• Estudo internacional publicado na Nature Ecology & Evolution, com participação do Inpa, revela que mudanças climáticas já alteram a diversidade de árvores na Amazônia e nos Andes após 40 anos de monitoramento em 406 parcelas florestais
  • Pesquisadores do Inpa Flávia Costa, Carolina Castilho, Juliana Schietti, José Luis Camargo e Philip Fearnside assinam trabalho que mostra declínio de até 3,3% na riqueza de espécies em regiões mais quentes e secas
  • Florestas dos Andes do Norte e da Amazônia Ocidental ganharam espécies, enquanto Andes Centrais, Escudo das Guianas e Amazônia Centro-Oriental perderam diversidade arbórea

As mudanças climáticas já estão transformando a diversidade de espécies arbóreas nas florestas tropicais da Amazônia e dos Andes. Um estudo internacional publicado na revista Nature Ecology & Evolution, com participação de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), monitora essas transformações há quatro décadas.

A pesquisa analisou 406 parcelas florestais permanentes em 10 países sul-americanos. O monitoramento começou em 1971 e se estendeu até 2021.

Parcelas florestais permanentes são áreas delimitadas onde todos os indivíduos arbóreos com diâmetro acima de 10 cm são marcados, identificados e monitorados ao longo do tempo. No estudo, as parcelas variaram de 0,25 a 3 hectares, com tamanho médio de 1,04 hectare. Essas áreas foram visitadas periodicamente pelos pesquisadores para registrar crescimento, mortalidade e recrutamento de novas árvores.

Pesquisadores do Inpa assinam descoberta global

O trabalho conta com mais de 160 pesquisadores de 20 países. Do Inpa, assinam o estudo a ecóloga Flávia Costa, além de Carolina Castilho, Juliana Schietti, José Luis Camargo e Philip Fearnside.

“Este estudo evidencia que os impactos das mudanças climáticas sobre a diversidade de árvores não são homogêneos nas florestas tropicais”, destaca Flávia Costa. Segundo a pesquisadora, isso reforça a necessidade de monitoramento contínuo.

Regiões apresentam mudanças opostas na riqueza de espécies

Em escala continental, a riqueza de espécies aparenta estabilidade. Porém, esse resultado mascara variações regionais dramáticas.

As florestas dos Andes do Norte e da Amazônia Ocidental registraram aumento de espécies. Já os Andes Centrais, o Escudo das Guianas e a Amazônia Centro-Oriental sofreram declínios significativos.

Em algumas regiões extensas, a diversidade caiu até 3,3% em relação ao número anterior. Em outras, aumentou até 1,95%.

Florestas mais quentes e secas perdem mais espécies

Florestas mais quentes, secas e sazonais perderam espécies. Aquelas com temperaturas crescentes e maior sazonalidade também sofreram perdas.

Mais de 90% das parcelas (368 de 406) experimentaram aquecimento. A taxa média foi de 0,028°C por ano.

Florestas em áreas mais elevadas, menos fragmentadas e com maior rotatividade de árvores ganharam espécies. A integridade da paisagem foi determinante para a manutenção da diversidade.

Como temperatura e precipitação afetam a floresta

A temperatura é fator crucial nas mudanças dos Andes. Nas florestas amazônicas, a precipitação exerce papel mais importante.

A sazonalidade de precipitação aumentou em 88% das parcelas monitoradas. Já a precipitação anual caiu em 39% das áreas.

Florestas com maior número de indivíduos e cercadas por áreas florestais contínuas tenderam a ganhar espécies. Por outro lado, áreas fragmentadas sofreram perdas mais acentuadas.

Termofillização e atrito biótico explicam mudanças

Os Andes do Norte vivem processo de termofillização. Espécies de áreas mais baixas migram para altitudes maiores buscando temperaturas adequadas.

Nas regiões mais baixas da Amazônia, ocorre atrito biótico — perda líquida de espécies. Não há espécies de áreas ainda mais quentes para ocupar novos nichos térmicos.

Florestas úmidas e menos sazonais da Amazônia Ocidental mostraram-se mais resilientes. Aquelas mais secas e sazonais do leste sofreram mais perdas.

Andes do Norte como refúgio para espécies ameaçadas

Os Andes do Norte podem servir como importante refúgio climático. Espécies deslocadas pelas mudanças climáticas encontram condições adequadas nessas áreas.

O corredor Amazônia Ocidental-Andes do Norte é prioritário para conservação. Oferece caminho viável para deslocamento de espécies que buscam sobreviver às mudanças.

A integridade da paisagem apoiou a sobrevivência de árvores em todas as regiões. Isso aumenta a abundância de indivíduos e, consequentemente, impacta positivamente a riqueza de espécies.

Impactos para a Amazônia

A pesquisa reforça a importância de estratégias de conservação adaptadas às realidades regionais. Os resultados evidenciam que os impactos não são homogêneos nas florestas tropicais.

A preservação da abundância de árvores está diretamente ligada à preservação da diversidade. Mudanças no uso da terra reduzem indiscriminadamente ambos.

Os pesquisadores do Inpa e parceiros pretendem continuar as análises. O objetivo é aprofundar o entendimento sobre quais espécies estão sendo perdidas ou recrutadas. A expectativa é avaliar se há processo de homogeneização da flora em larga escala.

Artigo na íntegra

Glossário

  • Termofillização: Processo pelo qual florestas em altitudes mais elevadas incorporam novas espécies de altitudes menores que expandem suas faixas de distribuição para cima, buscando temperaturas adequadas.
  • Atrito biótico: Perda líquida de espécies em uma área, sem que haja espécies de outras regiões capazes de migrar e ocupar os novos nichos térmicos criados pelas mudanças climáticas.
  • Riqueza de espécies: Número total de espécies diferentes presentes em uma determinada área ou comunidade ecológica.
  • Sazonalidade de precipitação: Variação da distribuição das chuvas ao longo do ano, medida pelo coeficiente de variação da precipitação mensal.
  • Integridade da paisagem: Porcentagem de área coberta por árvores em um raio de 50 km ao redor de cada parcela, indicando o grau de fragmentação ou conservação florestal.

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