O modelo de tratamento de água usado pelo Instituto Mamirauá na crise climática de 2023 e 2024, agora será utilizado na Amazônia Equatoriana – Foto: Miguel Monteiro/Inst. Mamirauá
  • Projeto “Água de Beber” leva kits de tratamento emergencial e capacitação a comunidades ribeirinhas no Equador.
  • Metodologia adapta processos de tratamento de água convencionais para uso doméstico, com guia prático e desinfecção solar.
  • Iniciativa fortalece multiplicadores locais e amplia soluções de baixo custo para acesso à água segura na Amazônia.

O projeto “Água de Beber”, desenvolvido pelo Instituto Mamirauá em resposta à seca extrema na Amazônia brasileira entre 2023 e 2024, foi apresentado a comunidades equatorianas de Coca e Guiyero, durante a Oficina de Capacitação de Multiplicadores em Água e Saneamento na Amazônia Rural. A iniciativa capacitou lideranças locais e entregou 80 kits de tratamento emergencial de água para ampliar o acesso à água potável em comunidades ribeirinhas da Amazônia equatoriana, vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas.

Nas oficinas, pesquisadores do Instituto Mamirauá e da Universidade San Francisco de Quito demonstraram o uso do kit “Tratamento Emergencial de Água”, criado para que o próprio núcleo familiar possa tratar água de forma simples e segura em situações de emergência.

O kit reúne insumos e orientações práticas, adaptando processos já usados em sistemas convencionais de abastecimento à realidade das comunidades ribeirinhas. Com formato compacto e de fácil transporte, pode atender uma família por vários meses, dependendo da demanda de consumo, e é voltado a contextos como estiagens severas e alterações no regime dos rios.

Os kits serão utilizados para purificar a águas das comunidades – Foto: Miguel Monteiro/Inst. Mamirauá

Além dos kits, as oficinas apresentaram o Guia Prático para o Tratamento Emergencial de Água Barrenta para Comunidades Ribeirinhas da Amazônia, traduzido para o espanhol, e demonstraram técnicas de desinfecção solar da água e de captação e tratamento seguro de água de chuva.

Intercâmbio entre Amazônia brasileira e equatoriana

A ação no Equador integra uma das iniciativas da Aliança Águas Amazônicas, rede que reúne instituições e pesquisadores dedicados à conservação ambiental e a soluções comunitárias para água e saneamento na região. O Instituto Mamirauá participa da articulação em temas como gestão da água, tecnologias sociais e monitoramento socioambiental.

A implementação no país surgiu a partir do interesse de instituições locais em fortalecer o acesso à água potável em comunidades ribeirinhas que enfrentam águas barrentas, desafios socioambientais e vulnerabilidade às mudanças climáticas, em um contexto semelhante ao do Médio Solimões, no Amazonas.

Para João Paulo Borges, pesquisador do Instituto Mamirauá e líder do Grupo de Pesquisa, Inovação e Desenvolvimento de Tecnologias Sustentáveis da Amazônia (GPIDTS), a experiência tem efeito direto na cooperação regional.

“Essa experiência de trabalhar em diferentes regiões da Amazônia e junto a comunidades tradicionais representa um intercâmbio que fortalece as parcerias institucionais e, ao mesmo tempo, contribui para outros territórios. Isso é muito importante diante dos desafios ambientais enfrentados pela região amazônica”, afirma o pesquisador.

Capacitação de multiplicadores e alcance comunitário

O evento reuniu lideranças locais e profissionais ligados à gestão da água na Amazônia equatoriana. Participaram representantes de comunidades indígenas e ribeirinhas, universidades, redes de jovens, juntas de gestão de água, associações locais e órgãos ambientais.

O objetivo central foi formar multiplicadores das técnicas de tratamento emergencial de água, para que o conhecimento circule entre diferentes comunidades e fortaleça soluções de baixo custo para acesso à água segura em diversos territórios amazônicos.

A parceria entre o Instituto Mamirauá, a Aliança Águas Amazônicas e a Universidade San Francisco de Quito envolveu nove pesquisadores: Paulina Rosero, Daniela Rosero-Lopez, Daniel Escobar-Camacho, Melani Valencia, Pamela Moreno, Andrea Encalada, João Paulo Borges Pedro, Cleimison Fernandes Carioca e Ayan Fleischmann.

Além do Instituto Mamirauá e da Universidade San Francisco de Quito, integrantes da Aliança Águas Amazônicas, o evento contou com apoio da Escuela Superior Politécnica de Chimborazo (ESPOCH), da Pontificia Universidad Católica del Ecuador (PUCE), da Alianza Ceibo, da Amazon Frontlines, da Dirección de Salud de Orellana (DSO) e do Ministerio del Ambiente, Agua y Transición Ecológica (MAATE), por meio do Parque Nacional Yasuní.

Origem do projeto “Água de Beber” no Brasil

O projeto “Água de Beber” foi criado pelo Instituto Mamirauá, organização de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em resposta à seca extrema que atingiu o Médio Solimões (AM) em 2023 e 2024. A iniciativa é resultado do trabalho conjunto do Grupo de Pesquisa em Inovação, Desenvolvimento e Adaptação de Tecnologias Sustentáveis e do Programa de Qualidade de Vida do Instituto.

Desde então, o projeto vem sendo aplicado em ações de preparação e resposta às estiagens, com oficinas para profissionais de saúde e agentes locais. As atividades já alcançam milhares de famílias ribeirinhas, incluindo moradores das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã e da Floresta Nacional de Tefé.

Além de ampliar o acesso à água potável em eventos climáticos extremos, a tecnologia foi desenhada para ser replicável. Instituições parceiras e órgãos públicos podem adquirir os kits, distribuí-los às comunidades e contar com capacitações e suporte técnico do Instituto Mamirauá.

Financiamento e parcerias

O projeto “Água de Beber” conta com apoio da Cáritas Suíça, do Servizio Protezione Internazionale (SPI), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e da União Europeia, por meio de sua iniciativa de Ajuda Humanitária. Também tem parceria do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Prefeitura de Tefé e da Prefeitura de Uarini.

Com uma equipe consolidada e reconhecimento nacional e internacional, a iniciativa fortalece a resposta comunitária a crises hídricas na Amazônia e cria uma base técnica para que políticas públicas incorporem soluções de baixo custo para água e saneamento em áreas remotas.

Glossário

  • Desinfecção solar da água: Método que utiliza a radiação solar, em garrafas transparentes expostas ao sol por tempo determinado, para reduzir microrganismos patogênicos na água.
  • Água barrenta: Água com alta turbidez, geralmente com partículas de solo e sedimentos em suspensão, comum em rios amazônicos durante certas épocas do ano.
  • Tecnologia social: Conjunto de técnicas, metodologias e produtos desenvolvidos com participação comunitária, voltados à solução de problemas sociais com baixo custo e fácil replicação.
  • Eventos climáticos extremos: Situações como secas severas, cheias intensas ou ondas de calor, associadas à variabilidade climática e às mudanças climáticas globais.

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