Demétrio Júnior é a terceira geração de pescadores e foi o escolhido para administrar a fábrica – Fotos: Fabíola Sanimbu/Agência Brasil
  • A fábrica Gelo Caboclo, movida a energia solar, entrou em operação em abril em Santa Helena do Inglês, no Amazonas, produzindo até uma tonelada de gelo por dia para pescadores ribeirinhos.
  • O projeto combina painéis fotovoltaicos, baterias de lítio e poço artesiano, com investimento de R$ 1,5 milhão viabilizado via PPBio da Suframa, com aportes da Positivo e da UCB Power.
  • A iniciativa reduz custos e emissões de carbono na cadeia da pesca artesanal e foi desenhada como modelo replicável para outras comunidades amazônicas sem acesso estável à energia.

Uma fábrica de gelo movida a energia solar entrou em operação em abril na comunidade ribeirinha de Santa Helena do Inglês, no município de Iranduba, no Amazonas. O projeto, divulgado pela Agência Brasil, é chamado Gelo Caboclo e tem capacidade de produzir uma tonelada de gelo por dia e armazenar até 20 toneladas, beneficiando diretamente mais de 30 famílias que vivem da pesca artesanal. A iniciativa reúne organizações sociais, empresas privadas e políticas públicas federais, com investimento total de R$ 1,5 milhão.

Antes da fábrica, os pescadores de Santa Helena do Inglês precisavam buscar gelo em Manaus, a cinco horas de barco. O custo incluía combustível, mão de obra e a perda pelo derretimento durante o trajeto.

Nelson Brito, pescador de 49 anos e terceira geração da família na profissão, descreve a situação anterior:

“Se a gente precisava de uma tonelada, comprava três, para garantir a manutenção do pescado até o fim da pesca. Se naquele mês não desse peixe, perdia tudo.”

Com o Gelo Caboclo, o pescador compra o gelo apenas depois de garantir a captura, eliminando o risco de despesa sem retorno.

Como o projeto foi estruturado

A demanda foi identificada pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), que mobilizou o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam). O Idesam gere o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), política pública da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).

Por meio do PPBio, a empresa Positivo aportou R$ 1,3 milhão em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), com contrapartida em benefícios fiscais. A UCB Power complementou com R$ 200 mil em baterias de lítio.

A infraestrutura inclui um poço artesiano para abastecimento exclusivo de água, uma usina de placas fotovoltaicas e baterias capazes de manter a produção de forma ininterrupta, sem depender da rede elétrica convencional.

A criação do projeto envolveu a FAS e o Idesam, que através da Lei de incentivo à bioeconomia, captaram os recursos junto a Positivo, para PD&I, e os equipamentos fotovoltaicos com a empresa UCB Power.

Gestão comunitária e sustentabilidade econômica

Após a conclusão das obras, a própria comunidade escolheu o gestor do empreendimento. O escolhido foi Demétrio Júnior, irmão mais novo de Nelson Brito e também pescador.

Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS, explica a lógica do modelo:

“Com assessoria e assistência técnica, a gente também traz uma preocupação de capacitar as pessoas para a gestão do empreendimento, para que ele se torne sustentável do ponto de vista econômico.”

Demétrio Júnior projeta que, na temporada de pesca, a fábrica atenderá 70% da demanda local. Os 30% restantes serão complementados com gelo comprado em Manaus durante as viagens de venda do pescado. Fora da temporada, o gelo abastecerá o turismo e a agricultura familiar, que usa o insumo para conservar a goma de tapioca.

Para cobrir os custos de manutenção da usina, do poço e dos equipamentos, o gestor planeja diversificar as receitas.

“A gente já está estudando outras fontes de receita para agregar valor ao comércio, além do gelo. Então, vamos vender também mantimentos para os pescadores”, diz Demétrio Júnior.

Impacto ambiental e potencial de replicação

O uso de energia solar reduz as emissões de gases de efeito estufa associadas ao deslocamento de embarcações movidas a combustível fóssil para buscar gelo em Manaus. A geração fotovoltaica também resolve um problema estrutural da região: a instabilidade da rede elétrica convencional.

Nelson Brito ilustra o problema:

“A energia que chega pela rede falta sempre. Com as chuvas constantes da região, é comum cair uma árvore sobre a linha e a gente passar dias até que ela seja restabelecida.”

Valcléia Lima destaca que o projeto foi concebido como modelo replicável.

“Um estudo do Instituto de Energia e Meio Ambiente mostra que quase 1 milhão de amazônidas não têm acesso à energia e a energia é habilitadora para a atividade de geração de renda”, afirma.

A localização em uma Unidade de Desenvolvimento Sustentável exigiu licenciamento específico, também viabilizado pela FAS, o que reforça o caráter de referência do projeto para outras comunidades ribeirinhas da Amazônia.

Glossário

  • Energia fotovoltaica: Tecnologia que converte luz solar diretamente em eletricidade por meio de painéis compostos por células semicondutoras.
  • Baterias de lítio: Dispositivos de armazenamento de energia elétrica com alta densidade energética, usados para garantir fornecimento contínuo mesmo sem geração solar ativa.
  • PPBio (Programa Prioritário de Bioeconomia): Política pública da Suframa que incentiva investimentos em inovação na Amazônia por meio de benefícios fiscais vinculados à Zona Franca de Manaus.
  • PD&I (Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação): Categoria de investimento empresarial voltada à criação ou aprimoramento de produtos, processos e tecnologias.
  • Unidade de Desenvolvimento Sustentável: Área protegida que permite uso sustentável dos recursos naturais por populações tradicionais, com restrições ambientais específicas.

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