Alunos do Projeto Ribeirinhos Cientistas – Fotos: Luiz Henrique Almeida / Luhen Mídia
  • O projeto “Ribeirinhos Cientistas”, vinculado à Ufam, capacita 18 estudantes ribeirinhos e indígenas de 11 a 14 anos na RDS do Tupé, em Manaus, em ciência e tecnologia digital.
  • As atividades combinam conceitos científicos, registro fotográfico, criação de quizzes e construção de barcos com propulsão, integrando saberes tradicionais ao ensino formal.
  • O projeto amplia a visibilidade das comunidades amazônicas ao formar jovens capazes de produzir conteúdo sobre sua própria realidade nas redes sociais.

O projeto “Ribeirinhos Cientistas” vem promovendo cursos de alfabetização digital e científica para 18 estudantes ribeirinhos e indígenas de 11 a 14 anos da Comunidade São João do Tupé, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé, a 30 quilômetros de Manaus. A iniciativa integra o Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PPGECIM) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com financiamento da Capes e apoio da Secretaria Municipal de Educação de Manaus (Semed).

O objetivo central é transformar jovens que já usam Instagram e TikTok em produtores de conteúdo sobre a própria realidade. Em vez de apenas consumir informação, os estudantes aprendem a registrar o cotidiano amazônico, questionar problemas locais e se engajar nas pautas que afetam suas comunidades.

A coordenadora do projeto, a professora Dra. Thais Castro, explica que a metodologia parte do conhecimento que os alunos e suas famílias já possuem sobre o ambiente em que vivem.

A coordenadora do projeto, professora dra. Thais Castro, quer transformar os jovens em produtores de contéudo.

“O projeto destaca o papel dos jovens cidadãos em formação como futuros cientistas. O objetivo é que, ao final, os alunos tenham uma iniciação científica sólida, valorizem os conhecimentos tradicionais e percebam que também podem ser autores e cientistas. Nos encontros, trabalhamos conceitos básicos de ciência e matemática para estimular a curiosidade e o pensamento crítico.”

A equipe reúne profissionais com formação em ciências naturais, biologia, física, matemática e computação. As atividades acontecem na Escola Municipal São João, única unidade de ensino da RDS do Tupé, que abrange 11.930 hectares protegidos e seis comunidades, com presença dos povos indígenas Tatuyo, Tuyuka e Dessana.

Voz indígena no centro do projeto

Luna Blankenhorn, 14 anos, estudante do 9º ano e pertencente à etnia Dessana, é uma das participantes. Ela já articula os desafios concretos da comunidade, especialmente no transporte escolar.

A aluna indígena Luna Blankenhorn, de 14 anos, destaca a importância do projeto para permitir que ela e seus colgas mostrem a realidade do local onde vivem.

“Considero o projeto muito importante porque nos permite mostrar a realidade da nossa comunidade, como os grafismos indígenas e o ambiente onde estudamos, próximo ao rio e à natureza. Aqui, um dos maiores desafios é o transporte: muitos alunos dependem do barco escolar, mas às vezes ele não funciona, o que atrapalha bastante nossa rotina.”

A secretária da Escola Municipal São João, Ila Oliveira, reforça que a comunidade enfrenta transporte precário, falta de energia elétrica e limitações no acesso à saúde. Para ela, iniciativas como essa fortalecem o vínculo entre escola e moradores e dão visibilidade às realidades locais.

Ciência como reconhecimento de saberes

A professora Stephane Ladislau, formada em Ciências Naturais, conduz atividades que mostram aos alunos que o conhecimento sobre plantas, rios e animais já é, por definição, ciência.

“Eles possuem conhecimento, e ciência é justamente isso: um conjunto de saberes. Conhecer sobre plantas, o rio ou os pássaros também é ciência. Eles já compartilharam um pouco sobre o céu do Tupé, que, para eles, é muito mais estrelado do que na zona urbana de Manaus, com direito a ‘estrelas cadentes’. Conhecer a realidade deles é fundamental para todos nós. É uma troca.”

A professora Letícia Gabriela, também formada em Ciências Naturais, integra o ensino científico ao uso de tecnologia por meio de observação ambiental, registro fotográfico e criação de quizzes que conectam cultura local e aprendizado.

“Levamos os alunos para a área externa da escola, onde exploraram curiosidades locais, como o rio e grafismos indígenas. Por exemplo, um grafismo da tribo Tuyuka pode parecer apenas um desenho, mas, na explicação dos alunos, ele representa a folha do tucumã. Transformar esse conhecimento em quizzes torna o aprendizado divertido e significativo.”

Programação e entregas previstas

As visitas à RDS do Tupé seguem um calendário estruturado:

  • 16 de abril: síntese dos achados e contextualização para trabalhar com barcos de propulsão.
  • 6 de maio: proposição de soluções e sugestões pelos alunos.
  • 29 de maio: construção e lançamento do barco com propulsão, com registro em vídeo pelos próprios estudantes.
  • Encerramento: apresentação e demonstração das iniciativas desenvolvidas ao longo do ciclo.

Além das visitas presenciais, o projeto prevê a produção de um livro digital com projetos e registros fotográficos, a exibição das imagens em um site dedicado e a gravação de vídeos apresentados pelos próprios alunos.

Glossário

  • RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável): unidade de conservação que permite a presença de populações tradicionais e o uso sustentável dos recursos naturais.
  • PPGECIM: Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Federal do Amazonas.
  • Grafismo indígena: sistema de representação visual utilizado por povos indígenas para expressar elementos culturais, cosmológicos e identitários por meio de padrões gráficos.
  • Iniciação científica: processo introdutório de formação em pesquisa que desenvolve o pensamento crítico e a metodologia científica em estudantes.

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