- Projeto Peixe-boi da Amazônia solta 11 animais reabilitados na RDS Piagaçu-Purus em março.
- Reabilitação inclui cativeiro no Inpa, fase de semicativeiro em lago seminatural e exames de saúde completos.
- Ação ajuda a recuperar espécie ameaçada e gera dados para políticas de conservação na Amazônia.
O Projeto Peixe-boi da Amazônia, coordenado pela Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), vai soltar 11 peixes-bois reabilitados nos dias 20 e 21 de março na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Piagaçu-Purus, no Amazonas. Os animais, resgatados principalmente de caça ilegal e captura acidental, passaram por reabilitação em cativeiro, fase de semicativeiro em lago seminatural e avaliação de saúde detalhada para retornar com segurança aos rios amazônicos.
Como funciona a reabilitação dos peixes-bois
A maior parte dos peixes-bois atendidos pelo Projeto chega ainda filhote ao Inpa, em Manaus, após resgates feitos por órgãos ambientais ou comunidades ribeirinhas. Muitos são órfãos porque a fêmea foi abatida, ou foram retirados da natureza após emalhe acidental em redes de pesca.
No Inpa, os animais passam por um processo longo de reabilitação, que inclui acompanhamento veterinário, alimentação controlada e manejo diário por tratadores especializados. O objetivo é garantir ganho de peso adequado, desenvolvimento motor e resposta saudável a estímulos ambientais, reduzindo o estresse e o risco de doenças.
Segundo a coordenadora do Projeto, a pesquisadora do Inpa Vera da Silva, doutora em Ecologia e Reprodução de Mamíferos, essa etapa inicial é decisiva para que os peixes-bois tenham condições físicas e comportamentais de avançar para o semicativeiro e, depois, para a soltura definitiva.
Semicativeiro prepara animais para voltar ao rio
Antes de serem liberados na RDS Piagaçu-Purus, os 11 peixes-bois passam por uma fase de semicativeiro em um lago seminatural na Fazenda Santa Rosa, no município de Iranduba (AM). Nesse ambiente controlado, mas conectado às condições reais da Amazônia, os animais retomam comportamentos essenciais para a vida livre.
“Nesse ambiente, os peixes-bois retomam comportamentos essenciais para voltar à natureza, como a busca por alimento e a adaptação às condições ambientais do rio”, explica Vera da Silva. A equipe observa se os animais conseguem localizar e consumir vegetação aquática sozinhos, se respondem bem às variações de nível da água e se interagem de forma adequada em grupo.
Durante o semicativeiro, são realizadas capturas pontuais para exames clínicos e coleta de material biológico, como saliva, sangue, urina e fezes. Esses dados permitem avaliar o estado de saúde, o equilíbrio nutricional e a presença de possíveis infecções ou parasitas. Só os animais considerados plenamente aptos seguem para a soltura.

Por que o peixe-boi da Amazônia está ameaçado
O peixe-boi da Amazônia (Trichechus inunguis) é um mamífero aquático endêmico dos rios amazônicos e está na lista de espécies ameaçadas de extinção no Brasil, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A espécie sofre pressão principalmente da caça ilegal e da captura acidental em redes de pesca.
De acordo com Vera da Silva, a caça ainda ocorre em algumas regiões da Amazônia. Muitas vezes, a fêmea é abatida para consumo de carne, e o filhote, que depende do leite materno por até dois anos, não consegue sobreviver sozinho. Há também situações em que filhotes saudáveis são retirados da natureza sem necessidade, após emalhe em redes de pesca.
Essas ameaças reduzem a população e afetam o equilíbrio ecológico. O peixe-boi é um grande consumidor de plantas aquáticas e ajuda a controlar a vegetação, mantendo canais navegáveis e influenciando a dinâmica de nutrientes nos rios e lagos.
Importância ecológica e social do projeto
O Projeto Peixe-boi da Amazônia atua há décadas na conservação da espécie, combinando resgate, reabilitação, soltura e educação ambiental com comunidades ribeirinhas. Desde 2018, mais de 50 peixes-bois já foram devolvidos à natureza, principalmente na RDS Piagaçu-Purus.
A reserva é uma unidade de conservação de uso sustentável no estado do Amazonas, onde populações tradicionais vivem da pesca, agricultura e extrativismo. A presença do projeto na região fortalece ações de sensibilização sobre caça, pesca responsável e manejo da fauna aquática.
O monitoramento pós-soltura, feito com apoio de tecnologias como telemetria e acompanhamento em campo, permite avaliar a adaptação dos animais, suas rotas de deslocamento e áreas de alimentação. Essas informações ajudam a orientar políticas públicas e estratégias de proteção de habitats críticos.
Financiamento e cooperação internacional
A atual etapa de reabilitação e soltura conta com apoio financeiro do Fundo de Conservação do SeaWorld e Busch Gardens, que investe em projetos de conservação de espécies ameaçadas em diferentes países. A parceria contribui para ampliar a capacidade de atendimento do Projeto Peixe-boi, desde a infraestrutura de tanques e lago seminatural até o monitoramento científico.
Além do financiamento internacional, o projeto se apoia na estrutura científica do Inpa, instituição de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), referência em estudos sobre biodiversidade amazônica. Essa combinação de recursos e conhecimento especializado reforça a credibilidade dos dados gerados e a eficácia das ações de conservação.
Iniciativas semelhantes de reabilitação e reintrodução de mamíferos aquáticos são reconhecidas por órgãos internacionais como a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que recomenda o monitoramento de longo prazo e o envolvimento das comunidades locais como fatores-chave para o sucesso.
Glossário
- Semicativeiro: fase intermediária entre o cativeiro e a vida livre, em ambiente controlado que simula condições naturais, usada para readaptar os animais ao habitat.
- Emalhe: situação em que o animal fica preso em redes de pesca, de forma acidental ou intencional, podendo causar ferimentos ou morte.
- Espécie endêmica: espécie que ocorre naturalmente apenas em uma região específica, como o peixe-boi da Amazônia nos rios amazônicos.