- Pesquisadores mapearam 187 biofábricas na Amazônia Legal brasileira, concentradas em apenas 72 dos 559 municípios da região.
- O levantamento cruzou fontes secundárias publicadas entre 2021 e 2024 com dados primários de campo, validados pelo CNPJ de cada unidade.
- O estudo aponta desigualdade territorial na bioeconômica amazônica: 62% da população vive em municípios sem infraestrutura industrial para processar biodiversidade.
Um estudo publicado em maio de 2026 na revista Sustainability identificou 187 biofábricas baseadas em biodiversidade na Amazônia Legal brasileira, distribuídas por apenas 72 dos 559 municípios que compõem a região. A pesquisa, conduzida por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), da Universidade de São Paulo (USP) e de outras instituições, oferece o primeiro panorama estruturado desse setor industrial e aponta uma concentração geográfica que contraria os objetivos das políticas de descentralização econômica.
O setor alimentício domina o mapa: 74% das biofábricas atuam na produção de alimentos, com destaque para polpas de frutas como açaí, cupuaçu e bacuri. Em segundo lugar aparece o setor de cosméticos, com 14% das unidades, seguido pelo setor de químicos orgânicos, voltado à produção de óleos e manteigas vegetais, com 9%.
Manaus e Belém concentram metade das unidades
Seis municípios, Manaus, Belém, Castanhal, Santarém, Benevides e Igarapé-Miri, respondem por 50% das biofábricas identificadas, mas abrigam apenas 18% da população total da Amazônia Legal. No extremo oposto, os pesquisadores não encontraram registros de biofábricas em 487 municípios, onde vivem cerca de 14 milhões de pessoas, ou seja, 62% da população da área de estudo.
Manaus lidera com 33 unidades, seguida por Belém (27), Castanhal (10) e Santarém (10). Quatro estados, Roraima, Rondônia, Maranhão e Tocantins, não tiveram nenhuma biofábrica identificada nas fontes consultadas.
O contraste chama atenção quando comparado a outros setores. Em Manaus, as 33 biofábricas ficam bem abaixo das 553 empresas de manufatura convencional do Polo Industrial de Manaus (PIM) em 2025, cuja produção concentra-se em eletrônicos, motos e produtos químicos. No plano regional, o número total de biofábricas é menor do que os 132 frigoríficos registrados na Amazônia em 2023.
PIB municipal explica a distribuição das biofábricas
A análise estatística mostrou associação positiva e significativa entre o Produto Interno Bruto (PIB) municipal e a quantidade de biofábricas. O modelo de regressão binomial negativa com o PIB total em escala logarítmica apresentou o melhor ajuste, com o coeficiente positivo e altamente significativo. Municípios com maior atividade econômica tendem a reunir mais unidades de processamento de biodiversidade.
O PIB per capita, por sua vez, mostrou ajuste muito inferior. Isso indica que o que importa é o tamanho absoluto da economia local, não a renda média da população. Municípios economicamente maiores oferecem melhor infraestrutura, acesso a mercados e capacidade institucional, fatores que sustentam a atividade industrial.
O caso de Parauapebas ilustra bem os limites dessa relação. O município tem o maior PIB do Pará, puxado pela mineração, mas registra apenas uma biofábrica. Economias baseadas em commodities de larga escala não geram necessariamente os encadeamentos produtivos que favorecem a bioindustrialização.
Baixa intensidade tecnológica marca o setor
A maior parte das biofábricas identificadas opera em setores classificados como de baixa intensidade tecnológica, segundo a taxonomia da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O processamento de alimentos, o mais comum na região, exige pouca infraestrutura e investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D). O mesmo vale para a fabricação de cosméticos simples e óleos vegetais.
Apenas uma biofábrica foi identificada no setor de biotecnologia avançada, localizada em Manaus. Esse segmento demanda laboratórios especializados em áreas como biologia computacional, enzimologia e microbiologia industrial, além de integração com centros de pesquisa e políticas públicas de incentivo à inovação.
Para os autores, essa concentração em setores de baixo valor agregado reflete limitações estruturais históricas: escassez de infraestrutura, ausência de mão de obra qualificada e falta de investimentos em ciência e tecnologia na região.
