- Projeto Territórios Conectados leva inclusão digital a escolas indígenas de Maués.
- Professores receberam tablets e capacitação para produzir conteúdos na língua Sateré-Mawé.
- Iniciativa fortalece a cultura indígena e amplia oportunidades educacionais nas comunidades.
“Os professores falam mais sateré do que português com a gente e ajuda muito.” A frase da estudante indígena Hanna Sophia resume uma transformação que está acontecendo em algumas das regiões mais isoladas do Amazonas. Em Maués, município a 257 km de Manaus, que abriga grande parte da Terra Indígena Andirá-Marau, a tecnologia está chegando às escolas indígenas não para substituir tradições, mas para ajudar a preservá-las.
O Projeto Territórios Conectados é uma iniciativa do UNICEF Brasil desenvolvida pelo programa de Letramento Digital para a Educação Indígena. Em Maués, ele é conduzido em parceria entre a Secretaria Municipal de Educação (SEMED), o Projeto Makira-E’ta da Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas e pelo Fórum de Educação Escolar Indígena do Estado (Foreia).
O projeto, que começou em 2024 no município, entrou em uma nova etapa em junho deste ano com a entrega de tablets e a formação digital de professores indígenas. Mas esse ensino técnico é só parte da história. A ação vai mais além e alcança dez escolas localizadas em comunidades dos rios Marau, Urupadi e Igarapé do Miriti, beneficiando diretamente centenas de estudantes e educadores do povo Sateré-Mawé.
A língua como ponto de partida
Maisângela da Silva Oliveira, comunicadora do projeto, coloca em palavras o que muitos já sentiam nas aldeias:
“A nossa língua materna é uma forma de resistência para nós hoje. É uma forma que a gente preserva a nossa cultura, a nossa identidade. Hoje a gente usa as tecnologias, principalmente para comunicar o que acontece dentro dos nossos territórios, a educação, saúde, cultura. É uma forma que a gente preserva, mas também transmite para outras pessoas sobre as nossas vivências nas aldeias.”
A língua Sateré-Mawé, porém, assim como outros idiomas indígenas, enfrenta um obstáculo concreto dentro das próprias escolas. Ele está muito frequente no falar, porém quase ninguém sabe usar a forma escrita.
“Sabemos falar muito bem a nossa língua materna, mas na hora de escrever, a gente tem essa dificuldade”, revelou Raquel Pereira Michiles, gestora da Escola Municipal Indígena Manoel Michiles Filho.
É nessa lacuna que o projeto atua. Segundo o professor José Oliveira Puruwei Nek’i, que é Sateré-Mawé, mestre em linguística e referência na formação dos docentes indígenas da região, apesar de haver uma gramática pedagógica da língua Sateré desde 2005, ela nunca havia sido utilizada para a formação dos professores da rede indígena de educação.
“Daí houve uma necessidade de ter essa formação linguística. Se a língua não for multiplicada, se não for repassada, a tendência é ser pressionada, oprimida pela língua majoritária, que é o português. Com essa formação, os professores terão muito mais facilidade de trabalhar em todos os níveis, desde a alfabetização até o ensino médio.”
E os efeitos dessa mudança já aparecem. Mas não apenas na sala de aula, como citamos no início dessa reportagem com a fala da estudante Hanna, mas também em movimentos do uso das tecnologias dentro das comunidades onde o projeto está inserido.
Uma tecnologia que fortalece identidades
Quando o projeto começou, o objetivo era ampliar o acesso às ferramentas digitais nas escolas indígenas. Mas os resultados ultrapassaram a inclusão tecnológica.
Nas comunidades, professores, estudantes, lideranças e moradores passaram a utilizar os recursos digitais, e a internet implantada pelo projeto, para registrar conhecimentos tradicionais, histórias, rituais, plantas medicinais, alimentos típicos e costumes transmitidos entre gerações.
Segundo a professora Ariadne Vieira, do Centro de Tecnologia e Robótica de Maués, um dos aspectos mais marcantes da iniciativa foi justamente a forma como a tecnologia passou a ser utilizada como aliada da cultura indígena.
“O que mais me impressiona é perceber que a tecnologia não está substituindo a cultura, mas ajudando a fortalecê-la. Ver crianças e jovens produzindo materiais na língua Sateré-Mawé, valorizando seus conhecimentos tradicionais e se tornando protagonistas da própria história mostra que estamos no caminho certo.”
Inclusive, alguns professores passaram a usar o celular para gravar o dia-a-dia das aldeias e criar vídeos para perenizar os ensinos e a cultura ancestral da comunidade.
“Nós utilizamos algumas ferramentas tecnológicas para, de alguma forma, engajar e levar a nossa cultura entre crianças, jovens e adolescentes. Um dos exemplos foi o uso do celular, das filmagens. Nós registramos as nossas histórias através do celular e repassamos isso para a comunidade. Transformamos isso como material didático, através de pesquisas, através de trabalho de aula mesmo”, explicou o professor indígena Rodrigo Lopes Nascimento, em um vídeo de divulgação do projeto.
Como o projeto surgiu?
O projeto surgiu após lideranças e representantes do setor indígena da Secretaria Municipal de Educação identificarem a necessidade de ampliar o acesso às tecnologias educacionais dentro das comunidades. A partir dessa demanda, foi construída uma rede de colaboração envolvendo organizações indígenas, educadores, instituições de ensino e organismos internacionais.
Mas antes de qualquer equipamento chegar, foi preciso entender o que as comunidades precisavam. “Eles estiveram nas comunidades e viram essa necessidade. Então solicitaram o apoio do Centro de Tecnologia e Robótica, e veio essa oportunidade junto ao UNICEF”, explicou Ariadne Vieira.
