• Estudo da Fapespa mostra que o Pará multiplicou por 14 a produção de açaí em 38 anos e lidera a cadeia no Brasil.
  • Análise combina dados de produção, valor econômico, emprego, exportações e estimativas de captura de CO2 e reflorestamento.
  • Resultados indicam oportunidade de ampliar renda, exportações e créditos de carbono, desde que haja investimento em tecnologia e manejo sustentável.

A produção de açaí no Pará cresceu 14 vezes entre 1987 e 2024, consolidando o estado como líder nacional e internacional na cadeia do fruto amazônico, segundo estudo da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa). O levantamento mostra como o açaí se tornou eixo de desenvolvimento econômico, geração de emprego e captura de carbono na região.

Pará domina a produção nacional de açaí

De acordo com o estudo “O contexto econômico e ambiental do açaí”, estruturado pela Fapespa, a produção do fruto passou de 145,8 mil toneladas para 1,9 milhão de toneladas em 38 anos. O Pará responde por 89,5% de toda a produção brasileira, seguido por Amazonas (7,2%) e Amapá (1,3%).

Dentro do Pará, dez municípios concentram cerca de 60% da produção nacional. Igarapé-Miri lidera com 13,2%, seguido por Cametá (7,9%) e Anajás (6,2%). Esse nível de concentração ajuda a explicar por que o estado se tornou referência global em açaí, tanto em volume quanto em conhecimento acumulado na cadeia produtiva.

Valor da produção cresce e movimenta a economia

Em termos financeiros, o valor da produção paraense saltou de R$ 509,7 milhões, em 1994, para R$ 8,8 bilhões em 2024. O estado concentra 93,8% do valor total gerado pelo setor no Brasil, o que reforça o peso do açaí na economia regional e na pauta de políticas públicas para a Amazônia.

A produção de açaí no Pará cresceu 14 vezes em menos de quatro décadas: de 145,8 mil toneladas em 1987 para 1,9 milhão de toneladas em 2024 – Fotos: Divulgação/Fapespa

Esse crescimento é relevante para gestores públicos, produtores e investidores porque indica um mercado em expansão, com demanda interna e externa em alta, e espaço para agregar valor por meio de tecnologia, processamento e certificações de origem.

Empregos e renda em toda a cadeia do açaí

A expansão da produção impacta diretamente o mercado de trabalho. O número de estabelecimentos produtores de açaí no Pará passou de 5,2 mil, em 1986, para mais de 81 mil em 2017. A cadeia envolve desde agricultores familiares até empreendimentos do agronegócio, além de cooperativas e pequenas agroindústrias.

O estudo estima que a atividade sustente 4.763 postos de trabalho diretos e indiretos, movimentando setores como transporte fluvial e rodoviário, comercialização em feiras e mercados, beneficiamento industrial e exportação. Para comunidades ribeirinhas e áreas periurbanas, o açaí funciona como principal fonte de renda e segurança alimentar.

Açaí para exportação: mais valor por tonelada

No comércio exterior, o protagonismo do Pará aparece na evolução dos derivados de açaí, como polpa congelada e concentrados. O valor exportado passou de US$ 334,2 mil, em 2002, para US$ 127,8 milhões em 2024.

Além do aumento do volume, houve valorização do preço médio da tonelada exportada, que subiu de US$ 1,1 mil para US$ 3,6 mil no período. Esse movimento indica diversificação de mercados, maior processamento industrial e inserção do açaí em segmentos de maior valor agregado, como alimentos funcionais e bebidas saudáveis.

Dados oficiais de comércio exterior podem ser consultados no Comex Stat, do governo federal, que consolida as estatísticas de exportação brasileiras.

Açaí como sumidouro de carbono na Amazônia

O estudo da Fapespa também destaca o papel ambiental do cultivo. Entre 2015 e 2024, a área reflorestada com açaí no Pará passou de 135 mil para 252 mil hectares. Com isso, o estado quase dobrou sua capacidade de captura de dióxido de carbono (CO2), chegando a cerca de 907 mil toneladas capturadas em 2024.

Na prática, os açaizais funcionam como sumidouros de carbono, contribuindo para mitigar emissões de gases de efeito estufa e para manter a floresta em pé, especialmente quando manejados em sistemas agroflorestais ou em áreas de várzea.

“O estudo demonstra a liderança nacional e internacional do açaí paraense e desvenda seu papel importante no equilíbrio climático como sumidouro de CO2. Com a expansão das lavouras de açaí plantado, o fruto gera riquezas, constitui uma grande cadeia produtiva que preserva a natureza e agora também gera créditos de carbono, além de ser um dos principais símbolos da cultura paraense”, avalia Márcio Ponte, diretor da Fapespa responsável pelo estudo.

O potencial de créditos de carbono abre uma nova frente de receita para produtores e cooperativas, desde que haja medição adequada, certificação e acesso a mercados regulados ou voluntários de carbono. Guias técnicos sobre restauração e serviços ambientais na Amazônia podem ser encontrados em publicações do centro Embrapa Amazônia Oriental.

Liderança tecnológica como condição para manter a hegemonia

Para a Fapespa, o desafio agora é transformar a liderança produtiva em liderança tecnológica. Isso inclui pesquisa em melhoramento genético, manejo sustentável, mecanização adaptada à realidade amazônica, rastreabilidade e inovação em processamento.

“Esses números mostram a grande potencialidade da cadeia produtiva do açaí para o Pará. Essa liderança traz a responsabilidade de manter e ampliar o nível tecnológico no cultivo, garantindo uma produção sustentável, economicamente viável e ecologicamente correta. Precisamos estar na liderança tecnológica para enfrentar a concorrência futura, e é nesse ponto que a Fapespa é fundamental, buscando parcerias com as universidades para implementar novas tecnologias no plantio e na pós-colheita”, destaca Marcel Botelho, presidente da Fapespa.

Na prática, isso significa investir em pesquisa aplicada, extensão rural e formação de mão de obra especializada, além de fortalecer parcerias com universidades e institutos de ciência e tecnologia. Experiências de inovação na Amazônia, como projetos de educação científica e soluções tecnológicas para a região, também ajudam a criar um ecossistema mais robusto para cadeias como a do açaí.

O que produtores e gestores podem fazer agora

  • Planejar o manejo de açaizais considerando produtividade, conservação do solo e da água e manutenção da biodiversidade.
  • Buscar assistência técnica e capacitação em instituições como Emater, Embrapa e universidades estaduais e federais.
  • Explorar certificações socioambientais e rastreabilidade para acessar mercados que pagam mais por produtos sustentáveis.
  • Acompanhar editais de fomento à inovação e pesquisa em órgãos como Fapespa e Finep.

Glossário

  • Cadeia produtiva: conjunto de etapas que vão da produção da matéria-prima ao produto final, incluindo colheita, transporte, beneficiamento, industrialização e distribuição.
  • Sumidouro de carbono: sistema natural ou manejado, como florestas e plantações perenes, que absorve mais dióxido de carbono (CO2) da atmosfera do que emite.
  • Créditos de carbono: unidades negociáveis que representam a redução ou remoção de uma quantidade específica de gases de efeito estufa, geradas por projetos que comprovam essa contribuição climática.

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