- O CNPq concederá a Marilene Corrêa o título de Pesquisadora Emérita 2026, em cerimônia no Rio de Janeiro em maio.
- A distinção reconhece mais de quatro décadas de pesquisa sobre Amazônia, pensamento social e políticas públicas na Ufam.
- O prêmio também sinaliza o alcance da ciência produzida na região Norte para o debate nacional e internacional.
O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) concederá à socióloga Marilene Corrêa o título de Pesquisadora Emérita, edição 2026. A cerimônia acontece no dia 7 de maio, no Rio de Janeiro. Professora titular da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e diretora da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ela é reconhecida como uma das principais referências do pensamento social sobre a Amazônia no Brasil.
A distinção existe desde 2005 e é concedida a pesquisadores brasileiros ou estrangeiros radicados no país há pelo menos dez anos, como reconhecimento ao renome na comunidade científica e à contribuição à ciência nacional.
“Representa recompensa pela escolha de vida e de foco, pelo qual tenho me empenhado em compreender e explicar criticamente a Amazônia e suas relações com o Brasil. Representa um incentivo aos novos pesquisadores e trabalhadores da ciência na região Norte e nas universidades da Amazônia, especialmente na Ufam onde trabalhei durante 43 anos no ensino de graduação e na pesquisa, no Departamento de Ciências Sociais. Mesmo aposentada, ainda trabalho em Programas de pós-graduação”, declarou.
De Carauari ao centro do debate científico nacional
Marilene Corrêa da Silva Freitas nasceu em 19 de agosto de 1950, em Carauari, no Amazonas. Formou-se em Serviço Social pela Ufam em 1975 e ingressou como professora da instituição em 1979, quando as Ciências Sociais ainda estavam diluídas num curso de Estudos Sociais, sob os constrangimentos da ditadura militar. Com a criação do Curso de Ciências Sociais na Ufam, em 1987, integrou-se ao novo departamento.
Concluiu o mestrado em Sociologia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1989 e o doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 1997. Realizou pós-doutorado na Université de Caen e na Unesco entre 2001 e 2002, e um segundo pós-doutoramento na Université Gustave Eiffel entre 2021 e 2022.

Pesquisadora Emérita com trajetória entre academia e gestão pública
Além da pesquisa, Marilene Corrêa acumulou cargos de gestão científica e pública ao longo da carreira. Foi Secretária de Ciência e Tecnologia do Amazonas entre 2003 e 2007, reitora da Universidade do Estado do Amazonas entre maio de 2007 e março de 2010, e presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Integrou o Conselho Nacional do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), o Conselho Superior da Fundação Oswaldo Cruz e o Conselho Editorial do jornal Ciência Hoje, publicação da SBPC.
Atualmente, é membro da Diretoria da SBPC para o período 2025-2027 e integra o Conselho de Desenvolvimento Social e Sustentável da Presidência da República desde 2024. Permanece vinculada à Ufam como docente no Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA).
Uma obra sobre a Amazônia além do exotismo
Marilene publicou mais de 25 livros, mais de cem artigos e capítulos de livros, orientou mais de quarenta dissertações de mestrado e dezoito teses de doutorado. Duas obras se destacam como referências consolidadas para quem estuda a região.
Em O Paiz do Amazonas, resultante de sua dissertação de mestrado com orientação do sociólogo Octavio Ianni, ela reconstrói a Amazônia como processo histórico: da ocupação indígena à formação colonial portuguesa, passando pela Cabanagem e pela integração ao Estado nacional. A análise recusa os determinismos que costumam reduzir a região a especificidades exóticas.
Em Metamorfoses da Amazônia, tese de doutoramento, o foco se volta para a inserção da região na dinâmica da globalização. A Zona Franca de Manaus, a questão indígena, o ecossistema e a agroindústria são tratados como expressões de uma dialética entre região, nação e mundo, dentro da lógica do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo.
Nas duas obras, a Amazônia deixa de ser cenário e passa a ser sujeito histórico. Singularidades são analisadas sem serem transformadas em caricaturas, e o local é lido à luz de estruturas e relações que operam em escala global.
Glossário
- CNPq: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, agência federal de fomento à pesquisa científica no Brasil.
- SBPC: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, entidade que reúne pesquisadores e instituições científicas do país.
- PPGSCA: Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas.
- FNMA: Fundo Nacional do Meio Ambiente, mecanismo federal de financiamento de projetos ambientais.
- Ufam: Universidade Federal do Amazonas.
- UEA: Universidade do Estado do Amazonas.