- Luana Pinheiro e Iane Victória criaram a ManasTech para reduzir a ausência de mulheres na tecnologia.
- A comunidade nasceu de um encontro pessoal entre as duas, motivado por experiências de isolamento no trabalho.
- Em um ano, o projeto já impactou cerca de 1.500 mulheres em Manaus e no interior do Amazonas.
Luana Pinheiro, de 22 anos, e Iane Victória, de 24, fundaram a Manas Tech em julho de 2025, depois de perceberem, em conversas e em eventos de tecnologia em Manaus, que a presença feminina na área continuava pequena mesmo em espaços pensados para mulheres. Um ano depois, a comunidade soma cerca de 1.500 mulheres impactadas, segundo as fundadoras, e reúne mentorias, workshops e uma rede de apoio entre profissionais em diferentes estágios de carreira.
Luana veio de Eirunépé, onde o ensino médio técnico oferecia apenas três opções de curso: administração, agropecuária e informática. A escolha pela informática definiu o caminho que a levou a Manaus, para cursar ciências da computação, curso que está prestes a concluir.
Iane é de Nova Olinda do Norte e teve os pais, ambos ligados à área de tecnologia, como primeira referência. Passou pela graduação em física na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), migrou para engenharia de software na mesma instituição, mas por incompatibilidade das aulas com o trabalho precisou desistir do curso, indo concluir a graduação em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela PUC Minas, formação que motivou sua primeira viagem para fora do estado.
As trajetórias se cruzaram em um momento de dificuldade pessoal de cada uma.
Um mercado ainda majoritariamente masculino
As duas descrevem um cenário recorrente: turmas de graduação e equipes de trabalho com poucas mulheres. Luana cita a própria faculdade como exemplo.
“Dentro da minha faculdade, por exemplo, tem uma turma de mais ou menos 50 pessoas. Dessas 50 pessoas, 10 são mulheres. A gente consegue ver desde a graduação até o mercado de trabalho.”
No emprego anterior de Luana, a proporção era semelhante. “No meu primeiro emprego eu não tive uma boa experiência por ser a única mulher dentro do setor de tecnologia na empresa.”
Iane também passou por algo semelhante no início da careira, mas hoje trabalha em uma empresa formada por 90% de profissionais mulheres, cenário que considera exceção em um setor ainda dominado por homens.
Mas para as duas, a maior dificuldade para as mulheres na área nem é o acesso ao conhecimento técnico, mas a insegurança em expor esse conhecimento diante de equipes majoritariamente masculinas.
“Muitas vezes, por ter chefes homens, as mulheres ficam com medo do constrangimento. Muito do medo é da falta de coragem de entender que você tem o conhecimento e precisa mostrá-lo. Isso acaba fazendo com que as mulheres desistam e usem seus conhecimentos de tecnologia em outras áreas”, explicou Luana Pinheiro.
Iane também observa o mesmo padrão em cargos de liderança, onde considera a presença feminina, por si só, um dado fora da curva, porém ainda insipiente.
“Até o fato de existirem mulheres em cargo de liderança já é um fator diferencial, não é algo que a gente pode pegar como uma métrica. A dificuldade ainda é ter a voz escutada, de duvidarem do seu potencial, mesmo com o cargo proposto e com conhecimento”, disse Victoria.
De um encontro informal a uma comunidade estruturada
A ideia da Manas Tech surgiu sem planejamento prévio. Luana e Iane frequentavam os mesmos eventos de tecnologia em Manaus e decidiram, sem combinar, comparecer ao mesmo encontro voltado para mulheres. Chegando ao local, notaram que, mesmo ali, a participação feminina era menor do que esperavam.
E essa ausência feminina se repetiu em outro eventos e isso deixou elas bem incomodadas. Foi então que resolveram que precisavam fazer algo para mudar esse cenário. Com a ajuda de amigas que já tinham experiência com projetos coletivos, o Manas Tech começou a ganhar forma.
“A gente se reuniu no dia 5 de julho (2025) com essas amigas e, conversando, tomando café, a gente resolveu criar a comunidade. Nesse primeiro momento, nós ainda não tínhamos definido uma estrutura bem informal, como a gente tem hoje em dia0”, lembrou Luana.
O primeiro nome escolhido foi Git Push Manas, referência a um comando usado por desenvolvedores no GitHub, mas a expressão gerava confusão sobre a proposta do projeto. Com o tempo, a comunidade passou por uma votação interna e adotou o nome atual, o Manas Tech.

O primeiro Ada Conecta e o teste da comunidade
Ainda em 2025, a dupla organizou a primeira edição do Ada Conecta, evento voltado a promover protagonismo feminino na tecnologia, com workshops, palestras e dinâmicas de network. Iane reconhece que a expectativa inicial era conservadora, dado o histórico de baixa adesão feminina em eventos do setor.
“As mulheres precisam equilibrar diversos pratos: trabalho, emprego e casa, são muitas responsabilidades. Por isso sabemos que, é provável que quem confirmou a presença hoje, no dia do evento já não consiga mais, porque precisou cuidar de alguém”, disse Victoria.
Tanto que por pensar assim, elas ficaram surpresas com a adesão e presença de 150 mulheres no primeiro Ada Conecta.
“Foi uma grande surpresa para a gente, que na sua primeira edição a gente conseguiu o público estimado, que era 150 mulheres”, lembrou Luana.
O impacto em números e em histórias individuais
Um ano após a fundação, a ManasTech soma cerca de 1.500 mulheres impactadas, segundo as fundadoras. As redes sociais da comunidade reúnem mais de 3 mil seguidores entre Instagram e LinkedIn, e o grupo de WhatsApp, dividido em canais de conversa geral, empregabilidade e eventos, chega a 300 integrantes. Mais de 15 mulheres colaboram diretamente na organização dos projetos, além de Luana e Iane.
Entre as mulheres impactadas pela comunidade, Iane Victoria lembra do caso de uma participante que migrou de área dentro da própria trajetória profissional depois de passar pela comunidade.
“A gente tem um case da Bruna, que era da área de suporte e foi para a área de dados. Hoje ela conseguiu sair daqui de Manaus porque era o objetivo dela, e está hoje na área de ciência de dados.”
Luana também relaciona o crescimento pessoal à rede de contatos formada dentro da ManasTech, incluindo a conquista do primeiro emprego em regime remoto.
“Com o Manas Tech eu consegui ter contato com outras mulheres já sêniores na área, que me deram muitas dicas. Agora eu estou no meu primeiro trabalho home office, que foi uma conquista enorme.”
E assim, duas jovens na flor da carreira transformaram um incômodo em um movimento que tem mudado a realidade de muitas mulheres em Manaus, entusiastas da área de tecnologia. E isso, é só o começo reforçam elas. “Em outubro teremos a segunda edição do Ada Conecta, desse vez para mais de 200 mulheres”, reforçou Victoria.
Glossário
- UFAM: Universidade Federal do Amazonas, instituição pública de ensino superior sediada em Manaus.
- ADS (Análise e Desenvolvimento de Sistemas): curso superior de tecnologia voltado à construção e manutenção de sistemas de software.
- GitHub: plataforma on-line usada por desenvolvedores para armazenar e colaborar em códigos de programação.


