- O projeto Amazônia Revelada, em parceria com o Museu da Amazônia (Musa), anuncia sobrevoos com tecnologia LiDAR na região da BR-319, rodovia amazônica no centro de um debate ambiental no Brasil.
- Na primeira fase, o projeto escaneou 1,6 mil km² de floresta e localizou sítios arqueológicos com aldeias, geoglifos e até os restos de uma vila colonial portuguesa do século 18 encoberta pela vegetação.
- Registrar sítios como patrimônio arqueológico protege as áreas por lei, adicionando uma camada de contenção ao desmatamento em regiões ameaçadas.
O projeto Amazônia Revelada anunciou que realizará sobrevoos de mapeamento arqueológico na região da BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho e está no centro de um dos debates socioambientais mais acalorados do país. O anúncio foi feito em vídeo divulgado pelo Instagram do projeto nesta semana, com participação da arqueóloga Dra. Cristiana Barreto, do Museu Paraense Emílio Goeldi.
A ferramenta usada nos sobrevoos é o LiDAR, sigla em inglês para detecção de luz e alcance. O sensor é acoplado a um avião e emite feixes de laser sobre a copa das árvores. Os pulsos atravessam a vegetação, atingem o solo e retornam ao equipamento, permitindo gerar um modelo digital tridimensional do terreno mesmo sem qualquer intervenção física na floresta.
“Essa ferramenta está sendo possível visualizar intervenções humanas na paisagem muito antigas, como aldeias, valas, aterros, tesos, plataformas e até construções mais recentes, como construções coloniais”, disse Barreto no vídeo.
O que o projeto já encontrou
Iniciado em 2024, o Amazônia Revelada já escaneou cerca de 1,6 mil km² de floresta, área equivalente à da cidade de São Paulo. Os sobrevoos cobriram partes do Acre, sul do Amazonas, Rondônia, Pará, a região entre os rios Xingu e Tapajós e a ilha de Marajó.
Os resultados incluem a identificação de sítios com geoglifos, estruturas geométricas triangulares e circulares associadas a estradas, e manchas de terra preta, o solo modificado por indígenas que viveram na floresta há milhares de anos. Uma das descobertas de maior repercussão foi a localização da cidade colonial portuguesa de Lamego, em Rondônia, encoberta pela vegetação há mais de dois séculos. O LiDAR revelou o traçado de ruas, muros de pedra e fundações retangulares que coincidiam com mapas portugueses e espanhóis do século 18.
Perto dos vestígios coloniais, os pesquisadores identificaram geoglifos e valas associados a uma ocupação muito mais antiga, com cerâmica indígena datada entre 1.200 e 2.000 anos. “Eu passava por lá e não percebia a vila”, disse o arqueólogo Carlos Augusto Zimpel, da Universidade Federal de Rondônia, em entrevista à Revista Pesquisa Fapesp.
O projeto também encontrou uma muralha de pedra e estruturas de alvenaria na Serra da Muralha, em Rondônia, área ameaçada pelo garimpo ilegal. Além disso, os sobrevoos indicaram que estruturas geométricas antigas avançam muito mais ao norte do que se imaginava, sugerindo que sociedades complexas ocupavam regiões que nunca foram consideradas prioridade arqueológica.
A lógica por trás dos sobrevoos
O projeto é coordenado pelo arqueólogo Eduardo Neves, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), com financiamento da National Geographic Society e apoio de outras instituições. A equipe é multidisciplinar e inclui pesquisadores locais, pertencentes aos próprios povos indígenas e tradicionais que vivem nos territórios estudados.
Antes de qualquer sobrevoo, os povos da floresta são consultados sobre a autorização para mapear seus territórios. Os dados coletados pertencem às comunidades, que decidem o nível de acesso concedido aos pesquisadores. Alguns grupos, como os Kuikuro do Alto Xingu, optaram por conduzir o próprio mapeamento, com drone equipado com LiDAR pilotado por um técnico da própria etnia.
A estratégia tem um propósito que vai além da arqueologia. No Brasil, a Lei 3924/1961, conhecida como Lei de Arqueologia, protege sítios arqueológicos e seus entornos como patrimônio cultural. Registrar esses locais transforma a floresta em território legalmente protegido. “Estamos conseguindo demonstrar que essas estruturas geométricas vão muito mais ao norte do que se pensava”, afirmou Neves. Para ele, a Amazônia deve ser compreendida não apenas como patrimônio natural, mas como patrimônio biocultural, resultado de pelo menos 13 mil anos de interação humana com o ambiente.
Por que a BR-319 é estratégica
A rodovia que liga Manaus a Porto Velho tem 885 quilômetros e atravessa uma das porções mais preservadas da Amazônia. Cerca de 400 quilômetros do chamado “trecho do meio” seguem sem pavimentação desde os anos 1980. O governo federal trata a obra como prioritária, mas ela enfrenta disputas judiciais e uma longa batalha no licenciamento ambiental.
O debate ganhou novo capítulo com a aprovação da Lei 15.190/2025, que criou a Licença Ambiental Especial e pode simplificar o processo para obras em infraestrutura preexistente, como é o caso da BR-319. O ministro dos Transportes, Renan Filho, disse estudar esse caminho para obter a licença ainda em 2026. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tem resistido, defendendo avaliações de impacto mais rigorosas antes de qualquer avanço.

A pressão sobre a região já produz efeitos mensuráveis. Levantamento do ((o))eco aponta que a mera expectativa de pavimentação anunciada entre 2020 e 2022 aumentou em 122% o desmatamento no entorno da rodovia. Pesquisadores da UFMG projetam que a pavimentação completa poderia quadruplicar o desmatamento ao longo de três décadas, colocando em risco 40 unidades de conservação, 6 milhões de hectares de terras públicas e 50 terras indígenas.
É nesse contexto que o anúncio do Amazônia Revelada ganha peso. Mapear o patrimônio arqueológico da região antes que as obras avancem pode criar um obstáculo legal adicional ao desmatamento. Sítios registrados e tombados passam a ter proteção jurídica que independe das disputas em torno do licenciamento da rodovia.
Os voos da segunda fase do projeto, que cobrirá uma extensão muito maior do que a primeira, devem começar em abril, segundo informações da página oficial do Amazônia Revelada.
Glossário
- LiDAR: Sigla em inglês para Light Detection and Ranging. Tecnologia de sensoriamento remoto que emite pulsos de laser para mapear o relevo do terreno, mesmo sob densa vegetação.
- Geoglifos: Figuras geométricas de grandes dimensões formadas por valas ou montículos no solo, construídas por povos pré-colombianos.
- Terra preta: Solo escuro e rico em nutrientes encontrado na Amazônia, resultado da ação humana ao longo de séculos, com deposição de matéria orgânica, carvão e cerâmica.
- Patrimônio biocultural: Conceito que reconhece a interação histórica entre populações humanas e o ambiente natural como parte integrante do patrimônio a ser preservado.
- LAE: Licença Ambiental Especial, modalidade criada pela Lei 15.190/2025 que agiliza o processo de licenciamento para obras de infraestrutura consideradas estratégicas pelo governo federal.