- Taciana Coutinho foi a única pesquisadora do interior do Amazonas aprovada no nexBio Amazônia 2026, programa Brasil-Suíça de bioeconomia.
- Ela atua há 17 anos na fronteira do Alto Solimões, a mais de 1.100 km de Manaus, liderando o PACTAS com uma equipe de 12 pessoas da própria região.
- A seleção pode abrir parcerias internacionais para projetos que já envolvem castanha, açaí, farinhas funcionais e 210 mulheres indígenas.
A bióloga Taciana Carvalho Coutinho, professora da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) em Benjamin Constant e coordenadora do Parque Científico Tecnológico do Alto Solimões (PACTAS), foi a única pesquisadora do Amazonas selecionada para o nexBio Amazônia 2026, programa de intercâmbio científico entre Brasil e Suíça voltado a bioeconomia e inovação sustentável. Dos cinco candidatos do Amazonas que chegaram à etapa de entrevistas, quatro eram de Manaus. Ela era a a única do interior.
A entrevista para a seleção durou três minutos e duas perguntas. “Eu achava que não ia passar porque foi muito fria”, confidenciou Taciana. Passou em entrevista exclusiva ao Portal TechAmazônia no sábado, antes de embarcar para o município de Amaturá, onde vai desenvolver um projeto de valorização da cadeia produtiva da castanha-do-Brasil.
Uma pesquisadora a 1.100 km da capital
Tabatinga, onde Taciana mora há 17 anos, fica na tríplice fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru. A cidade só se alcança de avião ou de barco: são mais de 1.100 km de Manaus pelo rio Solimões, percurso que pode levar três dias de embarcação. Nesse território, ela ajudou a construir o PACTAS, e hoje coordena projetos com recursos federais, acompanha 11 novos negócios locais e lidera uma equipe formada por ex-alunos que decidiram ficar na região.
A própria estrutura do parque diz algo sobre as condições de trabalho. “Hoje a gente vive numa sala alugada de mais ou menos 40, 50 metros quadrados”, disse ela. Os laboratórios ficam dentro da UFAM em Benjamin Constant e na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) em Tabatinga. “O que existe é uma governança de pessoas que fazem parte dessa equipe e que se espalham no território.”
O Alto Solimões tem chamado atenção crescente de pesquisadores e gestores públicos. A concentração de instituições de ensino superior na região, a diversidade de projetos em andamento e a presença de iniciativas como o PACTAS formaram, ao longo dos últimos anos, um polo de pesquisa e inovação improvável para uma área tão isolada, como o TechAmazônia já mostrou.
O que é o PACTAS e como nasceu
O projeto surgiu em 2019 a partir de uma articulação entre Taciana e a professora Tatiana Schor, que trabalhava na Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas (SEDECTI). O ponto de partida foi reunir os pesquisadores já presentes na região, especialmente os vinculados ao NESAM, Núcleo de Estudos Socioambientais da Amazônia da UEA, e às três instituições de ensino superior locais: UFAM, UEA e o Instituto Federal.
Em 2020, já no início da pandemia, o grupo fechou um primeiro Termo de Execução Descentralizada (TED) com o Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional: R$ 500 mil para mapear as potencialidades produtivas do Alto Solimões. Meses depois, em agosto do mesmo ano, um segundo TED com o Ministério da Justiça trouxe mais R$ 2,7 milhões, destinados a estruturar a implantação do parque. O valor original era de R$ 4 milhões, mas cortes orçamentários reduziram o repasse.
Hoje o PACTAS encerra a primeira fase do TED com o Ministério da Integração e inicia um novo convênio com o Ministério da Justiça, focado em desenvolvimento alternativo, com recursos em fase de empenho para atuação no município de Jutaí.
Projetos que saem do laboratório para a comunidade
No campo, o PACTAS funciona com uma lógica territorial: vai às cidades, entra nas comunidades e trabalha com quem já produz. Entre os projetos em andamento estão o desenvolvimento de farinhas funcionais a partir de frutas da região, aplicadas em produtos de panificação, e o aproveitamento do caroço do açaí, resíduo que em muitos lugares é descartado nos igarapés. Uma empresa parceira instalou equipamento que queima a semente para a produção de cimento, sem geração de poluentes, processo que resolve dois problemas: o destino do resíduo e a emissão de metano no ambiente.
