- A Ufam testou pela primeira vez a biogasolina drop-in misturada à gasolina pura, sem etanol, em motor de combustão interna.
- O ensaio seguiu norma experimental, com tempo padrão de teste e variações de carga, em motor usado em pequenas embarcações.
- A matéria-prima vem da gordura descartada pelas indústrias do Polo Industrial de Manaus, hoje destinada à incineração.
Pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) realizaram, no Laboratório de Termociências da instituição, o primeiro teste da biogasolina drop-in misturada à gasolina comum sem etanol em um motor de combustão interna. O combustível é produzido a partir da gordura descartada pelas indústrias do Polo Industrial de Manaus (PIM), matéria que hoje é majoritariamente incinerada.
A biogasolina drop-in é um biocombustível de base renovável, obtido a partir de biomassa ou óleos vegetais, com composição quimicamente equivalente à da gasolina derivada de petróleo. Essa equivalência permite, em tese, seu uso em motores já existentes sem necessidade de adaptação.
Como foi feito o teste no laboratório
O experimento ocorreu em uma bancada do laboratório de termociências, onde a equipe monitorou diversos parâmetros de funcionamento do motor. Segundo o professor do Departamento de Engenharia Mecânica, Nilton Pereira da Silva, diretor do Centro de Desenvolvimento Energético Amazônico (CDEAM), a pesquisa avalia o desempenho de um motor de combustão interna do tipo usado em pequenas embarcações (rabeta), alimentado por biocombustível.
“A nossa metodologia de teste basicamente segue aquilo previsto pela norma experimental. A gente estabelece um tempo padrão de teste e vai realizando variações de carga”, explicou Nilton Pereira da Silva.
O professor destacou ainda o caráter colaborativo do projeto, que reúne diferentes laboratórios da Ufam. “É muito importante esse desenvolvimento para o avanço tecnológico das pesquisas que estão sendo desenvolvidas aqui no laboratório, junto com o grupo de pesquisa (em Tecnologias Biossustentáveis da Amazônia) da Ufam e com o professor Douglas, do Departamento de Engenharia Química”, afirmou.
Mistura de 5% sem etanol
Para este ensaio, a equipe optou por uma mistura com proporção definida de biocombustível. De acordo com o professor Douglas Castro, o teste usou 5% de biogasolina em volume, adicionados à gasolina sem etanol, tanto para avaliar emissões quanto para medir o desempenho do motor.
“Vocês podem perceber que a biogasolina se mistura completamente na gasolina sem etanol”, afirmou Douglas Castro durante o ensaio, no qual o tanque utilizado tinha capacidade de um litro e meio.
A ausência de etanol na mistura de referência é um ponto relevante do teste: ela isola o comportamento da biogasolina drop-in frente à gasolina pura, sem a interferência de outro composto oxigenado já presente na formulação comercial brasileira.
Origem do combustível: gordura do polo industrial
A biogasolina testada tem origem na gordura descartada pelas indústrias do PIM, um resíduo processado em laboratório para se transformar em frações de combustível. O aproveitamento desse material integra uma linha de pesquisa mais ampla do Grupo de Pesquisa em Tecnologias Biossustentáveis da Amazônia (GP-TECBIOAM), que já produziu também bioquerosene, diesel verde e um combustível equivalente ao bunker usado em navios a partir da mesma matéria-prima, conforme detalha o projeto de conversão de gordura industrial em biocombustíveis da Ufam.
Segundo o professor Douglas Castro, o marco alcançado nesta etapa amplia as fronteiras da inovação desenvolvida na universidade e reforça o potencial de aplicação prática da pesquisa em motores reais, não apenas em análises de bancada.
Próximos passos da pesquisa
Os resultados do ensaio em motor ainda estão em fase de análise. A validação completa da rota tecnológica depende de testes adicionais e, eventualmente, de análises em laboratório credenciado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), passo necessário para que o combustível avance rumo a uma eventual aplicação comercial.
Glossário
- Biogasolina drop-in: biocombustível renovável, produzido a partir de biomassa ou óleos vegetais, quimicamente equivalente à gasolina de petróleo.
- CDEAM: Centro de Desenvolvimento Energético Amazônico, vinculado à Ufam.
- PIM: Polo Industrial de Manaus, conjunto de indústrias que gera o resíduo de gordura usado como matéria-prima da pesquisa.
