- Benjamin Constant, município do Alto Solimões a mais de 1.100 km de Manaus, criou um polo de inovação com 21 startups aprovadas no programa Centelha da FAPEAM.
- A Incubadora Impactas, vinculada ao campus da UFAM no município, oferece suporte administrativo, fiscal, jurídico e tecnológico às startups incubadas, reduzindo barreiras de entrada para empreendedores da região.
- A prefeitura criou a Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação e o edital “Capital Semente”, que financiou 11 startups com R$ 5.500 cada em 2024.
- Duas das startups incubadas já receberam proposta de entrada no mercado peruano, com aporte de 40 mil dólares, após missão da incubadora a Iquitos e Lima.
- O modelo combina universidade federal, prefeitura e parceiros internacionais do Peru e da Colômbia para construir o que os envolvidos chamam de “microcosmo de inovação” da Pan-Amazônia.
A mais de 1.100 quilômetros de Manaus, acessível apenas de avião ou em três a quatro dias de barco, Benjamin Constant tem se tornado um polo de inovação no Alto Solimões. O município abriga a Incubadora Impactas, vinculada ao Instituto de Natureza e Cultura da Ufam, que em 2026 aprovou 21 projetos no Centelha, principal programa de fomento a startups do estado, administrado pela Fapeam. O resultado colocou a cidade no mapa da inovação amazônica e chamou a atenção de empreendedores de outros municípios, do governo estadual e até de parceiros internacionais.
A história não começa com um resultado. Começa com uma tentativa frustrada. Em torno de 2010, um grupo na Ufam tentou criar a primeira incubadora de economia solidária no campus de Benjamin Constant. O projeto não avançou. Faltavam infraestrutura, conectividade e modelo. Mas o movimento deixou raízes. Em 2019, o professor Pedro Mariosa chegou ao campus e encontrou o terreno preparado.
“A diferença e o que faz o diferencial aqui é que as pessoas são muito avançadas intelectualmente”, diz Mariosa. “Porque às vezes nascem na comunidade, aprendem a falar a língua do seu povo, depois vão morar um tempo no Peru, aprendem espanhol, aí vêm para cá, fazem a faculdade e, aos 22 anos, já têm três línguas e uma graduação.”
Da tentativa ao modelo
O processo de estruturação da incubadora foi gradual. Em 2020, a equipe aprovou o primeiro edital de fomento via Fapeam. Em 2022, reformou o laboratório de administração que serve de base física. Em 2023, garantiu recursos do “Pró-Incubadoras”, programa estadual de estruturação. Foram quatro anos de construção até chegar ao formato atual, que oferece às startups suporte administrativo, fiscal, contábil, jurídico e tecnológico durante os dois primeiros anos.
A incubadora distingue dois tipos de participantes: os “residentes”, que trabalham diariamente no espaço físico, e os “não residentes”, empreendedores de outros municípios que acessam o suporte à distância e visitam Benjamin Constant periodicamente. A procura de fora do município começou a crescer depois que a Impactas consolidou o modelo.

“A gente quebrou muita cara”, admite Mariosa. “De oferecer serviços que não eram úteis, de não saber como conseguir alvará para determinado tipo de organização. Tudo foi tentativa e erro até chegar nesse modelo que agora está atraindo, além das que estão aqui, os não residentes também.”
A prefeitura entra no jogo
Em paralelo ao amadurecimento da incubadora, a prefeitura criou a Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação, hoje sob o comando de Rodolfo Magalhães, professor da rede estadual nascido em Benjamin Constant. A secretaria é a segunda do interior do Amazonas dedicada exclusivamente ao tema, depois de Tefé, que criou a sua em 2020.
A iniciativa nasceu de dentro da universidade. “A nossa secretaria surgiu a partir da sugestão dos professores da incubadora”, conta Magalhães. “Por uma exigência que se colocava nesse microcosmo que estava se desenvolvendo aqui, era necessário que a prefeitura também participasse.”
A secretaria criou o edital “Capital Semente”, que em 2025 destinou R$ 5.500 a cada uma das 11 startups vinculadas à Impactas. O valor é modesto, mas cobre custos iniciais que travam muitos empreendimentos: registro de CNPJ, alvará de funcionamento, certificação digital. O edital deve ser repetido em 2026, desta vez para um número maior de startups.

