- Delegação da Febrace leva 14 jovens de diferentes regiões à ISEF 2026, no Arizona, com projetos que vão de terapias para Alzheimer a fungicidas naturais para café.
- Entre os destaques, estão estudantes do Amazonas com pesquisa que investiga ondas binaurais para modular genes ligados ao Alzheimer, com resultados promissores em testes laboratoriais.
- Brasil já conquistou 82 prêmios internacionais na ISEF com trabalhos que combinam rigor científico e aplicação prática em problemas reais.
Quatorze estudantes brasileiros selecionados pela Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) embarcam no dia 8 de maio para Phoenix, no Arizona, onde representarão o Brasil na Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF) 2026. Antes da viagem, os jovens participam de um workshop preparatório na Universidade de São Paulo (USP), na capital paulista, para alinhar apresentações e se preparar para a dinâmica da competição internacional.
No grupo está a amazonense Ada Jamile, com o trabalho MeMo, que acumulou quatro distinções na Febrace 2026: Prêmio Ciências Moleculares Herch Moysés Nussenzveig de Mérito Acadêmico, Prêmio Mostra Nacional de Feiras de Ciências, Prêmio Destaque por Estado representando o Amazonas e a medalha de 2º lugar em Ciências da Saúde.
A ISEF reúne anualmente cerca de 1.600 estudantes de aproximadamente 60 países e oferece premiações que somam milhões de dólares, além de bolsas de estudo em instituições de referência. A delegação brasileira completa, que inclui também estudantes selecionados pela Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia (Mostratec), de Novo Hamburgo (RS), totaliza 26 participantes.
“A ISEF é muito mais do que uma competição. É uma experiência de formação científica e pessoal que coloca esses jovens em diálogo com o que há de mais avançado no mundo. Eles chegam com projetos extremamente consistentes, desenvolvidos a partir de problemas reais, e voltam com uma visão ampliada do papel da ciência na sociedade”, afirma Roseli de Deus Lopes, coordenadora geral da Febrace.
Ondas sonoras contra o Alzheimer
Entre os projetos que chamam atenção está o trabalho da estudante Ada Jamile Gomes de Oliveira, do Colégio Militar de Manaus, que investiga o uso de ondas binaurais para modular genes associados ao Alzheimer. A pesquisa, intitulada “MeMO (Fase II): investigando ondas binaurais como alternativa terapêutica em enfermagem com validação in vitro”, foi orientada pelo professor Roberto Alexandre Alves Barbosa Filho.
Os resultados iniciais indicam redução na expressão de marcadores genéticos ligados à doença em testes laboratoriais. O estudo explora uma abordagem não invasiva e de baixo custo, com potencial para complementar terapias convencionais no tratamento de doenças neurodegenerativas.
Da agricultura sustentável à segurança pública
A delegação apresenta trabalhos que articulam ciência e aplicação prática em diferentes áreas. No campo da sustentabilidade agrícola, o projeto Sustainpoly propõe o reaproveitamento de resíduos do maracujá para produzir biocompósitos multifuncionais, capazes de aumentar a vida útil de frutas e reduzir custos agrícolas em cerca de 85%.
Outro destaque é o AnisGuard, fungicida natural à base de erva-doce desenvolvido por estudantes brasileiros. O produto reduziu em até 83,8% a carga fúngica em grãos de café, com custo significativamente menor que soluções convencionais disponíveis no mercado.

Na área de saúde, uma pesquisa investiga o uso de bacteriófagos no combate a biofilmes bacterianos, com resultados promissores para enfrentar infecções hospitalares resistentes a antibióticos tradicionais.
Projetos com foco social e tecnológico também integram a delegação. Um estudo realizado no Ceará utiliza inteligência artificial e análise cartográfica para mapear padrões de feminicídio, gerando dados que podem subsidiar políticas públicas de prevenção à violência contra mulheres.
Na interface entre tecnologia e segurança, estudantes desenvolveram um sistema baseado em visão computacional (YOLOv10) capaz de detectar e prever a trajetória de balões com 94% de precisão, contribuindo para prevenir incêndios florestais e riscos à aviação.
Trajetória consolidada na competição internacional
A Febrace consolidou-se como a principal porta de entrada do Brasil para a ISEF. Desde o início de sua participação na competição, a feira já selecionou e preparou delegações responsáveis pelo envio de 210 projetos brasileiros, que resultaram na conquista de 82 prêmios internacionais.
O desempenho evidencia a consistência científica dos trabalhos desenvolvidos no país e a capacidade dos estudantes brasileiros de competir em nível global, mesmo diante de limitações estruturais em comparação com países desenvolvidos.
Outros projetos na delegação incluem o uso de extratos vegetais para acelerar o cultivo de orquídeas, reduzindo custos e tempo de produção em até 90%, e o Amendoclean, que utiliza biocarvão de casca de amendoim para remover corantes industriais da água com alta eficiência.
Um estudo realizado em São Paulo analisa a percepção de jovens sobre aranhas e propõe estratégias de educação ambiental em contextos urbanos, enquanto outra pesquisa explora soluções biotecnológicas para questões ambientais e de produção sustentável.
Glossário
- Ondas binaurais: Estímulos sonoros que criam a percepção de uma frequência específica no cérebro quando duas frequências ligeiramente diferentes são apresentadas separadamente a cada ouvido.
- Bacteriófagos: Vírus que infectam e destroem bactérias específicas, com potencial para uso terapêutico contra infecções resistentes a antibióticos.
- Biocompósitos: Materiais formados pela combinação de fibras naturais com polímeros, utilizados como alternativa sustentável a compostos sintéticos.
- YOLOv10: Algoritmo de visão computacional para detecção de objetos em tempo real, amplamente utilizado em aplicações de segurança e monitoramento.


