• Maria Teresa Fernandez Piedade, do Inpa, venceu o Prêmio Almirante Álvaro Alberto 2026 por 50 anos de pesquisas sobre ecossistemas de áreas úmidas na Amazônia.
  • Seus estudos demonstram como o pulso de inundação dos rios amazônicos impacta biodiversidade, estoques de carbono e comunidades tradicionais da região.
  • A premiação reconhece contribuições científicas essenciais para compreender a dinâmica hídrica amazônica e seus efeitos em outras regiões do Brasil.

A bióloga Maria Teresa Fernandez Piedade, pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), foi anunciada como vencedora do Prêmio Almirante Álvaro Alberto 2026. Com quase 50 anos de atuação na Amazônia, Piedade desenvolve estudos sobre ecologia de ecossistemas, com foco na influência do pulso de inundação na biota, manejo sustentável e monitoramento de áreas alagáveis. A cerimônia de premiação ocorrerá no Rio de Janeiro em 7 de maio, com entrega de diploma, medalha e R$ 200 mil.

“Receber o Prêmio Almirante Álvaro Alberto é um sonho inimaginável. Eu nunca imaginei que eu tivesse essa honraria atribuída pelos pares e pelo comitê”, afirmou a pesquisadora, citando o geógrafo Aziz Ab’Saber e a presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Nader, como referências em sua carreira.

Pesquisas sobre áreas úmidas amazônicas

Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, Piedade lidera o grupo “Ecologia, monitoramento e uso sustentável de áreas úmidas (Maua)” no Inpa. Entre 2013 e 2019, coordenou o Programa Ecológico de Longa Duração Peld Maua, que gera dados sobre biodiversidade, dinâmica de carbono e impactos de mudanças antrópicas e climáticas em ecossistemas críticos da região.

A pesquisadora explica que os corpos d’água e as florestas amazônicas, tanto de terra firme quanto alagáveis, formam um sistema que bombeia água para outras regiões do Brasil, como Sul e Sudeste. “Essa água se transforma em rios que vão para outras regiões, gerando precipitação e alimentando o agronegócio. Então, é de suma importância para toda a população do Brasil e além, eventualmente”, destaca.

A variação do nível dos grandes rios amazônicos, que pode chegar a 10 metros, impacta não apenas a biota, mas também populações ribeirinhas, indígenas e comunidades tradicionais. “As áreas úmidas amazônicas suprem de nutrientes todas as planícies alagáveis. Esses ambientes são aqueles onde os ribeirinhos fazem seus produtos agrícolas em pequena escala, que alimenta todo o cinturão de moradores das cidades maiores e menores”, explica Piedade.

Vídeo com a entrevista da pesquisadora

Impactos de hidrelétricas e descobertas sobre dispersão de sementes

Resultados das pesquisas de Piedade já evidenciam consequências de intervenções humanas na região. Em 30 anos, mais de 125 quilômetros de áreas após a hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã (nordeste do Amazonas), apresentam morte gradual de florestas devido à falta de regularidade no suprimento de água, que passa a responder à demanda energética.

Sua equipe também identificou o papel do peixe-boi amazônico como dispersor de sementes e plantas aquáticas. “Foi um achado fantástico, porque a importância desse animal emblemático já era citada de várias maneiras, mas nunca como um dispersor, o que significa que ele tem um papel mais importante ainda e a preservação desse animal nos sistemas aquáticos e de áreas alagáveis e úmidas da Amazônia”, ressalta a bióloga.

Desafios da pesquisa na Amazônia

Apesar de quase cinco décadas de trabalho na região, Piedade afirma que atuar como pesquisadora na Amazônia ainda é desafiador. “Quando eu comecei a trabalhar 35, 40 anos atrás aqui, nós não tínhamos nenhum veículo de comunicação. Então se a gente ficava um mês no campo, 20 dias no campo, a nossa forma de comunicação com as pessoas era extremamente limitada”, lembra.

As grandes distâncias encarecem expedições, que frequentemente exigem alternância entre barco, transporte terrestre e trechos a pé. “Os custos para isso são enormes e talvez isso deveria ser considerado de forma mais adequada nos financiamentos e na perenização de financiamentos para pesquisa na Amazônia, que é muito importante”, opina.

Trajetória acadêmica e cooperação internacional

Graduada em ciências biológicas pela Universidade Federal de São Carlos (1975), Piedade fez mestrado e doutorado em ecologia no Inpa e pós-doutorado no Reino Unido. Durante 15 anos, integrou o Conselho Científico Internacional do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), considerado um dos maiores projetos de cooperação científica internacional sobre a região.

Ao longo da carreira, coordenou projetos nacionais e internacionais com equipes multidisciplinares, incluindo a cooperação Brasil-Alemanha Inpa/MCTI-Sociedade Max-Planck durante três décadas. Também integrou o Conselho Nacional de Zonas Úmidas do MMA, preside o Conselho de Administração do Instituto Mamirauá e atua no Painel Científico para Amazônia (SPA).

Estímulo a jovens cientistas

Piedade defende o estímulo a jovens pesquisadores na região. “Ainda existem lacunas de conhecimento tão enormes na região, e agora eu falo da Amazônia, mas isso pode ser projetado para outras regiões do país. Então, todos os esforços ainda são necessários e é uma corrida contra o tempo, uma corrida contra ações antrópicas deletérias, uma corrida agora também contra as questões da mudança climática que vem impactando os ambientes”, completa.

Para jovens cientistas mulheres, a pesquisadora deixa um conselho: “O olhar das mulheres tem sempre um aspecto que eu chamaria assim de humanização, talvez compreensão para trabalhos em grupo, porque as mulheres, e eu sou mãe, sou avó, a gente aprende a conciliar uma série de aspectos da nossa vida profissional com as demandas afetivas e isso se projeta também nos grupos de trabalho. Eu acho que nenhuma mulher deve se sentir menor e deixar de fazer pesquisa porque é mulher”.

Sobre o Prêmio Almirante Álvaro Alberto

Criado em 1981, o prêmio é atribuído ao pesquisador que tenha se destacado pela realização de obra científica ou tecnológica de reconhecido valor. Realizado em parceria com a Marinha do Brasil, é concedido anualmente em sistema de rodízio entre três grandes áreas: Ciências Exatas, da Terra e Engenharias; Ciências Humanas e Sociais, Letras e Artes; e Ciências da Vida, categoria de 2026.

Glossário

  • Biota: Conjunto de organismos vivos (fauna e flora) que habitam determinado ambiente ou região.
  • Pulso de inondação: Variação sazonal do nível da água em rios e áreas alagáveis, que influencia os ecossistemas aquáticos e terrestres adjacentes.
  • Ecofisiologia: Estudo das relações entre processos fisiológicos dos organismos e as condições ambientais em que vivem.
  • Peld: Programa Ecológico de Longa Duração, que realiza monitoramento contínuo de ecossistemas para compreender mudanças ao longo do tempo.

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