• A Amazon Porridge, criadora do mingau amazônico instantâneo, vai lançar uma caldeirada de tambaqui em versão instantânea nos próximos meses.
  • O mingau, primeiro produto da empresa, nasceu de estudos com o laboratório de alimentos funcionais do Inpa, durante incubação na UEA.
  • A fábrica em Manaus já produz até 10 mil copos de mingau por dia, mas enfrenta gargalos de matéria-prima ligados à seca na Amazônia.

A Amazon Porridge, startup manauara que transformou o tradicional mingau de rua em um produto instantâneo, prepara o lançamento de uma caldeirada de tambaqui em versão pronta para consumo. O anúncio foi feito pelo fundador e CEO da empresa, Vanilson Costa, em entrevista no programa Primeira Onda desta quinta-feira (13/8), apresentado pelo jornalista Márcio Azevedo, fundador do Portal TechAmazônia. Segundo ele, o novo item deve chegar às prateleiras em meados de dezembro deste ano.

A caldeirada faz parte de uma linha de produtos salgados que a empresa vem desenvolvendo com a mesma lógica aplicada ao mingau amazônico instantâneo, que é pegar um prato tradicional da região e adaptá-lo ao formato de copo, com preparo rápido e validade estendida.

Além da caldeirada instantânea, a empresa também deve lançar outras duas versões do mingau doce. “Vem aí um mingau de arroz com coco, que é muito bom. E tem também uma versão dele caramelizado”, revelou Costa ao reforçar que os produtos aguardam apenas os testes finais de validade antes de irem ao mercado.

Há também uma frente inédita para a startup, que será o desenvolvimento de uma ração militar com produtos amazônicos.

Do balcão de uma padaria ao mingau amazônico instantâneo

A trajetória da Amazon Porridge começou de forma indireta. Costa, natural de Goiás, chegou ao Amazonas em 2004 durante uma operação militar e se mudou definitivamente para Manaus no fim de 2009 para empreender. Antes do mingau, ele tentou fabricar equipamentos militares, como coletes e fardamentos, área em que já tinha experiência, por ser ex-militar das Forças Especiais do Exército, mas o negócio esbarrou na falta de mão de obra qualificada na região.

Anos depois, já incubado na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), ele desenvolvia um projeto de fintech verde para comercializar créditos de carbono quando surgiu um edital voltado a produtos de bioeconomia. Foi então que o empreendedor abriu a mente em busca de uma ideia física para atender ao edital. E, num belo dia, ao ir tomar um café em uma padaria próximo a incubadora, viu um copo de mingau sobre o balcão e, “eureca!”

“Naquele momento, chegou na minha percepção que o mingau era um produto tradicional. Era três horas da tarde, e eu lembrei que era o horário que os mingauzeiros andavam lá no centro com um carrinho vendendo mingau. Então eu pensei: esse é um produto tradicional e se a gente conseguir desenvolver uma versão instantânea, a gente vai ter uma aceitabilidade muito boa, porque as pessoas vão conseguir perceber a qualidade do produto, porque às vezes as pessoas deixam de tomar um mingau na rua porque não sabem a procedência de qual foi feito. Então eu saí dali com aquela ideia”, lembrou Costa.

A partir dali, Costa buscou apoio técnico. Primeiro recorreu à filha, então estudante de engenharia de alimentos, depois a uma nutricionista e, em seguida, à equipe do laboratório de alimentos funcionais do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), com quem chegou à fórmula que leva castanha, leite, farinha de tapioca e banana frita.

dois homens em uma mesa conversando
Vanilson Costa em entrevista ao jornalista Márcio Azevedo no programa Primeira Onda – Foto: Nickson Maciel/Divulgação

Produção, preço e presença nas prateleiras de Manaus

Hoje instalada em um galpão de 1.200 metros quadrados no Alvorada, a Amazon Porridge tem capacidade para produzir até 10 mil copos de mingau amazônico instantâneo por dia, além de 10 mil sachês de um quilo, destinados à alimentação escolar. A empresa emprega 14 pessoas diretamente na fábrica e depende de uma rede maior de produtores familiares e extrativistas para a matéria-prima.

O produto é vendido no atacado, em caixas de 28 copos, e chega ao consumidor final em supermercados como o Carrefour em Manaus, além de frutarias e outras redes da região. O preço sugerido varia entre R$ 10,90 e R$ 11,00, podendo chegar a R$ 14,00 dependendo do ponto de venda. Segundo Costa, a empresa já atingiu o breakeven e trabalha agora para ampliar a operação, inclusive com uma embalagem já preparada em inglês, mirando exportação.

De acordo com informações apresentadas durante a entrevista, cada copo do mingau amazônico instantâneo tem cerca de 13 gramas de proteína, característica que, segundo Costa, tem atraído consumidores com restrições alimentares.

“Tem pessoas que precisam de um tipo de alimento como o nosso, porque têm comorbidades, têm pessoas celíacas. O mingau tem uma função, ele é um alimento funcional.”

Com a chegada da caldeirada de tambaqui e da ração amazônica, Costa resume o momento da empresa como uma continuidade de um caminho que começou em um balcão de padaria e, segundo ele, ainda depende de a inovação amazônica olhar com mais atenção para o que já existe na floresta antes que essas cadeias produtivas migrem, como aconteceu com o açaí e o tambaqui, para fora da região.

Glossário

  • Breakeven: ponto de equilíbrio financeiro em que a receita de uma empresa passa a cobrir todos os seus custos.
  • Bioeconomia: modelo econômico baseado no uso sustentável de recursos biológicos, como espécies e ingredientes nativos de uma região.
  • Inpa: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, órgão federal de pesquisa científica sediado em Manaus.

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