Um dos casos mais concretos está em Amaturá, quarta maior produtora de castanha do Amazonas. O município tem 9.000 habitantes e uma associação com 80 membros que representa cerca de 400 famílias. O problema não é a falta de produto. O município tem potencial de produção estimado em R$ 15 milhões por ano. O problema é o modelo de venda.
Taciana viajou esta semana para o município justamente para avançar nesse processo. Segundo a pesquisadora Amaturá enfrenta o mesmo gargalo que outras locais do Alto Solimões enfrentam.
“Eles vendem hoje o quilo da castanha a um preço aproximadamente de R$ 6,00 o quilo em casca, mas não agrega valor. A gente poderia transformar essa castanha em um produto embalado, com marca, registro, certificado. O que falta é investidores.”, explicou.
Há ainda um trabalho com quintais agroecológicos dentro de comunidades indígenas. Na semana anterior à entrevista ao TechAmazônia, o projeto obteve habilitação no Ministério do Desenvolvimento Agrário para atender 210 mulheres indígenas da comunidade de Belém do Solimões, considerada a maior comunidade indígena do Brasil em população.
nexBio Amazônia e o que a seleção pode mudar
O nexBio Amazônia é um programa de intercâmbio científico entre Brasil e Suíça focado em bioeconomia sustentável e desenvolvimento territorial. A edição de 2026 reúne pesquisadores e startups em duas semanas de atividades, uma em Manaus e outra em Macapá, com participantes de diferentes regiões do país e parceiros suíços. Taciana parte para Manaus no dia 2 de agosto.
O projeto que ela submeteu para concorrer descrevia a experiência do PACTAS com bioeconomia territorializada e inovação sustentável na Amazônia transfronteiriça. O argumento central, que ela pratica há anos, é que não faz sentido construir infraestrutura de inovação sem antes entender o que cada município produz, o que pode produzir e o que precisa.
Para ela, a aprovação interessa menos como reconhecimento e mais como acesso. “Hoje eu tenho vários gargalos na pesquisa aqui que eu não consigo resolver aqui, mas que provavelmente lá em São Paulo ou na Suíça a gente consiga uma parceria”, disse. A expectativa é estabelecer conexões com startups e ecossistemas de inovação suíços e brasileiros de outras regiões, além de discutir caminhos para internacionalizar parte do trabalho.
“A gente não precisa ser mais mapeado. Precisa partir para a ação. Essas pessoas que vivem da castanha, do açaí, do peixe precisam pagar contas.”
Há também uma dimensão simbólica que Taciana não ignora. Durante anos, foi chamada para integrar pesquisas de instituições de fora da região, projetos liderados por pesquisadores que, segundo ela, “falavam que não existiam pesquisadores” no Alto Solimões. Hoje sua equipe tem 12 pessoas, formadas pelas próprias universidades locais, a maior parte originária da região.
“A governança do território começa quando a gente começa a formar pessoas da região que não vão embora da região. Para isso, eu preciso criar oportunidades de trabalho.”
O PACTAS mantém as bolsas por meio de captação de recursos via projetos. Quando o dinheiro não chega, a equipe continua. “A gente precisa parar de ser mapeados e partir para a ação”, disse ela. “Essas pessoas que estão nos territórios, nas comunidades, precisam pagar contas.”
Glossário
- nexBio Amazônia: Programa de intercâmbio científico entre Brasil e Suíça focado em bioeconomia sustentável e inovação territorial na Amazônia.
- PACTAS: Parque Científico Tecnológico do Alto Solimões, sediado em Tabatinga (AM), coordenado pela UFAM.
- TED: Termo de Execução Descentralizada, instrumento pelo qual um órgão federal repassa recursos a uma universidade ou entidade para execução de projeto específico.
- NESAM: Núcleo de Estudos Socioambientais da Amazônia, grupo de pesquisa da UEA com atuação na região do Alto Solimões.
- FAPEAM: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, responsável pelo financiamento das despesas de Taciana no programa nexBio.