Imagem criada por IA
  • A Fiocruz Amazônia lança o FemiBot e a Rede Vigifeminicídio em seminário no dia 6 de março, véspera do Dia Internacional da Mulher.
  • O evento entrega o primeiro centro de inteligência epidemiológica sobre feminicídios do Brasil, sediado no ILMD em Manaus.
  • O sistema FemiBot permitirá captura e armazenamento de dados em tempo real sobre assassinatos de mulheres na Amazônia e no Rio de Janeiro.

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, a Fiocruz Amazônia realiza, na sexta-feira, 6 de março de 2026, em Manaus, o Seminário Amazônico sobre Vigilância Inteligente do Feminicídio. O evento marca o lançamento da estratégia Vigifeminicídio, a entrega do primeiro centro de inteligência epidemiológica sobre feminicídios do Brasil e a estreia do sistema FemiBot, tecnologia desenvolvida pela Fiocruz para monitorar, em tempo real, os assassinatos de mulheres na Amazônia Ocidental e no Rio de Janeiro.

O centro de inteligência terá sede no Prédio Rio Solimões, anexo 1 do ILMD/Fiocruz Amazônia, e integra uma rede de observatórios distribuídos pelas capitais Manaus (AM), Porto Velho (RO), Rio Branco (AC) e Boa Vista (RR), além de uma frente dedicada ao monitoramento dos óbitos na capital fluminense. O seminário será realizado das 9h às 17h, em período integral.

O que é o FemiBot

O FemiBot é um sistema digital desenvolvido pelo Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) para viabilizar a captura e o armazenamento online de dados sobre feminicídios, com protocolos padronizados e baixo custo operacional. A proposta central é gerar informações robustas e confiáveis antes mesmo dos dados oficiais, frequentemente contestados por subnotificação.

“Esperamos entregar à sociedade uma estratégia ágil, com protocolos claros e padronizados, com baixo custo operacional e, principalmente, replicável em distintos cenários, apta à oportuna e contínua disseminação de dados, facilitando a tomada de decisão baseada em evidências.”

A declaração é do pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, epidemiologista e coordenador da Rede de Observatórios Vigifeminicídio. O sistema se apoia num tripé interdisciplinar que une ciências humanas (geografia, demografia, antropologia e direito), saúde pública e engenharia da computação, com uso de inteligência artificial para cruzamento e análise dos dados.

O seminário e seus participantes

Promovido pelo Laboratório de Modelagem em Estatística, Geoprocessamento e Epidemiologia (LEGEPI), o evento reúne pesquisadores, representantes de movimentos sociais, órgãos públicos e instituições de ensino. Entre as presenças confirmadas estão representantes do Ministério da Justiça e Segurança Pública, do Ministério das Mulheres, do Ministério da Saúde, da Secretaria de Estado de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), da Defensoria Pública do Amazonas, da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), por meio do Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública, Cidadania e Direitos Humanos.

Também participam representantes do Ministério Público de Rondônia, da Escola Judicial do Tribunal de Justiça do Amazonas, da Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher e da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP). A pluralidade institucional é, segundo Orellana, condição essencial para o êxito da rede: “O intuito é reunir integrantes e colaboradoras dos observatórios já existentes, com representantes de movimentos sociais e órgãos públicos estaduais, para apresentar as estratégias de atuação da Rede e reforçar a importância do trabalho interinstitucional.”

Subnotificação: o principal obstáculo

Para a diretora da Fiocruz Amazônia, Stefanie Lopes, a criação do centro de inteligência é uma contribuição direta ao processo de formulação de políticas públicas de enfrentamento à violência contra a mulher. Em entrevista à revista Uma Concertação Pela Amazônia, ela apontou um dos principais problemas que o sistema precisa resolver.

“Um exemplo é o de mulheres envolvidas com o tráfico de drogas, cenário em que muitas são assassinadas, por exemplo, ao tentar romper um relacionamento. Porém, pelo contexto de crime organizado em que vivem, suas mortes não recebem o tratamento de feminicídio, o que agrava o cenário de subnotificação.”

Stefanie destacou ainda que o feminicídio não é um “diagnóstico” nos documentos do sistema de saúde, mas sim uma “narrativa” que exige interpretação dos dados. “A subnotificação tem graves consequências: sem dados confiáveis, não conseguimos desenvolver políticas públicas eficazes para prevenção e enfrentamento. A sociedade e os profissionais de saúde muitas vezes não reconhecem as mulheres em risco até que seja tarde demais”, afirmou a diretora.

A Rede Vigifeminicídio vem sendo construída desde 2016, quando Orellana iniciou o mapeamento sistemático dos assassinatos femininos nas capitais da Amazônia Ocidental. Em 2025, foram realizados os primeiros treinamentos de captura de dados nas sedes da Universidade Federal do Acre, em Rio Branco, e da Universidade Federal de Rondônia, em Porto Velho, com participação de docentes, discentes e representantes de organizações não governamentais. No mesmo ano, iniciou-se a consolidação dos “trabalhos de campo virtuais” em Boa Vista (RR) e no Rio de Janeiro (RJ).

O fortalecimento da rede coincide com avanços legislativos recentes. Em outubro de 2024, a Lei 14.994 tornou o feminicídio um crime autônomo no Código Penal, elevando a pena mínima de 12 para 20 anos de reclusão e a máxima para 40 anos. Antes da reforma, o crime era tratado apenas como uma qualificadora do homicídio. A mudança alinha a legislação brasileira à Convenção de Belém do Pará, tratado internacional de proteção aos direitos humanos das mulheres.

Com o avanço da rede e a entrega do centro de inteligência epidemiológica, a Fiocruz Amazônia posiciona Manaus como referência nacional no monitoramento inteligente do feminicídio. O seminário de 6 de março, segundo a própria instituição, é o primeiro de uma série de encontros da Rede Vigifeminicídio, que pretende apresentar resultados inéditos e contribuir à formulação de políticas públicas orientadas por evidências.

Glossário

  • Feminicídio: assassinato de mulher motivado pela condição do sexo feminino, envolvendo misoginia, menosprezo ou discriminação de gênero.
  • FemiBot: sistema digital da Fiocruz para captura e armazenamento online de dados sobre feminicídios, com protocolos padronizados e uso de inteligência artificial.
  • Vigifeminicídio: estratégia da Fiocruz Amazônia de vigilância epidemiológica inteligente dos assassinatos femininos na Amazônia Ocidental e no Rio de Janeiro.
  • ILMD: Instituto Leônidas e Maria Deane, unidade da Fiocruz sediada em Manaus (AM).
  • LEGEPI: Laboratório de Modelagem em Estatística, Geoprocessamento e Epidemiologia, vinculado ao ILMD/Fiocruz Amazônia.
  • Subnotificação: registro incompleto ou incorreto de casos, que subestima a real dimensão de um problema de saúde ou segurança pública.
  • PD&I: Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação.
  • IoT: Internet das Coisas; conexão de dispositivos físicos à internet para troca de dados.
  • SSP-AM: Secretaria de Estado de Segurança Pública do Amazonas.
  • FVS-RCP: Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto, órgão estadual de saúde pública do Amazonas.

Últimas notícias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *