- Mudas de Aldina heterophylla, árvore dominante das campinaranas amazônicas, sobrevivem à seca, mas morrem com alagamento prolongado.
- Pesquisadores do Inpa testaram as mudas em casa de vegetação por até 100 dias, avaliando biomassa, anatomia e respostas fisiológicas a dois regimes hídricos extremos.
- Com as mudanças climáticas intensificando secas e enchentes na Amazônia, entender os limites da espécie é essencial para planejar sua conservação.
Mudas de Aldina heterophylla, a árvore dominante das campinaranas amazônicas, sobrevivem a longos períodos de seca, mas morrem quando ficam alagadas por tempo demais. É o que mostra um estudo publicado em maio de 2026 na revista Environments por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e instituições parceiras. O trabalho, liderado pela doutoranda Sthefanie Gomes Paes, avaliou como a espécie responde a dois extremos que estão ficando mais frequentes na Amazônia: seca intensa e alagamento prolongado.
Como a Aldina heterophylla reage à seca
Os frutos foram coletados na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã e os experimentos com as mudas foram conduzidos em casa de vegetação, nas fases de germinação e crescimento inicial, consideradas as mais críticas no ciclo da planta. O monitoramento ocorreu aos 50 e 100 dias de tratamento.
Na condição de seca, todas as mudas sobreviveram. A estratégia foi economizar água: a planta derrubou as folhas para reduzir a perda hídrica e manteve o acúmulo de biomassa estável. A Aldina também investiu mais nas raízes, mobilizando reservas de amido e proteína armazenadas nas sementes.
“Existe uma alocação de biomassa dessa planta como forma de fugir do período de inundação e seca”, explica Sthefanie Gomes Paes, doutoranda em Biologia-Ecologia pelo Programa de Pós-Graduação do Inpa.
Alagamento prolongado leva à mortalidade
No tratamento de alagamento, a reação foi diferente. As mudas amarelaram, perderam folhas e formaram lenticelas no caule, pequenas estruturas que ajudam a captar oxigênio quando o solo fica encharcado. Aos 50 dias, houve ganho temporário de biomassa nas raízes, indicando ajuste de curto prazo ao solo saturado. Com o tempo, porém, o alagamento prolongado reduziu drasticamente a biomassa do caule e elevou a mortalidade.
“A Aldina heterophylla mostrou maior tolerância à seca do que ao alagamento prolongado. O excesso de água também pode representar uma ameaça para espécies típicas das campinaranas”, resume a pesquisadora.
A conclusão aponta para um mecanismo específico do habitat: “Para Aldina heterophylla, a falta de oxigênio nas raízes durante o alagamento foi mais prejudicial que a seca. Cada espécie carrega adaptações moldadas pelo seu habitat”, acrescenta Sthefanie.
Espécie-chave sob ameaça dupla
As campinaranas são florestas sobre areia branca, com solo pobre em nutrientes e lençol freático que sobe e desce ao longo do ano. Embora representem apenas entre 5% e 7% da bacia amazônica, concentram alta proporção de espécies endêmicas. Com as mudanças climáticas alterando o regime de chuvas, esses ciclos hídricos tendem a ficar mais extremos.
“Compreender como espécies como a Aldina respondem à seca e ao alagamento é fundamental para prever impactos sobre a biodiversidade e o funcionamento ecológico das campinaranas”, diz a doutoranda.
A árvore é central para o ecossistema: estrutura a floresta, abriga orquídeas e outras epífitas e cria microambientes para diversos organismos. Sua distribuição é restrita e a espécie consta da lista vermelha de espécies ameaçadas da IUCN, classificada como vulnerável à extinção.
Além da pressão climática, a Aldina enfrenta exploração madeireira intensa. O pesquisador do Inpa Layon Demarchi explica o motivo:
“Dentro dos ambientes de campinarana, ela é uma das espécies madeireiras mais importantes. Em várias comunidades ao redor de Manaus, ela é explorada, principalmente para a construção de imóveis, porque tem uma madeira muito densa e muito bonita, semelhante ao Angelim, que é bastante comercializado aqui na região de Manaus.”
A pesquisa foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), via Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD-Maua). Contou com apoio do grupo Maua/Inpa, do ICETI/UniCesumar, do Laboratório de Anatomia Vegetal da UFAM e do Laboratório de Fisiologia Vegetal da UnB. O artigo completo abaixo.
Glossário
- Campinarana: Formação vegetal amazônica sobre solos arenosos, ácidos e pobres em nutrientes, com variação sazonal do lençol freático.
- Lenticela: Abertura no caule que permite trocas gasosas com o ambiente externo, relevante para a captação de oxigênio em solos encharcados.
- Biomassa: Massa total do material orgânico de uma planta, usada como medida de crescimento e distribuição de recursos internos.
- IUCN: União Internacional para Conservação da Natureza, organismo que classifica o risco de extinção de espécies na lista vermelha global.
- Epífita: Planta que cresce sobre outra sem parasitá-la, usando-a apenas como suporte, como ocorre com muitas orquídeas.