- A Finep registrou aumento de 185% no valor de contratações no Amazonas entre 2023 e 2025, comparado ao período 2019-2022.
- São 13 editais abertos em 2026 para empresas, com R$ 3,3 bilhões em recursos não reembolsáveis, incluindo edital específico para Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
- Pesquisadores, empreendedores e a Ufam avaliam que o investimento em ciência, tecnologia e inovação na Amazônia vive seu momento mais promissor.
O Amazonas recebeu, entre 2023 e 2025, um volume de recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) 185% maior do que o contratado entre 2019 e 2022. O dado foi apresentado nesta quarta-feira, 4 de março, em Manaus, durante evento da agência de fomento federal, e ilustra uma virada no padrão histórico de distribuição de recursos científicos e tecnológicos no país, que sempre privilegiou Sul e Sudeste.
“O nome é amadurecimento”, disse Rodrigo de Lima, gerente do Departamento Regional Norte da Finep. Para ele, o crescimento quase triplicado do valor investido no estado reflete uma demanda real que, aos poucos, passou a ser atendida. “A gente quer estimular que esse crescimento através da inovação se torne perene, se torne contínuo.”
R$ 3,3 bilhões em editais abertos para empresas
Para 2026, a Finep mantém 13 editais abertos para empresas, com R$ 3,3 bilhões em recursos não reembolsáveis. Entre eles, há um edital regional exclusivo para Norte, Nordeste e Centro-Oeste, desenhado justamente para compensar a assimetria histórica de financiamento. Rodrigo de Lima destacou também o programa Conexão Finep, que financia a contratação de pesquisadores por empresas e indústrias, aproximando a produção científica do mercado.

Há ainda linhas para universidades modernizarem equipamentos e centros de pesquisa e desenvolvimento, além de crédito para empresas que precisam atualizar suas plantas industriais. A combinação de instrumentos busca cobrir diferentes estágios do ecossistema de inovação, do laboratório à escala produtiva.
A visão da universidade: recurso que chega ao pesquisador
A reitora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Tanara Lauschner, foi direta sobre o que separa a intenção da pesquisa do resultado: “A gente não consegue fazer ciência, não consegue fazer pesquisa, não consegue fazer inovação sem recurso. Você não consegue fazer só com a boa vontade do pesquisador.”
Lauschner chamou atenção para uma camada muitas vezes ignorada no debate sobre assimetrias regionais: a diferença dentro do próprio estado. A Ufam tem campus em Manaus e mais cinco unidades no interior do Amazonas, onde a infraestrutura de pesquisa é historicamente mais precária. Ela destacou que a Finep lançou, neste ano, a segunda edição de um edital dentro do programa Pro-Amazônia, que dá pontuação diferenciada a projetos desenvolvidos fora da capital. “A realidade de pesquisa do interior do estado é diferente do da capital”, afirmou.

Sobre o ritmo dos avanços, a reitora foi cautelosa. “A gente tem ondas. Teve momentos que nós tivemos mais recurso, teve momentos que nós tivemos menos.” Para ela, a questão central agora é transformar o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) em um fundo financeiro estável, desvinculado do orçamento anual, com capacidade de se autoalimentar pelo retorno dos recursos reembolsáveis.
Empreendedor vê janela histórica para a Amazônia
Expedito Fernandes Belmont, empreendedor com trajetória no ecossistema de inovação do Norte, fundou o primeiro podcast de inovação da região, liderou a primeira empresa nortista aprovada no Shark Tank Brasil com dois investidores simultâneos e criou a primeira startup local a receber aporte da aceleradora Darwin Startups, eleita melhor do Brasil por quatro anos seguidos.
Para ele, o momento atual não tem precedente. “Em nenhum momento da história as oportunidades para a gente fincar nossa bandeira no mundo do empreendedorismo, com soluções que são da Amazônia para o mundo, foram tão grandes quanto agora.” Belmont defende que o capital humano da região é “muito fora da curva” e que os editais da Finep funcionam como portas para que esse talento se torne visível ao restante do país.
Na prática, ele coordena o projeto Rope Green, descrito como a maior iniciativa de ESG da América Latina, que une ciência aplicada, conhecimento tradicional e parceria público-privada. A iniciativa é também a primeira Cooperativa de Produção e Serviços Inovadores (CPSI) do estado do Amazonas.

A combinação entre bioeconomia, biotecnologia e conhecimento indígena e tradicional é vista por Belmont como o eixo que pode, de fato, reduzir a dependência econômica da região em relação ao Polo Industrial de Manaus. “A pesquisa aplicada é o caminho que várias nações líderes globais fazem. A gente está basicamente seguindo aquilo que o resto do mundo faz.”
Glossário
- Finep: Financiadora de Estudos e Projetos, agência federal vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, responsável por financiar a inovação no Brasil.
- FNDCT: Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, principal instrumento federal de financiamento à ciência e tecnologia.
- P&D: Pesquisa e Desenvolvimento, área de investimento corporativo ou institucional voltada à criação de novos produtos, processos ou conhecimentos.
- ESG: Sigla em inglês para critérios ambientais, sociais e de governança, usados para avaliar práticas sustentáveis em empresas e projetos.
- CPSI: Cooperativa de Produção e Serviços Inovadores, modelo jurídico que combina cooperativismo com atividades de inovação.