A partir daí, iniciaram-se as formações. Elas aconteceram dentro das próprias aldeias e também no Centro de Tecnologia e Robótica de Maués.
A primeira fase do projeto focou na construção de material didático na língua materna. O objetivo era criar dez livros digitais, mas o resultado foi além do esperado. Ao todo, foram produzidos oito e-books temáticos e 26 materiais paradidáticos na língua Sateré-Mawé, sobre plantas medicinais, artesanato, vestimentas e rituais. As publicações foram elaboradas com a participação direta de 481 moradores das aldeias.
Todos os e-books estão disponíveis no final da matéria e podem ser baixados.
“O objetivo era fazer com que eles pudessem estar unidos com o mesmo objetivo na educação escolar indígena. Trazer também um material pra eles em forma de e-book para começar a trabalhar todas as disciplinas, do primeiro ao nono ano, relacionadas à cultura Sateré. Não só a cultura vivenciada fora do contexto indígena, mas principalmente relacionada à cultura indígena,”, explicou ex-coordenadora do Territórios Conectados em Maués, Amanda Cristhina Rocha de Macedo, psicopedagoga e doutora em Ciências da Educação.
Essa primeira fase foi encerrada no início deste ano, com uma Mostra Pedagógica, realizada em fevereiro de 2026, com estandes de exposição dos cinco polos atendidos e apresentações dos materiais produzidos em cada comunidade.
O que o primeiro ciclo alcançou
Os números do primeiro ciclo do Territórios Conectados em Maués registram o alcance do trabalho:
- 994 estudantes beneficiados nas dez escolas indígenas
- 284 professores e lideranças capacitados
- 275 participantes em formações de letramento digital, incluindo gestores e membros das comunidades
- 26 materiais paradidáticos e 8 e-books temáticos produzidos, a maioria em língua Sateré-Mawé
O projeto contou ainda com parcerias do Instituto Federal do Amazonas em Maués, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), do Centro de Tecnologia e Robótica de Maués e da Foreia, Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas.
As escolas e comunidades atendidas
Distribuídas entre os rios Marau, Urupadi e Igarapé do Miriti, essas escolas representam centros de preservação da cultura Sateré-Mawé e agora também se tornam referências na integração entre educação indígena e tecnologia.
- E.M.I. Anumarehit’i, Campo do Miriti, Igarapé do Miriti
- E.M.I. Arianty Erutat, Santa Isabel, Rio Marau
- E.M.I. Gap Nuiruhig e Anexo Lírio do Vale, Vila Nova, Rio Marau
- E.M.I. Manoel Michiles Filho e Anexo São Raimundo, Nova Esperança, Rio Urupadi
- E.M.I. Mypynugkuri e Anexo Nova Jerusalém, Ilha Michiles, Rio Marau
- E.M.I. Nyiwai, São Bonifácio, Igarapé do Miriti
- E.M.I. Uihire’i, Santa Maria, Rio Urupadi/Manjuru
- E.M.I. Uniawasap’i, N.S. de Nazaré, Rio Marau
- E.M.I. Warana, Sagrado Coração de Jesus, Rio Urupadi
- E.M.I. Wasiri, Santa Maria, Rio Urupadi/Manjuru
Tablets e formação digital marcam nova fase
No início de junho, a Secretaria Municipal de Educação iniciou a entrega de 50 tablets destinados aos professores indígenas participantes do projeto.
Além dos equipamentos, os educadores começaram uma formação prática de 80 horas que inclui ferramentas do Google for Education, pensamento computacional alinhado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e metodologias inovadoras de ensino.
Os participantes atuarão como multiplicadores desse conhecimento em suas comunidades.
“Ele possa ter mais suporte, mais recursos para trabalhar em sala de aula, minimizando os obstáculos e trazendo o povo Sateré-Mawé mais conectado, tanto com os brancos, quanto com as outras aldeias, quanto com outros parentes também”, enfatizou Amanda Rocha.
Biblioteca offline
Um dos desdobramentos do profeto financiado pelo UNICEF nas aldeias de Maués deve ser a criação de uma biblioteca digital offline. A plataforma permitirá que os materiais produzidos durante o projeto sejam acessados mesmo em locais sem conexão à internet.
Segundo Josiney Porto, assessor da iniciativa, a medida busca garantir que os conteúdos permaneçam disponíveis para estudantes e professores independentemente das limitações de conectividade existentes na região. No entanto, a implantação encontra-se paralisada devido a um problema técnico. “Estamos aguardando o retorno da equipe”, informou.
Mesmo sem a biblioteca offline, o projeto Territórios Conectados já proporcionou uma revolução nas comunidades indígenas onde foi implantado. Mais do que conectar escolas à internet, o projeto busca conectar gerações ao próprio patrimônio cultural. Em um território onde a língua materna continua sendo a principal guardiã da memória coletiva, cada material produzido, cada formação realizada e cada tablet entregue representam novas oportunidades para que os saberes tradicionais continuem vivos nas próximas gerações.
E-Books
Glossário
- Sateré-Mawé: Povo indígena tradicional da região dos rios Andirá e Marau, no Amazonas.
- TDICs: Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação aplicadas à educação.
- Letramento digital: Capacidade de utilizar tecnologias digitais para aprender, produzir e compartilhar conhecimento.
- Terra Indígena Andirá-Marau: Território demarcado nos municípios de Maués, Barreirinha e Parintins, habitado principalmente pelo povo Sateré-Mawé.
- Google Workspace for Education: Conjunto de ferramentas digitais do Google para uso escolar, como Google Sala de Aula, Drive e Meet.
