- Cientistas confirmam que geoglifos na Amazônia são obra de uma civilização antiga, não da natureza.
- Um escaneamento a laser sobre a floresta encontrou centenas de construções escondidas sob as árvores.
- O achado sugere que até 3 milhões de pessoas viveram organizadas nessa região há quase 2 mil anos.
Um grupo de pesquisadores confirmou que centenas de estruturas de terra encontradas na fronteira entre o Acre e o Amazonas são obra de uma civilização antiga que ocupou a Amazônia muito antes da chegada dos europeus. O estudo, publicado na revista Nature nesta quarta-feira (29), mostra que essas construções não são formações naturais nem coincidências do relevo: são sinais de que uma sociedade organizada viveu ali, com divisão de trabalho, planejamento e conhecimento suficiente para erguer obras que resistem até hoje, escondidas pela mata.
Batizada pelos pesquisadores de civilização Aquiry, esse povo construiu recintos em formato geométrico, cercados por valas e muretas de terra, que serviam como espaços de encontro, celebração e decisão política para comunidades espalhadas pela floresta. Não são vilarejos comuns nem fortificações: tudo indica que eram locais de reunião, usados periodicamente por diferentes grupos que viviam nas proximidades.
Como essas construções foram descobertas
Até pouco tempo atrás, encontrar esse tipo de estrutura dependia de fotos de satélite, o que só funcionava em áreas onde a floresta já havia sido derrubada. A grande limitação é que a maior parte da Amazônia continua coberta por mata fechada, escondendo o que existe no chão.
Para resolver esse problema, a equipe sobrevoou a região usando uma tecnologia de escaneamento a laser, conhecida como LiDAR, capaz de atravessar as copas das árvores e mapear o solo por baixo delas, mesmo com a floresta intacta. O resultado foi a descoberta de centenas de construções que nunca haviam sido vistas antes, muitas delas em áreas totalmente cobertas por vegetação.

Uma civilização maior do que se imaginava
Com essas novas descobertas, os pesquisadores triplicaram a estimativa do território ocupado por essa civilização, que hoje se estende por uma faixa que vai do interior do Acre até partes da Bolívia e do Peru. O número total de construções também aumentou de forma expressiva, o que levou a equipe a rever a estimativa de quantas pessoas viveram ali no auge dessa sociedade, por volta dos anos 100 a 300 depois de Cristo.
Segundo o novo cálculo, essa população pode ter chegado a até 3 milhões de pessoas, um número muito maior do que se pensava até então para essa parte da Amazônia. Para efeito de comparação, o Acre atual, um estado inteiro, tem hoje pouco menos de 1 milhão de habitantes.
Por que essa descoberta importa
O achado reforça uma ideia que vem ganhando força entre arqueólogos nos últimos anos: a Amazônia não era uma floresta intocada antes da chegada dos europeus, mas um território habitado por sociedades complexas, capazes de moldar a paisagem ao seu redor. Os pesquisadores encontraram sinais de que essas comunidades cultivavam a terra, manejavam árvores frutíferas e cuidavam do solo de forma que ainda hoje influencia a fertilidade e a biodiversidade da região.

Se descobertas parecidas forem confirmadas em outras partes da floresta amazônica, o número de pessoas que viveram na região antes da colonização pode ser bem maior do que qualquer estimativa feita até hoje, o que também deve mudar a forma como cientistas pensam o papel histórico da Amazônia no clima do planeta. O estudo completo está disponível abaixo em inglês.