Sem processamento local, comunidades ficam à margem da cadeia
A ausência de biofábricas em grande parte dos municípios não significa necessariamente que não há produção. Muitas comunidades coletam matérias-primas de florestas e rios, mas vendem para intermediários, os chamados atravessadores, que compram por preços baixos e revendem com margens elevadas. Sem infraestrutura de processamento ou cadeia de frio, produtos perecíveis simplesmente não chegam ao mercado.
O estudo cita o exemplo da cooperativa COOPMAS, em Lábrea (AM), que mantém parcerias com dezenas de organizações em municípios vizinhos sem biofábricas, como Tapauá e Canutama, comprando matéria-prima a preços justos para processar em suas instalações. Esse modelo, em que uma única unidade atende uma área geográfica ampla, pode ser uma saída para construir cadeias de valor mais inclusivas.
Metodologia: fontes cruzadas e validação por CNPJ
O levantamento partiu de seis fontes secundárias publicadas entre 2021 e 2024, com dados sobre biofábricas na Amazônia, e adicionou 36 registros primários obtidos em campo pelos próprios pesquisadores. De um total de 467 entradas analisadas, 280 foram descartadas por não atenderem aos critérios de inclusão.
Para ser incluída, cada unidade precisava cumprir três condições simultâneas: utilizar espécies nativas amazônicas, possuir infraestrutura de processamento industrial e estar localizada dentro da Amazônia Legal. Artesanato, varejo e prestadores de serviço foram excluídos.
A validação foi feita por meio do CNPJ de cada empresa, consultado diretamente no site da Receita Federal. As coordenadas geográficas foram obtidas via Google Maps e cruzadas com o endereço vinculado ao registro. O mapeamento final usou o software QGIS, com sistema de referência SIRGAS 2000.
Os autores reconhecem que o levantamento pode subestimar o total de biofábricas existentes. Unidades que operam fora das redes formais de informação, em regiões de difícil acesso, podem não ter sido captadas. Os dados completos estão disponíveis como material suplementar do artigo publicado na revista Sustainability.
Para os pesquisadores, os resultados reforçam que a biodiversidade amazônica está distribuída por toda a região, mas a capacidade de processá-la industrialmente não. Sem investimentos deliberados em infraestrutura, tecnologia e crédito fora dos centros econômicos consolidados, a bioindustrialização tende a reproduzir as desigualdades territoriais existentes, em vez de superá-las.
O estudo foi publicado em 29 de maio de 2026 e integra a linha de pesquisa do Painel Científico para a Amazônia (SPA) e pode ser conferido, já traduzido, abaixo.
Sobre os pesquisadores
Diego Oliveira Brandão é biólogo e cientista com foco em biodiversidade e mudanças no uso da terra nos biomas amazônico e do cerrado. Doutor em Ciências do Sistema Terrestre pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), também tem mestrado em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Montes Claros.
Julia Arieira é ecóloga vegetal especializada na dinâmica de áreas úmidas tropicais, com pesquisas em fitossociologia, fenologia e estoques de carbono. Integra o secretariado científico do Painel Científico para a Amazônia e é pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Zonas Úmidas (INCT-INAU).
Lauro Euclides Soares Barata é professor de Química Orgânica da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), doutor pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e agraciado com a Medalha de Mérito da Federação Internacional de Óleos Essenciais e Comércio de Aromas (IFEAT).
Artigo
Glossário
- Biofábrica: Unidade de produção formalmente registrada com infraestrutura para transformar matérias-primas da biodiversidade em produtos industrializados com valor agregado.
- Bioeconomia: Modelo econômico baseado no uso sustentável de recursos biológicos, como plantas, animais e microrganismos, para gerar produtos e serviços.
- CNPJ: Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, registro oficial de empresas no Brasil mantido pela Receita Federal.
- OCDE: Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que define padrões de classificação de intensidade tecnológica da indústria.
- PIB: Produto Interno Bruto, soma de todos os bens e serviços produzidos em um território em determinado período.
- QGIS: Software livre de sistema de informação geográfica usado para mapeamento e análise espacial.
- P&D: Pesquisa e Desenvolvimento, conjunto de atividades voltadas à criação de novos conhecimentos e sua aplicação em produtos ou processos.
