• Palestra no Inpa discute como a arqueologia pode proteger a Amazônia.
  • Eduardo Góes Neves apresenta pesquisas sobre ocupação humana da floresta.
  • Projeto Amazônia Revelada usa LIDAR para mapear sítios arqueológicos.
  • Arqueologia na Amazônia reforça visão da floresta como paisagem biocultural.

A arqueologia na Amazônia será tema da primeira edição de 2026 dos Seminários da Amazônia do Inpa. O arqueólogo Eduardo Góes Neves, professor titular e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), ministra nesta quarta-feira (4), às 14h, no Centro de Convivência do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, a palestra “O que a arqueologia pode fazer para proteger a Amazônia?”, em que apresenta evidências científicas sobre o papel da ocupação humana na formação da floresta.

Referência internacional em arqueologia na Amazônia, Neves é docente de graduação e pós-graduação da USP, pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios (Cesta), coordenador do Laboratório de Arqueologia dos Trópicos do Museu de Arqueologia e Etnologia e do grupo de pesquisa Ecologia Histórica dos Neotrópicos. Bolsista de produtividade 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ele reúne cerca de 130 publicações entre livros, artigos, capítulos e textos de divulgação científica.

Arqueologia revela história da ocupação humana na Amazônia

As pesquisas conduzidas por Eduardo Neves e sua equipe ajudam a reconstituir a história da ocupação humana da Amazônia por povos da floresta, mostrando que a região foi intensamente manejada muito antes da invasão europeia. Esses estudos dialogam com uma mudança de paradigma na ciência: a floresta amazônica não seria apenas um ambiente “intocado”, mas uma paisagem moldada por interações milenares entre sociedades humanas e biodiversidade.

Para o diretor do Inpa, Henrique Pereira, a presença de Neves nos Seminários da Amazônia simboliza um encontro entre as ciências da natureza e a arqueologia. Ele lembra que o instituto tem defendido a tese de que a floresta amazônica é resultado de produção cultural, uma paisagem biocultural construída ao longo de milhares de anos.

“Nós vimos, nos últimos anos, defendendo a tese de que a floresta amazônica é resultado da produção cultural, ou seja, uma paisagem biocultural. E os trabalhos do professor Neves, em arqueologia, trazem evidências do papel das populações do passado na moldagem dessa paisagem”, destacou o diretor do Inpa.

Essa perspectiva é compartilhada por pesquisas recentes em ecologia histórica e arqueologia da paisagem, que apontam, por exemplo, para o papel de povos indígenas na formação de solos férteis conhecidos como terra preta de índio, na domesticação de espécies florestais e na construção de redes de ocupação complexas na bacia amazônica.

Uso de LIDAR para mapear sítios arqueológicos na floresta

No Projeto Amazônia Revelada, Eduardo Neves aplica tecnologia de sensoriamento remoto LIDAR (Light Detection and Ranging) para localizar possíveis sítios arqueológicos em áreas de floresta densa, sem necessidade de desmatamento ou escavações iniciais. O método utiliza pulsos de laser emitidos a partir de aeronaves ou drones para gerar modelos tridimensionais de alta resolução do relevo, permitindo identificar estruturas ocultas pela vegetação.

Segundo o diretor do Inpa, o uso de LIDAR tem levado à descoberta de novos sítios arqueológicos em terrenos baixos da Amazônia, em quantidade compatível – embora não prevista inicialmente – com hipóteses da antropologia cultural sobre a densidade populacional pré-colonial na região. Esses achados reforçam a ideia de que vastas áreas da floresta foram ocupadas por sociedades complexas antes da chegada dos europeus.

Estudos semelhantes, realizados em outras partes da Amazônia brasileira e em países vizinhos, já haviam revelado geoglifos, aldeias planejadas e redes de caminhos antigos. A tecnologia LIDAR vem se consolidando como ferramenta central para a arqueologia tropical, como mostram trabalhos publicados em revistas como a Nature e a Science, que destacam o potencial do método para reescrever a história da ocupação humana em florestas tropicais.

Ciência, conservação e políticas para a Amazônia

Ao mostrar que a floresta amazônica é também um produto de práticas culturais, a arqueologia na Amazônia contribui para debates atuais sobre conservação, mudanças climáticas e direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais. Evidências de longa ocupação humana reforçam a importância de integrar conhecimento arqueológico, ecológico e social na formulação de políticas públicas para a região.

Para a comunidade científica do Inpa, a palestra de Neves é oportunidade de aprofundar esse diálogo entre ciências naturais e humanas, aproximando pesquisas de arqueologia, ecologia, climatologia e antropologia. A expectativa é que os resultados de projetos como o Amazônia Revelada ajudem a orientar estratégias de proteção da floresta que considerem a dimensão histórica da paisagem e o papel das populações locais.

Seminários da Amazônia: espaço de debate científico

Os Seminários da Amazônia são uma iniciativa do Inpa que reúne pesquisadores, estudantes de pós-graduação e interessados para discutir temas ligados à ciência, ao meio ambiente e à sociedade. As sessões ordinárias costumam ocorrer duas vezes por mês, às quintas-feiras, às 16h, no Centro de Convivência do instituto, em Manaus.

Ao longo do ano, o ciclo de seminários aborda desde pesquisas de ponta em biodiversidade, mudanças climáticas e recursos hídricos até temas de inovação tecnológica e políticas públicas para a região amazônica. A presença de especialistas como Eduardo Góes Neves reforça o caráter interdisciplinar da programação e amplia o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento.

Glossário

  • Arqueologia na Amazônia: Campo de pesquisa que investiga vestígios materiais de sociedades humanas que ocuparam a região amazônica ao longo de milhares de anos.
  • LIDAR (Light Detection and Ranging): Tecnologia de sensoriamento remoto que usa pulsos de laser para mapear com alta precisão o relevo e estruturas na superfície terrestre, mesmo sob densa cobertura vegetal.
  • Ecologia histórica: Área interdisciplinar que estuda como interações entre sociedades humanas e ambientes ao longo do tempo moldam paisagens e ecossistemas.
  • Paisagem biocultural: Conceito que descreve ambientes resultantes da interação entre processos ecológicos e práticas culturais de populações humanas.

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