- Um levantamento de 17 anos na Reserva Mamirauá, no Amazonas, mediu sobrevivência, nascimentos e densidade de onças-pintadas.
- Pesquisadores usaram armadilhas fotográficas e modelos de captura-recaptura para acompanhar os mesmos indivíduos ano a ano.
- A densidade de fêmeas caiu 77% no período, enquanto a de machos subiu 59%, um sinal que passaria despercebido em contagens simples.
Um estudo conduzido ao longo de 17 anos na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, identificou uma queda expressiva no número de fêmeas de onça-pintada (Panthera onca) na região, mesmo em uma das áreas com maior densidade da espécie já registradas no mundo. A pesquisa, publicada em julho de 2026 no periódico Journal of Applied Ecology, reuniu dados de 2005 a 2022 e é considerada o levantamento mais longo já feito sobre a demografia de onças-pintadas em florestas alagadas da Amazônia.
A equipe, liderada por Raíssa Sepúlvida e Emiliano Ramalho, do Instituto Mamirauá, em parceria com pesquisadores das universidades de Swansea, Oxford e Minnesota, monitorou a população na confluência dos rios Japurá e Solimões, área de várzea sujeita a cheias anuais que podem chegar a sete metros de profundidade.
Os pesquisadores instalaram grades de armadilhas fotográficas ao longo de 14 dos 17 anos analisados, com esforço anual variando entre 715 e 4.655 noites de monitoramento por câmeras, somando 38.528 noites de registro. Cada onça-pintada fotografada foi identificada individualmente pelo padrão único de manchas, o que permitiu reconhecer os mesmos animais ao longo dos anos e calcular taxas de sobrevivência, reprodução e crescimento populacional com um método estatístico chamado captura-recaptura espacialmente explícita.
Essa abordagem difere de simples contagens de indivíduos. Em vez de apenas somar quantas onças-pintadas aparecem nas fotos, o modelo estima quantos animais sobrevivem de um ano para o outro, quantos entram na população por nascimento ou imigração e como a densidade se distribui no espaço, controlando o fato de que os animais nem sempre são detectados pelas câmeras.
Fêmeas em queda, machos em alta na onça-pintada amazônica
Os resultados mostram uma sobrevivência anual estável ao longo de todo o período, de 0,76, sem diferença entre machos e fêmeas. Esse número indica que, a cada ano, cerca de 76% dos adultos monitorados continuavam vivos, uma taxa considerada alta e semelhante à observada em outros grandes felinos do gênero Panthera, como leões e tigres.
A divergência aparece na reprodução. A taxa de recrutamento, que mede a entrada de novos indivíduos adultos na população, foi de 0,26 para machos e de apenas 0,15 para fêmeas. Ao longo dos 17 anos, a densidade de fêmeas caiu 77%, de 10,32 para 2,39 indivíduos a cada 100 km². No mesmo período, a densidade de machos subiu 59%, de 3,81 para 6,07 indivíduos a cada 100 km². A densidade total da população, somando os dois sexos, recuou de 14,13 para 8,47 indivíduos a cada 100 km².
O crescimento populacional estimado pelo modelo, que leva em conta sobrevivência e reprodução, oscilou entre 0,95 e 1,18 ao longo dos anos, com média de 1,00, o que sugeriria estabilidade. Já o crescimento observado diretamente nas contagens de campo ficou abaixo de 1 na maior parte dos anos, com média de 0,97, indicando um declínio discreto, porém persistente.
Por que os machos aumentam enquanto as fêmeas desaparecem
Os autores sugerem que esse padrão reflete um fluxo constante de machos vindos de áreas vizinhas, atraídos pelos territórios deixados vagos por fêmeas residentes que morreram ou reduziram sua reprodução. A hipótese principal envolve a caça histórica com viés para machos, documentada na região desde 2012, que ao abrir espaço para novos machos pode desencadear infanticídio, comportamento já registrado em outros grandes felinos, como leopardos e leões, quando machos recém-chegados matam filhotes de gerações anteriores para acelerar um novo acasalamento.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que as câmeras registraram poucos filhotes e juvenis ao longo dos 17 anos de monitoramento. Como as fêmeas de onça-pintada costumam permanecer perto do território onde nasceram, a perda de fêmeas residentes compromete diretamente a capacidade da população local de se renovar, mesmo quando o número total de indivíduos parece estável ou até crescente.
Amazônia abriga as maiores densidades de onça-pintada do planeta
Para comparar os resultados de Mamirauá com o restante da distribuição da espécie, os pesquisadores reuniram um banco de dados com 229 estimativas de densidade de 136 locais, cobrindo dez ecorregiões e 15 dos 19 países onde a onça-pintada ainda ocorre. A várzea amazônica central apresentou as densidades mais altas entre todos os ecossistemas sazonalmente inundados da América do Sul, superando outras áreas da Amazônia e ficando em patamar comparável ao do Pantanal e dos Llanos, reconhecidos como os principais redutos da espécie.
Segundo os autores, esse número elevado pode esconder uma vulnerabilidade real. Uma população pode parecer robusta em levantamentos pontuais de densidade e, ainda assim, estar perdendo capacidade reprodutiva ano após ano, um sinal que só aparece em monitoramentos de longo prazo como este.
O que o estudo recomenda para a conservação da onça-pintada
Os pesquisadores defendem que estratégias de conservação parem de se basear apenas em estimativas de abundância ou densidade e passem a incorporar dados sobre sobrevivência e reprodução, especialmente entre fêmeas. Eles destacam o papel da gestão comunitária adotada em Mamirauá, a primeira Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Brasil, onde comunidades locais participam diretamente da proteção da fauna, e defendem o reforço dessas ações diante da pressão de caça e das mudanças climáticas, que têm tornado os ciclos de cheia e seca da Amazônia mais extremos e menos previsíveis.
O estudo completo está disponível abaixo já traduzido para o português com auxílio do Google Tradutor e os dados brutos da pesquisa foram depositados no repositório Zenodo.
Glossário
- Captura-recaptura: método estatístico que estima o tamanho de uma população identificando os mesmos indivíduos em diferentes momentos.
- Recrutamento: taxa que mede a entrada de novos indivíduos adultos em uma população, seja por nascimento seja por imigração.
- Filopatria: tendência de um animal permanecer ou retornar à área onde nasceu ao longo da vida.
- Infanticídio: morte de filhotes causada por um adulto, geralmente um macho que chega recentemente ao território.
- Várzea: floresta amazônica sujeita a inundações sazonais regulares, diferente da terra firme, que não alaga.