Pesquisadora Leilane Brito da UFPA – Fotos: Divulgação/UFPA
  • Leilane Brito, doutoranda da UFPA, usa genética para identificar fraudes em peixes vendidos em supermercados e restaurantes do Pará.
  • A fraude alimentar na indústria pesqueira pode causar alergias graves, danos à saúde pública e prejuízos ao consumidor.
  • A pesquisadora propõe selos de autenticidade baseados em marcadores de DNA para certificar peixes comerciais no Norte do Brasil.
  • Leilane ganhou o Prêmio Jovem Cientista do IECOS e publicou em revistas científicas internacionais como Neotropical Ichthyology e PeerJ.
  • Além da pesquisa, ela defende a representatividade feminina na ciência e quer inspirar jovens estudantes.

Uma pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Biologia Ambiental (PPBA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), Campus Bragança, está utilizando a genética forense para investigar fraudes na cadeia do pescado vendido em supermercados e restaurantes paraenses. Leilane Brito coleta peixes processados, analisa regiões específicas do DNA das amostras e identifica se o produto no prato é realmente o que está escrito no rótulo.

A prática, conhecida como adulteração ou substituição de espécies, é mais comum do que parece. Um filé anunciado como dourada pode, na verdade, ser de outra espécie de aparência semelhante, com implicações que vão de reações alérgicas graves até danos ambientais associados à pesca de espécies ameaçadas de extinção.

O que é fraude alimentar no pescado

Para entender o problema, imagine um sábado típico no Pará: açaí e peixe frito na mesa, toda a família reunida. Você aproveitou uma promoção de filé de dourada no mercado. Durante o almoço, um sobrinho começa a sufocar. Na UPA, o diagnóstico é de crise alérgica grave. O detalhe: ele não é alérgico à dourada. O bagre dourado é, inclusive, o peixe favorito dele.

A explicação, segundo Leilane, é direta: a família foi vítima de fraude alimentar. O produto rotulado como dourada era, na realidade, outra espécie, essa sim capaz de desencadear a reação alérgica.

“Quando um produto é rotulado com o nome de um peixe, mas é substituído por outro que pode conter substâncias que causam alergias ou que são tóxicas ao consumidor, isso representa um sério risco à saúde pública.”

Além do risco à saúde, a pesquisadora destaca que a fraude gera danos econômicos diretos ao consumidor, já que, na maioria dos casos, espécies mais caras são trocadas por outras mais baratas, gerando lucro para empresas à custa de quem paga pelo produto original.

Genética como ferramenta de fiscalização

No Laboratório de Microbiologia do Pescado, localizado no IECOS (Instituto de Estudos Costeiros da UFPA), Leilane e sua equipe analisam regiões do DNA capazes de identificar com precisão a espécie de cada amostra coletada. O material vem de supermercados e restaurantes de diferentes cidades do Pará, onde os peixes já chegam processados, sem escamas, sem cabeça e sem as características visuais que permitiriam uma identificação a olho nu.

Essa é exatamente a brecha explorada pela fraude: após o processamento industrial, praticamente nenhum consumidor consegue distinguir espécies apenas pela aparência do filé. A análise genética preenche esse vazio com precisão científica.

O objetivo de longo prazo da pesquisa é desenvolver tecnologias aplicáveis diretamente ao mercado. “Soluções como selos de autenticidade baseados em marcadores de DNA, para a autenticação e certificação de peixes de importância comercial no Norte do Brasil”, explica a pesquisadora.

Leilane ganhou o prêmio jovem cientista do IECOS, voltado a reconhecer talentos em pesquisa e conservação de ecossistemas costeiros amazônicos.

Impacto ambiental e conservação de espécies

A fraude alimentar no setor pesqueiro também compromete diretamente a conservação da biodiversidade amazônica. Quando espécies ameaçadas de extinção são comercializadas sob outro nome, o rastreamento e a fiscalização tornam-se muito mais difíceis, prejudicando a elaboração de políticas públicas eficientes.

“A troca de espécies dificulta a elaboração de políticas públicas eficientes para a conservação das espécies vulneráveis”, alerta Leilane. Sem dados confiáveis sobre o que realmente está sendo pescado e vendido, órgãos ambientais perdem capacidade de monitorar estoques e aplicar medidas de proteção.

A lista de espécies ameaçadas do ICMBio inclui diversas espécies de peixes encontradas na região Norte, o que torna a fiscalização genética ainda mais estratégica para a conservação dos ecossistemas costeiros amazônicos.

Prêmio Jovem Cientista e publicações internacionais

Os resultados preliminares da tese de doutorado de Leilane já foram reconhecidos dentro e fora do Brasil. Ela recebeu o Prêmio Jovem Cientista do IECOS, voltado a reconhecer talentos em pesquisa e conservação de ecossistemas costeiros amazônicos, e publicou trabalhos em revistas científicas internacionais de renome, como a Neotropical Ichthyology e a PeerJ.

“Receber o prêmio foi gratificante, pois simboliza o reconhecimento de um longo trabalho de pesquisa. Antes de ingressar na universidade, o mundo da pesquisa sempre me pareceu muito distante.”

A trajetória de Leilane começou ainda no ensino médio, quando a paixão por genética e ciências naturais começou a tomar forma. Na graduação em Ciências Naturais na UFPA, ela estagiou em diferentes laboratórios e participou de coletas de campo até encontrar a área com a qual mais se identificou: a genética forense aplicada ao pescado.

Representatividade feminina na ciência

Em paralelo à pesquisa, Leilane também planeja atuar como professora de Ciências Naturais no Ensino Fundamental. Para ela, ocupar um papel de destaque na ciência vai além da carreira individual: é um ato de representatividade com impacto coletivo.

“Quando as mulheres assumem espaços, elas ajudam a construir um cenário de representatividade na ciência, despertando o interesse de jovens estudantes que almejam ocupar diferentes espaços na sociedade.”

A pesquisadora também aponta que a presença feminina na ciência contribui para ampliar os temas investigados. “Ser pesquisadora e estar em papel de destaque quebra barreiras de desigualdade de gênero, estimula a permanência e o avanço de outras mulheres e chama a atenção para outros temas anteriormente não percebidos pelo sexo oposto”, conclui.

Glossário

  • Genética forense do pescado: Uso de análises de DNA para identificar espécies de peixes em contextos legais, comerciais ou de fiscalização.
  • Marcadores de DNA: Sequências específicas do material genético usadas para identificar e distinguir espécies com precisão.
  • PPBA: Programa de Pós-Graduação em Biologia Ambiental da Universidade Federal do Pará.
  • IECOS: Instituto de Estudos Costeiros, unidade da UFPA localizada no Campus Bragança, no nordeste paraense.
  • Pirâmide invertida: Estrutura jornalística que apresenta a informação mais importante primeiro, seguida de detalhes e contexto.

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