A prefeitura também está elaborando um Plano Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação e um Conselho da área, medidas que, na avaliação de Mariosa, tiram o ecossistema da dependência de gestões específicas. “Quando você cria um conselho dentro de uma secretaria, você está mostrando para a sociedade que isso não vai morrer em uma canetada de um prefeito ou na mudança do próximo prefeito.”
Quatro startups em destaque
Das 21 startups que passaram pelo Centelha, quatro se destacam em nível nacional. A Ikaben desenvolve moda indígena de alto padrão e já vende para seis países, com e-commerce que atendeu 16 estados brasileiros. A Kaweru trabalha com fibra do tronco da bananeira, usando conhecimento tradicional do povo Tikuna combinado com tecnologia de laboratório, para chegar a um material com potencial de substituir embalagens plásticas. A Puwakana faz curadoria de artes indígenas, transformando o que era tratado como artesanato em produtos de alta apresentação, com foco nos povos Matis.
A quarta, a DataB, atua em análise de dados e acaba de fechar contrato de consultoria com o Instituto Mamirauá. “Essas regiões têm os dados muito fragmentados”, explica Mariosa. “A DataB foi premiada nacionalmente.”




Há outros projetos em desenvolvimento: uma startup de repelente a partir de produtos naturais, outra de produtos de limpeza biodegradáveis e uma plataforma de turismo regional. A FluviVerde, premiada no Expo Favela, projeta um barco capaz de navegar tanto na seca quanto na cheia, adaptado às variações climáticas dos rios amazônicos.
Benjamin Constant no centro da Pan-Amazônia
A distância de Manaus, vista de fora como desvantagem, é relida pela equipe da Impactas como posicionamento estratégico. Benjamin Constant fica a menos de 1.000 quilômetros de Lima, capital do Peru, a 20 quilômetros de Letícia, capital do estado colombiano do Amazonas, e a poucas horas de Iquitos, capital da região peruana de Loreto.
“Se você pegar o mapa da Pan-Amazônia e ver o ponto central de todos os nove países que a compõem, a gente está no centro”, afirma Mariosa. “Se até um tempo atrás a gente era visto como a margem da sociedade, agora estamos passando a ser o centro de desenvolvimento da Pan-Amazônia.”
Em novembro de 2025, a incubadora recebeu dois empreendedores peruanos, um de Iquitos e um de Lima, em um processo que chama de “incubação cruzada”. Um trabalha com couro feito a partir da borra de café; o outro, com fitoterápicos da Amazônia. Um mês depois, dois empreendedores de Benjamin Constant viajaram para o Peru. Foram recebidos por câmaras de comércio, órgãos de fomento e pela embaixada britânica. Receberam proposta de entrada no mercado peruano com aporte de 40 mil dólares.

Na Colômbia, a incubadora estabeleceu parceria com a Universidade Nacional, o Serviço Nacional de Aprendizagem e, via projeto com a Noruega, com a Universidade Industrial de Santander, em Bogotá.
O reconhecimento da reitoria
A trajetória da Impactas também encontrou respaldo institucional dentro da própria Ufam. A reitora Tanara Lauschner reconheceu publicamente o trabalho desenvolvido no campus do Alto Solimões.
“O resultado nesse edital é o resultado de anos de trabalho que eles vêm fazendo lá no nosso instituto. São professores e professoras muito dedicados. E quando a gente fala de ciência e tecnologia lá no Alto Solimões, a gente verifica que houve intervenções de pesquisadores da Ufam para diminuir o impacto da seca naquela região. É a universidade interferindo diretamente na melhoria da qualidade de vida da nossa população.”

A Pró-Reitoria de Tecnologia da Ufam passou a acompanhar diretamente o trabalho da incubadora, participando das visitas institucionais. O próximo passo, segundo Mariosa, é mapear as estruturas replicáveis do modelo. “A gente ainda precisa se consolidar. Dessas 21 startups, de faturamento bom de mercado, são duas. Ainda precisamos amadurecer esse processo.”
No horizonte, a Secretaria Municipal articula aproximação com o governo estadual e com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que já manifestou interesse em conhecer o modelo. “Nós estamos no estado do Amazonas, nós somos o Brasil”, diz Magalhães. “O governo federal não pode ficar alheio a isso.”
Youtube
A entrevista que deu origem a esta reportagem estreia nesta terça-feira (10), às 17h (Manaus), no canal do TechAmazônia no Youtube. Não percam!
Glossário
- Centelha: programa de fomento a startups gerenciado pela FAPEAM, com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), voltado a transformar pesquisas em empreendimentos inovadores.
- Fapeam: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, principal agência de fomento à ciência e tecnologia do Amazonas.
- INC: Instituto de Natureza e Cultura, campus avançado da UFAM em Benjamin Constant, que concentra cursos voltados às realidades socioambientais da fronteira.
- Ufam: Universidade Federal do Amazonas, com sede em Manaus e campi no interior do estado, entre eles o INC em Benjamin Constant.
- Pan-Amazônia: conjunto dos territórios amazônicos que abrangem nove países da América do Sul: Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.
- Incubação cruzada: modelo de intercâmbio entre incubadoras de países diferentes, em que empreendedores de uma nação são acolhidos pelo ecossistema da outra para desenvolvimento e expansão de mercado.