café no pé robusta amazônico
  • O Amazonas saltou de 14 para mais de 120 sacas de café por hectare graças ao melhoramento genético de mudas.
  • A variedade robusta amazônico foi desenvolvida pelo IDAM em parceria com a Embrapa e associações de produtores.
  • Novas marcas regionais, como o Café Galo da Serra, mostram como a genética abriu caminho para o mercado.

A produção de café no Amazonas saltou de uma média de 14 sacas por hectare para mais de 120 sacas em áreas com manejo tecnificado, resultado direto do desenvolvimento de material genético adaptado ao clima da região. A mudança, conduzida pelo Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM) em parceria com a Embrapa e associações de produtores, substituiu variedades antigas, mais suscetíveis a pragas, por uma linhagem batizada de robusta amazônico. O avanço já se reflete na expansão da cafeicultura para novos municípios e no surgimento de marcas regionais próprias.

Segundo Ana Cecília Lobato, engenheira agrônoma do IDAM e coordenadora do projeto prioritário do café da instituição, o cultivo no estado começou com variedades de café arábica e com uma linhagem popularmente chamada de café conilon, mais vulnerável a doenças e de menor valor comercial. A pesquisa genética, feita em conjunto com a Embrapa e produtores locais, resultou em um material da espécie Coffea canephora adaptado às condições climáticas amazônicas.

“O material do robusta amazônico é adaptado às nossas condições climáticas e esse material também produz cafés especiais, o que não acontecia anteriormente.”

Segundo ela, estudos já demonstram que o café amazônico não alcança a qualidade do arábica, mas apresenta características semelhantes que podem justificar uma nova classificação comercial, com valorização do produto. Hoje, os produtores do estado utilizam tanto material genético da linha BRS, desenvolvido pela Embrapa, quanto sementes originárias de Rondônia, além de iniciativas próprias de seleção genética em alguns municípios.

A agrônoma Ana Cecília é coordenadora do projeto prioritário do café do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas (Idam) – Foto: Arquivo Pessoal.

Cuidado na compra de mudas: o risco do nematoide

A especialista alerta que quem deseja entrar na atividade deve buscar viveiros credenciados junto ao Ministério da Agricultura, já que essa certificação garante a ausência de pragas e doenças no material.

“O ideal, o correto, é comprar mudas de viveiros credenciados junto com o Ministério da Agricultura, porque vai garantir a isenção de pragas e doenças, principalmente uma que é o nematoide, que uma vez instalado no solo não é muito difícil de erradicar e vai causar problema na produção.”

Vários municípios amazonenses já contam com viveiros credenciados capazes de comercializar mudas dentro dessas exigências sanitárias.

Expansão geográfica e novas marcas regionais

Inicialmente concentrada no sul do Amazonas, em municípios como Apuí e Maués, a produção de café avançou para a região metropolitana de Manaus, incluindo Silves, Rio Preto da Eva, Presidente Figueiredo e Iranduba. Ana Cecília atribui o movimento à proximidade do mercado consumidor e à instalação de compradores como a fábrica Três Corações, que atua na região comprando exclusivamente de agricultores familiares. Também operam no estado a Fruta Café e o Café Dom Alfredo, além de iniciativas como o Festival do Café, realizado em Presidente Figueiredo para incentivar a produção local.

De acordo com a coordenadora, técnicos ligados à Três Corações relataram que toda a produção do Amazonas não seria suficiente para abastecer sozinha os fornos da fábrica na região, o que indica uma demanda superior à oferta atual, incluindo parte destinada à exportação. Para ela, esse cenário reforça que o crescimento de um produtor não compete com o de outro, já que o preço do café é definido pela qualidade do grão e não pela concorrência local.

Felipe Lavareda acreditou na força do café amazônico e criou uma marca própria – Foto: Arquivo Pessoal

Café Galo da Serra: de agricultor iniciante a marca própria

Um dos exemplos práticos dessa transição é Felipe Lavareda, líder regional do polo cafeiro do Amazonas e dono da marca Café Galo da Serra, em Presidente Figueiredo. Antes tecnólogo em agricultura e consultor ambiental, ele começou a plantar café em 2023, após uma conversa com o agrônomo do IDAM André Castilho. A primeira muda veio de Rondônia.

Hoje a propriedade tem 7 mil pés de café, com mais 9 mil sendo plantados neste ano, e produtividade acima de 120 sacas por hectare. A marca deixou embalagens improvisadas, impressas em impressora comum, para uma versão com fechamento a zíper voltada à conservação do produto.

Lavareda afirma que o objetivo é abastecer primeiro o mercado de Presidente Figueiredo, município turístico, e depois chegar às prateleiras de Manaus com o café robusta amazônico. Ele integra uma associação de produtores rurais que reúne outras marcas emergentes e defende que a expansão coletiva fortalece toda a cafeicultura do estado.

“Nós fazemos parte de uma associação de produtores rurais onde tem outras marcas de café também surgindo dentro da associação. E incentivamos outros produtores a seguir o mesmo caminho que fizemos. Porque é agregação de valor e mais rentabilidade com o produtor. Então, o que nós estamos desbravando, nós mostramos o caminho para os outros produtores também seguirem, pois quanto mais, melhor na cafeicultura do Amazonas”, finalizou Lavareda. 

Glossário

  • IDAM: Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas, órgão estadual de assistência técnica e extensão rural.
  • BRS: linha de cultivares de café desenvolvida pela Embrapa a partir de melhoramento genético.
  • Robusta amazônico: variedade da espécie Coffea canephora adaptada geneticamente às condições climáticas do Amazonas.
  • Nematoide: parasita de solo que ataca as raízes do cafeeiro e, uma vez instalado, é de difícil erradicação.

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