadas a lugares sagrados.
O projeto é apoiado pela iniciativa Amazônia +10, por meio do edital “Expedições Científicas”, uma parceria entre o CNPq e as fundações estaduais de amparo à pesquisa (Confap). Recebe ainda financiamento da Fapespa, Fapeam, Fapesp, Faperj e do órgão britânico UK Research and Innovation (UKRI). Foi aprovado em primeiro lugar no edital.
Glossário
- Arte rupestre: Expressões visuais feitas em rochas, divididas em pinturas (pictogramas) e gravuras (petróglifos).
- Biomorfo: Figura que evoca a forma de um organismo vivo, sem representar um ser identificável com precisão.
- Holoceno médio: Período geológico entre aproximadamente 8.000 e 4.000 anos antes do presente, marcado por variações climáticas significativas na Amazônia.
- Lidar: Tecnologia de sensoriamento remoto a laser que gera dados topográficos de alta precisão e resolução.
- Ocre: Matéria-prima corante de origem mineral, obtida a partir de óxidos de ferro, usada na produção de pigmentos em tons de vermelho, marrom e amarelo.
- Paleoecologia: Estudo das relações entre organismos e ambientes do passado, com base em registros fósseis e sedimentares.
- Petróglifo: Gravura rupestre feita pela remoção de matéria rochosa, deixando sulcos ou incisões na superfície.
- Tiarn: Sigla para Terra Indígena Alto Rio Negro, localizada no extremo noroeste do Amazonas.