Recentemente, eu li dois artigos sobre o uso da Inteligência Artificial e o jornalismo. Em um deles, o professor Rodrigo Tavares, da Nova Escola de Negócios e Economia de Portugal, perguntava se a profissão de jornalista resistiria à evolução da IA. Em outro, o também professor Sérgio Quintanilha, da Escola de Comunicação e Artes da USP, lembrou-nos da aversão que muitos jornalistas têm em deixar a IA produzir seus textos.
A verdade, é que a Inteligência Artificial é a nova onda disruptiva, ou seja, aquela transformação que veio para mudar o mundo como conhecemos, inclusive no jornalismo. E quem não souber utilizá-la, infelizmente, corre o risco de entrar para as previsões do Fórum Econômico Mundial, que antecipou a extinção de mais de 90 milhões de profissões até 2030. Entre elas, algumas funções ocupadas por jornalistas, que serão substituídas por IA ou por profissionais que dominam essa nova tecnologia.
Mas essa não é a primeira vez que a profissão é ameaçada. Basta lembrar que, em 2009, o Supremo Tribunal Federal aboliu a exigência do diploma para o exercício profissional. Já em 2020, durante a pandemia de Covid-19, o jornalismo foi duramente atacado pelo negacionismo e pelos movimentos anticiência, alimentados por uma enxurrada de notícias falsas criadas por falsos jornalistas. Agora, imagine se naquela época a Inteligência Artificial já estivesse disseminada como hoje.
Vamos, no entanto, olhar o lado bom dessa tecnologia, que vem evoluindo desde 1955, quando o matemático John McCarthy lançou o conceito de Inteligência Artificial. Hoje, 70 anos depois, a IA nos permite fazer coisas impensáveis até 10 anos atrás.
No jornalismo profissional, especificamente, o uso da IA possibilita uma melhora significativa na qualidade e na profundidade da produção editorial. Mas, infelizmente, muitos colegas ainda rejeitam o uso dessa tecnologia, principalmente quando o assunto é a produção de texto, considerada por muitos jornalistas como um ato sublime, quase espiritual, que jamais poderia ser relegado à Inteligência Artificial, como destacou o professor Sérgio Quintanilha, da USP, no artigo “Jornalistas começam a perder o medo das inteligências artificiais”.
O professor, apesar de apontar essa visão de uma parcela dos jornalistas brasileiros, também destaca que o uso da IA vem para facilitar o processo jornalístico. Já é hora de “deixar a hipocrisia de lado e olhar para as IAs com uma visão contemporânea”, diz ele.
Estamos em 2025, e Cronos, o deus do tempo, parece passar mais rápido hoje do que anos atrás. Se há 10 anos o timing de fechamento de uma reportagem era frenético, agora é pior. Atualmente, não podemos nos dar ao luxo de passar dias lendo 500 páginas de uma investigação para depois tentar cruzar essas informações com centenas de dados de planilhas e outros documentos, e ainda investir horas para estruturar o texto e escrever a matéria.
Com a IA, isso pode ser feito em segundos e com qualidade textual e editorial: título, lead, linha fina, subtítulos e todos os metadados de SEO, como palavra-chave e meta descrição, que a maioria dos jornalistas nem sabe para onde vai. O trabalho do jornalista aqui, além do que já apurou, é revisar e liberar para publicação.
Essa forma de produção jornalística é classificada pelo professor Rodrigo Tavares, da Nova Escola de Negócios e Economia de Portugal, como de Nível 3, numa escala de quatro níveis criada por ele.
No Nível 1, estão os jornalistas que ignoram a IA. No Nível 2, estão 81% dos profissionais brasileiros, segundo levantamento feito este ano pela Fundação Thomson Reuters. Neste nível, a IA é utilizada para corrigir gramática, verificar fatos, transcrever entrevistas de áudio, traduzir, entre outros usos básicos.
Depois, vemos o Nível 3, em que a Inteligência Artificial se torna parceira de trabalho, usada para sugerir títulos, criar leads, redigir a partir de apuração, encontrar padrões em bases de dados, produzir imagens e até simular perguntas para entrevistas — mas sempre sob o crivo do profissional. Neste patamar, temos grandes veículos como o New York Times, El País e a Agência Reuters, que usam ferramentas específicas para isso.
No Nível 4, a IA deixa de ser parceira e assume o comando, ficando o jornalista apenas como supervisor do processo automatizado. A máquina investiga, redige, edita, ilustra e distribui. O humano intervém apenas para ajustes pontuais ou para validar a publicação. Neste nível, já temos agências como a EFE, a Associated Press e a ESPN produzindo conteúdos de baixa complexidade, como notícias meteorológicas, resumos esportivos e programação cultural. Há também veículos como o jornal italiano Il Foglio, que em março deste ano produziu uma edição exclusivamente com ferramentas de Inteligência Artificial.
Diante de tudo isso, vem a pergunta: Qual é o futuro do jornalista em meio à Inteligência Artificial?
Minha resposta simples e direta é: ser protagonista dessa nova revolução.
Se, sem IA, os bons jornalistas já davam furos homéricos, agora o céu é o limite.
*OBS: texto usou o Nível 2 de uso da IA, afinal, ela é melhor em revisão ortográfica do que eu 🙂