• Pesquisadores da Ueap transformam caroços de açaí e outros resíduos amazônicos em biogás que pode substituir o botijão de cozinha.
  • O sistema usa biodigestor para decomposição controlada e purifica o gás gerado até obter biometano com qualidade de uso doméstico.
  • Projeto recebeu certificado de viabilidade e prevê expansão para municípios do interior a partir de 2026.

Pesquisadores da Universidade do Estado do Amapá (Ueap) desenvolveram um sistema que converte resíduos orgânicos, como caroço de açaí, em biogás. A iniciativa funciona na área da Expofeira e recebeu certificado de viabilidade técnica e econômica, o que abre caminho para ampliar o uso da tecnologia.

O sistema utiliza um biodigestor que processa resíduos como caroços de açaí, cascas de frutas e outros materiais orgânicos. A decomposição controlada gera biogás, que pode substituir o gás de cozinha ou ser convertido em energia elétrica.

Segundo o pesquisador Menyklen Penafort, o biogás passa por purificação e se transforma em biometano. “É o biometano que tem a energia de transformação de todo esse sistema num potencial para utilizarmos como substituto do botijão de gás de cozinha”, afirmou.

Como funciona o processo

O processo começa com a coleta de resíduos orgânicos da Amazônia: caroço de açaí, casca de coco, casca de mandioca, castanha e até caroço de manga. Materiais que seriam descartados passam a ser usados como matéria-prima.

Os resíduos são colocados em um biodigestor, equipamento que controla a decomposição. Dentro dele, microrganismos quebram a matéria orgânica em ambiente sem oxigênio, processo chamado de digestão anaeróbica.

Durante a decomposição, é liberado um gás rico em metano, o biogás. Esse gás pode ser usado diretamente como combustível ou convertido em energia elétrica. Para chegar à qualidade do gás de cozinha, passa por purificação e se transforma em biometano, que pode ser usado em fogões, geradores de energia ou até em veículos adaptados.

O pesquisador Menyklen Penafort explica que o biogás passa por purificação para se transformar em biometano – Foto: Divulgação/Ueap

Expansão para o interior do estado

A proposta é levar a tecnologia para municípios do interior, como Laranjal do Jari, Porto Grande, Mazagão e Oiapoque. Penafort reconhece que a implementação exige investimento, mas compara o momento do biogás ao da energia solar há três décadas.

“Apesar de exigir investimento, o biogás pode ser aplicado em pequenas comunidades com apoio de políticas públicas. É como a energia solar há 30 anos: parecia distante, mas hoje é acessível”, explicou.

A estudante de engenharia de produção Tays Sousa destacou o papel da equipe jovem no projeto. “Nosso trabalho é otimizar a produção de biogás e reduzir custos. O certificado de viabilidade facilita parcerias e ajuda a difundir a tecnologia pela Amazônia”, disse.

Inovação com resíduos amazônicos

O projeto é considerado inovador pela utilização de resíduos típicos da Amazônia. Segundo Penafort, praticamente não existe produção de biogás a partir de açaí, coco ou castanha em outras regiões do mundo. “Estamos fazendo isso aqui no nosso estado”, afirmou.

A equipe planeja oferecer cursos técnicos de operador de biodigestor e biogás a partir de 2026. A iniciativa surge em um momento em que o Amapá se prepara para receber investimentos na exploração de petróleo.

“O Amapá deve receber investimentos em petróleo, mas queremos que seja também palco de produção sustentável, com biogás de resíduos da Amazônia”, disse Penafort.

Reportagem feita com base em publicação do G1 Amapá.

Glossário

  • Biodigestor: Equipamento que realiza a decomposição de matéria orgânica em ambiente sem oxigênio, gerando biogás.
  • Biogás: Gás rico em metano produzido pela decomposição de resíduos orgânicos, usado como combustível ou para gerar energia.
  • Biometano: Biogás purificado que atinge qualidade suficiente para substituir o gás de cozinha (GLP).
  • Digestão anaeróbica: Processo de decomposição de matéria orgânica por microrganismos em ambiente sem oxigênio.
  • GLP: Gás liquefeito de petróleo, o gás de cozinha usado em botijões residenciais.

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