- A Fiocruz Amazônia recebeu uma estação de referência de qualidade do ar em Manaus, parte da Plataforma FioAres.
- O equipamento mede material particulado fino (PM2,5) a cada hora e envia dados em tempo real para a nuvem.
- A estação deve reforçar o monitoramento da poluição por queimadas durante a estação seca amazônica, período de maior risco à saúde respiratória.
A Fiocruz Amazônia recebeu, no início de julho, uma estação de referência para monitoramento da qualidade do ar. O equipamento integra a Plataforma FioAres e passa a medir, em tempo real, a concentração de material particulado fino (PM2,5) na capital amazonense, um dos poluentes mais associados aos episódios de fumaça registrados na região durante os períodos de seca.
A estação de Manaus faz parte de um conjunto de cinco unidades de referência que estão sendo implantadas em municípios estratégicos da Amazônia: Rio Branco (AC), Porto Velho (RO), Manaus (AM), Santarém e Belém (PA). O objetivo é fortalecer o monitoramento ambiental em uma região que, até agora, contava apenas com estações indicativas, sem capacidade de gerar dados de referência comparáveis.
A implantação reúne pesquisadores de diferentes unidades da Fiocruz e de instituições parceiras. A coordenação nacional das atividades é feita pela pesquisadora Beatriz Oliveira, da Fiocruz Piauí. Em Manaus, a operacionalização local fica a cargo de uma equipe formada pelos pesquisadores Fernanda Fonseca, Polari Batista e Paula Morelli, do ILMD/Fiocruz Amazônia, em parceria com Rodrigo Souza, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Como funciona o equipamento
O equipamento tem aproximadamente 2,15 metros de altura e pesa cerca de 39 kg. A cada hora, ele realiza análises de concentração de material particulado fino, temperatura e umidade, com os dados enviados automaticamente para armazenamento em nuvem. A meta é que essas informações componham, futuramente, uma plataforma unificada de acesso público.
Fernanda Fonseca, coordenadora do Laboratório de Modelagem em Estatística, Geoprocessamento e Epidemiologia da Fiocruz Amazônia, explica a função da estação para além da coleta direta de dados:
“Além de ampliar a capacidade de monitoramento da qualidade do ar, a estação contribuirá para a validação de sensores de baixo custo, dados de satélite e modelos atmosféricos, ampliando a cobertura do monitoramento ambiental e fortalecendo a geração de informações confiáveis sobre os impactos da poluição atmosférica, especialmente das queimadas, na saúde da população amazônica.”
Segundo ela, a chegada dessa infraestrutura fortalece a Amazônia como referência em pesquisas na interface entre ambiente, clima e saúde. “Os dados gerados contribuirão para ampliar o conhecimento sobre os padrões de poluição atmosférica na Amazônia e subsidiar ações de vigilância em saúde, prevenção de riscos e proteção da saúde da população”, ressalta.
O peso da estação seca e o histórico de fumaça em Manaus
A instalação chega em um contexto marcado por episódios recentes de poluição extrema em Manaus, concentrados justamente nos meses de seca. Em outubro de 2023, a cidade chegou a figurar entre as três piores do mundo em qualidade do ar, atingindo níveis classificados como perigosos à saúde durante dias seguidos de fumaça intensa, resultado da combinação entre uma seca histórica agravada pelo El Niño e o aumento expressivo de queimadas na região metropolitana. Em 2024, o cenário se repetiu em escala ainda maior: um relatório da Organização Meteorológica Mundial apontou que a maior anomalia de poluição atmosférica do ano ocorreu na bacia amazônica, resultado de incêndios florestais recordes na Amazônia ocidental, alimentados pela seca no norte da América do Sul.
É justamente nesse cenário de estiagens cada vez mais severas que a nova estação deve ter maior utilidade prática. Michelle Rocha El Kadri, vice-diretora de Pesquisa e Inovação da Fiocruz Amazônia, associa o monitoramento contínuo à realidade climática da região:
“Vivemos numa região que enfrenta longos períodos de estiagem com ocorrência de queimadas intensas e um processo desordenado de expansão urbana. A partir de agora poderemos medir, de fato, qual o impacto dessas atividades na qualidade do ar que respiramos.”
O físico Polari Batista, pesquisador do ILMD/Fiocruz Amazônia, detalha o ganho técnico que a estação representa justamente para o período de maior emissão de fumaça, entre agosto e outubro. Ele explica que, ao contrário de sensores de baixo custo, a estação de referência permite calibrar modelos regionais e globais que hoje não têm parâmetros medidos em solo na Amazônia:
“Esses dados em superfície serão utilizados para calibrar modelos regionais e globais, que até então não tinham referências em solo, e monitorar, relacionar e estudar diversas consequências na saúde envolvendo doenças respiratórias, uma vez que estas partículas finas entram livremente no organismo e se alojam nos alvéolos pulmonares.”
Na prática, isso significa que, durante as próximas estações secas, gestores de saúde e pesquisadores passarão a contar com um dado que faltou nas crises de 2023 e 2024: uma medição contínua e confiável da concentração de PM2,5 em Manaus, feita hora a hora, e não apenas estimativas de satélite ou índices internacionais colhidos à distância.
Calibração de outros sistemas e vigilância em saúde
Polari Batista destaca ainda que a estação servirá para calibrar iniciativas já existentes na região, como o projeto Selva (Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental), desenvolvido pela UEA em parceria com a Prefeitura de Manaus. A expectativa da equipe é que os dados coletados também alimentem, no futuro, sistemas nacionais de monitoramento voltados à população em geral.
A operação da Plataforma FioAres é conduzida pela Fiocruz em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e os dados das novas estações devem futuramente integrar o MonitorAr, sistema federal que disponibiliza ao público o Índice de Qualidade do Ar (IQAr) por localidade.
Glossário
- PM2,5: material particulado fino, com diâmetro de até 2,5 micrômetros, capaz de penetrar profundamente no sistema respiratório.
- ILMD/Fiocruz Amazônia: Instituto Leônidas e Maria Deane, unidade da Fiocruz responsável pela operacionalização local da estação em Manaus.
- FioAres: plataforma da Fiocruz que integra dados ambientais e de saúde a partir de estações de referência instaladas na Amazônia.
- UEA: Universidade do Estado do Amazonas, parceira local da pesquisa e do projeto Selva.
- IQAr: Índice de Qualidade do Ar, indicador usado pelo sistema MonitorAr para informar a população sobre as condições atmosféricas.
