O ecossistema de inovação do Amazonas vive um momento de paradoxo: enquanto o senador Eduardo Braga defende que a expansão de institutos de pesquisa é a chave para o desenvolvimento, gestores na ponta da execução, como Fabiana Rocha, do Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), alertam que o estado já possui infraestrutura científica suficiente, faltando, na verdade, uma conexão funcional com a indústria.
O cenário local, impulsionado historicamente pelos incentivos da Zona Franca de Manaus, busca agora na bioeconomia uma rota de fuga da dependência fiscal, mas esbarra em gargalos de infraestrutura e na falta de conexão direta entre as fábricas do Distrito Industrial e os laboratórios de tecnologia.
Hoje, o Amazonas possui 471 startups, 11 incubadoras, três parques tecnológicos e de inovação, além de mais de uma dezena de institutos de pesquisa, ciência e tecnologia, segundo dados públicos do Observatório Sebrae, Inovalink e Anprotec.
O gargalo da integração no ecossistema de inovação
A percepção de que o estado possui as ferramentas, mas não a engrenagem completa, é compartilhada por gestores que atuam na ponta do desenvolvimento tecnológico. Fabiana Rocha é gestora do Espaço CBA de Inovação. No sábado (21), conversamos com ela durante o 12º Startup Day sobre o tema. Segundo ela, apesar do volume de startups ainda está aquém do potencial esperado, especialmente quando comparado a ecossistemas mais maduros do Sul do país, nossa realidade é diferente. Ela ressalta que o desafio amazônico possui camadas de complexidade que não existem em outras regiões, como o impacto severo da logística sobre a cadeia de produção.
“Falta um pouco mais de visão do próprio mercado, da própria indústria, em saber que o seu PDI pode ser direcionado a ICTs; centros de pesquisas são inúmeros, mas precisa que haja as parcerias com as startups e incubadoras para que a gente consiga realmente ter essa relação de forma funcional e que ela consiga estabelecer o produto final.”

Segundo Rocha, o estado já possui um quantitativo relevante de Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs). O problema central reside na capacidade de fazer com que a indústria local enxergue valor imediato na incorporação de insumos amazônicos em seus processos produtivos. Ela exemplifica que produtos tradicionais do Polo Industrial de Manaus, como carregadores de celulares, poderiam integrar componentes biotecnológicos regionais se houvesse uma visão de mercado mais integrada.
Tecnologia como ponte para a macroeconomia
No campo político e estratégico, a inovação tecnológica é vista como a única via possível para que a bioeconomia deixe de ser um setor de nicho e se torne uma força macroeconômica. Em análise sobre o futuro do estado, o senador Eduardo Braga, com quem conversamos no encerramento da Expopim 2026, na sexta (20), defende que a transformação de ativos naturais em produtos industriais competitivos exige um investimento massivo em conhecimento técnico. Ele aponta que a transição prevista pela reforma tributária impõe um cronômetro para essa mudança.
“Transformar o murumuru em um produto industrial precisa de tecnologia. Transformar o ouriço da castanha em uma resina biodegradável precisa de tecnologia. Portanto, o conhecimento e a inovação tecnológica são chave para a transformação da fronteira da indústria da bioeconomia.”

Braga destaca que o avanço ocorre passo a passo, mencionando a chegada de novos atores ao estado, como o Instituto de Pesquisa do Exército em parceria com o IME. Para o parlamentar, o uso de fundos de sustentabilidade será determinante para que o Amazonas consiga vencer os obstáculos geográficos e transforme a biodiversidade em emprego e prosperidade para a população local.
A prática: inteligência de dados aplicada ao custo local
Apesar dos desafios estruturais, exemplos práticos mostram que há espaço para soluções disruptivas que ignoram as fronteiras da bioeconomia tradicional para focar na eficiência operacional. É o caso da Rogow Inteligência Energética, startup que atua no modelo B2B ajudando empresas de médio porte a reduzir custos de eletricidade. A empresa é um exemplo de como o ecossistema pode gerar soluções de inteligência de mercado que impactam diretamente a viabilidade de outras instituições.
“Nós atendemos o Centro de Bioeconomia da Amazônia, e já conseguimos reduzir a conta de energia deles em mais ou menos uns R$ 8 mil por mês e estamos traçando novas estratégias. A primeira coisa que uma startup tem que fazer é realmente go-to-market. Não demorem para ir para o mercado.”

Para Solange Araújo, CEO da Rogow, a exposição precoce ao cliente é o que permite testar o produto e garantir a sobrevivência em um solo considerado escasso. A trajetória da startup, que opera desde 2023, reforça a tese de que a inovação no Amazonas não precisa estar restrita apenas aos ativos da floresta, mas também à otimização dos recursos que mantêm a indústria e os centros de pesquisa funcionando.
A realidade dos dados e o “Vale da Morte”
A sobrevivência dessas empresas no ecossistema de inovação depende da capacidade do estado em converter seus doutores e pesquisadores em empreendedores capazes de dialogar com as demandas reais do mercado. Das centenas de startups ativas no Amazonas, a grande maioria ainda se encontra em fases iniciais de ideação ou validação. O chamado vale da morte: o período entre a criação da empresa e a conquista de tração real: é mais profundo na região devido ao isolamento logístico.
O depoimento de empreendedores como Araújo sugere que o caminho para escalar o ecossistema passa pela agressividade comercial e pela utilidade direta do serviço. Sem essa ponte e sem a pressa em testar soluções no mundo real, o Amazonas corre o risco de continuar produzindo ciência de alta qualidade, mas com baixo impacto na economia cotidiana da região.
Glossário
- PDI: Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação. Sigla que designa os investimentos em novas tecnologias e melhoria de processos.
- ICT: Institutos de Ciência e Tecnologia. Entidades públicas ou privadas sem fins lucrativos que realizam pesquisas científicas.
- PIM: Polo Industrial de Manaus. O modelo econômico de desenvolvimento baseado em incentivos fiscais na Amazônia.
- CBA: Centro de Bioeconomia da Amazônia.
- Anprotec (Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores): É a organização que representa e fortalece o movimento do empreendedorismo inovador no Brasil.
- InovaLink: É uma plataforma de integração tecnológica voltada para a vitrine de ativos e infraestrutura, como laboratórios e centros de pesquisa por estado.
- Observatório Sebrae Startups: É a unidade de inteligência de dados do Polo de Referência em Startups do Sebrae.


