Resíduos, como caroço de açaí e de tucumã são usados para fazer o biocombustível
  • Pesquisadores da UFPA transformam resíduos vegetais amazônicos em biocombustíveis verdes utilizando pirólise termoquímica, gerando gasolina, querosene e diesel sustentáveis.
  • O laboratório coordenado pelo professor Nélio Teixeira Machado converte caroços de açaí, tucumã, palma e cacau em bioenergia há quase 20 anos.
  • Cannabis apreendida pela Polícia Federal agora é transformada em combustíveis verdes, reduzindo custos de incineração e eliminando emissões poluentes.

Pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) desenvolveram uma petroquímica verde capaz de transformar resíduos vegetais amazônicos em biocombustíveis. A tecnologia substitui o petróleo fóssil por materiais descartados das cadeias agroindustriais, como caroços de açaí, tucumã, palma e cacau. O projeto foi apresentado na COP 30, conferência climática da ONU realizada em Belém em novembro de 2025.

Como funciona a conversão de biomassa

O processo utiliza pirólise termoquímica, que aquece resíduos vegetais entre 450°C e 500°C sem oxigênio. Essa reação fragmenta moléculas grandes em compostos menores, semelhantes aos hidrocarbonetos do petróleo. O resultado são três produtos principais: biogás rico em metano e propano, bio-óleo transformável em combustíveis líquidos e biocarvão poroso.

As biomassas passam por pré-tratamento antes da pirólise. Os caroços são secos, moídos e ativados quimicamente com hidróxido de sódio, resíduo do processamento da bauxita pela empresa Hydro. O bio-óleo gerado é destilado em biogasolina, bioquerosene, biodiesel e ligante asfáltico. O biocarvão serve para fabricar biofiltros usados na desinfecção de água em comunidades isoladas.

Quem lidera a pesquisa na UFPA

O Laboratório de Engenharia de Processos de Conversão de Biomassa e Resíduos coordena os estudos desde o Instituto de Tecnologia da UFPA. O engenheiro químico Nélio Teixeira Machado, professor titular e pós-doutor em Bioenergia, lidera a equipe há quase 20 anos. Ele trabalha com os professores Lucas Pinto Bernard, Bruno Viegas (Faculdade de Biotecnologia) e Emmanuel Negrão (Faculdade de Engenharia Química).

A equipe conta com 10 bolsistas de Iniciação Científica, dois pós-doutorandos, seis doutorandos e seis mestrandos. O grupo é referência nacional em bioenergia e conversão termoquímica de biomassas vegetais.

Cannabis apreendida vira combustível sustentável

Uma parceria entre UFPA, Polícia Federal do Pará e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) inovou ao transformar Cannabis sativa apreendida em biocombustíveis. O estudo é conduzido pelo doutorando Antônio Canelas, perito da PF e aluno da UFSC, com coorientação do professor Nélio Machado. Os experimentos já duram um ano e meio.

Pela legislação brasileira, toda maconha apreendida precisa ser incinerada. O processo atual envolve custos com transporte, armazenamento, vigilância, diárias e aluguel de fornos industriais. Agentes federais de outros estados viajam para presenciar a queima, aumentando os gastos. A tecnologia desenvolvida na UFPA elimina esses custos e reduz a emissão de poluentes gerada pela combustão.

A cannabis processada gera os mesmos produtos das outras biomassas: gasolina verde, querosene, diesel, material para remediação de solos e biogás. O laboratório funciona dentro da própria Polícia Federal para facilitar o processamento.

Potencial da lignina para aviação sustentável

O professor Nélio Machado explica que a cannabis possui alto teor de lignina, componente estrutural das plantas. Esse composto pode ser isolado e transformado em querosene de aviação sustentável (SAF), hidrogênio verde ou grafeno. Qualquer biomassa vegetal com lignina, carbono e hidrogênio pode gerar bioenergia por processos termoquímicos.

O laboratório está desenvolvendo novas linhas de produção de hidrogênio verde e combustível sustentável para aviação. Essas tecnologias integram a bioeconomia amazônica às estratégias globais de transição energética.

Por que isso importa

A petroquímica verde da UFPA oferece alternativa sustentável à indústria do petróleo fóssil. A tecnologia aproveita resíduos que seriam descartados, reduzindo lixo e gerando produtos de valor agregado. O uso de biomassas locais fortalece cadeias produtivas amazônicas como açaí, dendê e cacau.

A transformação da cannabis apreendida em combustíveis diminui custos públicos e impactos ambientais. O modelo pode ser replicado nacionalmente, tornando-se referência em bioenergia e economia circular. Os avanços científicos da UFPA consolidam a Amazônia como polo de inovação em tecnologias limpas.

Glossário

  • Pirólise: Processo termoquímico que aquece materiais em temperaturas elevadas sem oxigênio, fragmentando moléculas complexas.
  • Lignina: Composto orgânico que forma a parede celular das plantas, conferindo rigidez e resistência à decomposição.
  • Bio-óleo: Líquido rico em hidrocarbonetos obtido pela pirólise de biomassa, usado para produzir combustíveis renováveis.
  • Biogás: Mistura gasosa composta principalmente por metano e propano, gerada na decomposição térmica de matéria orgânica.
  • SAF (Sustainable Aviation Fuel): Combustível sustentável de aviação produzido a partir de fontes renováveis, com menor emissão de carbono.
  • Hidróxido de sódio: Composto químico usado na ativação de biomassas, aumentando a porosidade e capacidade de conversão energética.

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