garrafas de plástico tipo pets descartadas em igarapé
  • Dispositivos rastreáveis lançados no Encontro das Águas, em Manaus, chegaram ao Oceano Atlântico em 25 dias.
  • A pesquisa usou 400 rastreadores biodegradáveis, monitorados por satélite, em parceria com a ONG holandesa The Ocean Cleanup.
  • Uma startup de Manaus já retira até seis toneladas de resíduos plásticos por hora dos igarapés, encaminhando o material para reciclagem industrial.

Uma pesquisa conduzida pela ONG holandesa The Ocean Cleanup em parceria com a startup amazonense Awty está estudando o tempo que o lixo jogado nos igarapés de Manaus leva para chegar até a Foz do Rio Amazonas e ir parar no Oceano Atlântico. O estudo, iniciado em janeiro de 2024, usa dispositivos biodegradáveis que simulam garrafas pets e são rastreados por satélite. Os primeiros dados coletados já identificou que esse percurso pode levar apenas 25 dias.

A pesquisa começou quando a The Ocean Cleanup, organização que atua na retirada de plástico dos oceanos e na interceptação de resíduos em rios ao redor do mundo, procurou parceiros no Brasil. Jadson Maciel, fundador da Awty, startup de Manaus que retira plástico dos igarapés, foi contactado para participar da pesquisa.

“Quando eles decidiram vir para o Brasil, eles nos procuraram e convidaram a ser o ponto focal da pesquisa na região. Isso foi muito importante, porque a gente precisa avançar na gestão do lixo plástico, que hoje é um problema global em todos os oceanos e aqui no nosso estado, nos rios, a gente também sofre o mesmo problema”, explicou.

Segundo Maciel, a equipe internacional, formada por dois pesquisadores holandeses e dois suecos, desembarcou em Manaus em janeiro de 2024 e mapeou toda a cidade, identificando as cinco principais saídas de esgotamento sanitário e os igarapés contaminados que desaguam no Rio Negro. A autorização para conduzir a pesquisa internacional precisou passar pela Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA).

A partir desse mapeamento, foram desenvolvidos dispositivos biodegradáveis, monitorados via satélite, lançados diretamente no Encontro das Águas. Foram 200 unidades em 2024 e outras 200 em 2025. Metade delas simula uma garrafa PET flutuante e a outra metade reproduz o comportamento de uma garrafa parcialmente afundada, que viaja submersa sem flutuar nem ir ao fundo.

“Existem duas formas do material viajar no rio. Ele não viaja só de forma flutuante, ele viaja de forma submersa também, que é uma informação que eu descobri nessa pesquisa, e que fiquei assustado, pois quando a gente vê uma ilha de PET flutuante no rio, pode ter a certeza de que há três vezes mais PETs submersas”, contou.

Vídeo divulgado por Jadson Maciel durante o lançamento da segunda rodada de dispositivos da pesquisa para saber o caminho que o lixo produzido em Manaus leva até desaguar no Oceano Atlântico

Do Encontro das Águas ao Oceano Atlântico

O ponto de lançamento dos dispositivos não foi escolhido ao acaso. O Encontro das Águas marca a diferença de velocidade entre o Rio Amazonas, mais rápido, e o Rio Negro, mais lento, e serve como referência para entender o deslocamento do plástico rio abaixo. De acordo com Maciel, o resultado surpreendeu a própria equipe, pois, em apenas 25 dias ele desaguou no Oceano Atlântico, na foz do Rio Amazonas.

O achado dá dimensão temporal a um problema já mapeado por outras iniciativas. Um levantamento do projeto Blue Keepers, ligado ao Pacto Global da ONU, já havia identificado Manaus entre as cidades brasileiras sem litoral que mais contribuem para o plástico que chega ao oceano, ao lado de Teresina, Brasília, Goiânia, Campo Grande, Belo Horizonte e Contagem. O mesmo estudo estima que 3,4 milhões de toneladas de plástico descartado no Brasil cheguem ao mar todos os anos, a maior parte oriundos das bacias dos rios Amazonas, Tocantins, São Francisco, Tietê e Paraná.

A pesquisa em Manaus ainda está em andamento, e o próprio Maciel evita antecipar resultados completos antes da conclusão formal do estudo pelos Ong holandesa responsável pela pesquisa. Contudo, o que ele adiantou é que o resultado final deverá servir de base para propor soluções de contenção do plástico antes que ele saia dos igarapés urbanos.

duas embarcações coletando lixo do rio negro em manaus
Barcos de coletas da Awti Mapinguari I e Mapinguari II coletando lixo dos rios – Foto: Divulgação.

A startup quer identificar o problema na origem

Enquanto os resultados da pesquisa não são fechados, a Awty, startup de Maciel, atua diretamente na retirada do plástico dos igarapés de Manaus, antes que esses resíduos alcancem o Rio Negro e sigam a mesma rota rastreada pela pesquisa. Fundada em 2016 a partir do projeto social Remada Ambiental, a startup mantém três equipamentos de coleta: os barcos Mapinguari, com garra manual, o Mapinguari 2.0, com esteira automatizada, e o Yara, um dispositivo portátil operado por controle remoto para atuar em igarapés rasos, equipado com sensor de calor para evitar ferir animais.

De acordo com Maciel, as embarcações retiram em média seis toneladas de resíduos plásticos por hora. O material coletado passa por triagem, lavagem e separação por tipo de plástico, entre PP, PEAD e PET, e é transformado em polímero reciclado para abastecer indústrias do polo industrial de Manaus, o que evita o encaminhamento para aterros controlados.

Mas ele que ir mais além. A startup está testando o uso de inteligência artificial no processo de coleta para identificar não apenas os tipos de materiais, mas as marcas por trás deles e, assim, buscar os fabricantes e usar a Lei de logística reversa para evitar que essas garrafas vão parar nos igarapés de Manaus.

“As empresas locais são responsáveis pela destinação desse material pós-uso, que é a chamada logística reversa. Então, nosso objetivo é gerar esses dados para depois criar uma estratégia de procurar os fabricantes que engarrafam material plástico aqui no nosso estado, e conversar para que eles se responsabilizem e eles não sejam descartados nos nossos rios e igarapés”, explicou.”

A startup atua no modelo de negócio business-to-government (B2G) e está em tratativas com a Secretaria de Limpeza Pública de Manaus para ampliar a presença de seus equipamentos na gestão municipal de resíduos descartados nos igarapés da capital amazonense.

Glossário

  • B2G: modelo de negócio em que uma empresa presta serviços diretamente para órgãos governamentais.
  • ANA: Agência Nacional de Águas e Saneamento, órgão federal responsável pela regulação de recursos hídricos no Brasil.
  • PET, PEAD e PP: tipos de plástico (polietileno tereftalato, polietileno de alta densidade e polipropileno) separados na reciclagem industrial.
  • IA: inteligência artificial, tecnologia usada aqui para identificar tipos de material e marcas durante a coleta.

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