- O curauá é uma bromélia nativa da Amazônia com fibras de alta resistência que podem substituir a fibra de vidro na indústria.
- A planta tem aplicações em peças automotivas, carenagens de celular, compósitos poliméricos e, mais recentemente, na produção têxtil.
- Pesquisa da Embrapa e projeto-piloto do governo do Amazonas buscam escalar o cultivo e conectar agricultores familiares ao mercado industrial.
- O principal gargalo ainda é a escassez de dados agronômicos validados para o Amazonas, que limita a expansão comercial da cultura.
- A técnica de cultura de tecidos permite multiplicar mudas com segurança e uniformidade, abrindo caminho para plantios em escala.
O curauá (Ananas comosus var. erectifolius) é uma bromélia nativa da Amazônia brasileira cujas fibras extraídas das folhas apresentam alta resistência mecânica, baixa densidade e potencial de reciclagem, qualidades que a colocam como uma das principais candidatas a substituir a fibra de vidro em aplicações industriais. Pesquisas conduzidas pela Embrapa Amazônia Ocidental e por universidades brasileiras confirmam que a planta pode abastecer setores que vão do automotivo ao têxtil, com vantagem ambiental frente aos materiais sintéticos convencionais.
Uma planta, múltiplos usos industriais
A fibra do curauá ganhou notoriedade na indústria nacional ainda na década de 1990, quando seu potencial como componente de peças automobilísticas foi identificado. Desde então, a planta passou a ser estudada para diversas aplicações: botões de painel de carros, maçanetas, dobradiças de quebra-sol, além de partes internas de portas e tampas de bagageiros já são fabricadas com compósitos que levam a fibra amazônica como reforço. Mais recentemente, o interesse se expandiu para as carenagens de celulares, hoje compostas 100% de plástico, com potencial de incorporar um percentual de fibras naturais do curauá.
As propriedades físicas da fibra explicam esse interesse. Ela é leve, macia, resistente e reciclável, características que a tornam competitiva frente à fibra de vidro, material mais pesado, não biodegradável e de difícil descarte. Em compósitos poliméricos, a fibra do curauá pode ainda contribuir para a redução do peso final dos produtos, um fator relevante tanto na indústria automotiva quanto na de eletrônicos.
Potencial têxtil ainda pouco explorado
Embora as aplicações industriais em compósitos sejam o foco mais consolidado, o uso do curauá na produção têxtil representa uma fronteira praticamente inexplorada no Brasil. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA) desenvolveram, em 2023, um projeto de bioeconomia têxtil que investiga o uso da fibra do curauá em vestuário, descrito como praticamente inédito no País. A planta pode substituir fibras como a juta e a malva na produção de sacarias e tecidos industriais, com durabilidade equivalente à da fibra de vidro.

Segundo pesquisadores envolvidos no projeto, a fibra do curauá é suficientemente versátil para produzir fios para tecidos, o que abre uma nova frente para agricultores que hoje dependem dessas culturas tradicionais. A viabilidade têxtil, no entanto, ainda depende de avanços no processamento da fibra em escala e na padronização do produto para atender às exigências do mercado de moda e confecção.
Amazônia como polo estratégico
O curauá ocorre naturalmente nos estados do Pará, Acre, Mato Grosso, Goiás e Amazonas. O município de Santarém (PA) é o principal produtor nacional, com cultivo concentrado em pequenas propriedades. No Amazonas, o potencial é significativo pelas condições de clima úmido, temperatura elevada e umidade favoráveis ao crescimento da planta, mas a produção comercial ainda enfrenta um gargalo crítico: a falta de dados agronômicos validados localmente.
Para superar essa barreira, a Embrapa Amazônia Ocidental conduziu experimentos de campo com mudas produzidas por cultura de tecidos, plantadas em agosto de 2022 e colhidas em fevereiro de 2024. Os resultados mostraram que o curauá branco se desenvolve bem no latossolo amarelo distrófico típico da região, enquanto o curauá roxo demanda mais estudos para as condições locais. O pesquisador Francisco Célio Chaves acompanhou o cultivo para coletar índices técnicos que serão repassados a agricultores.
“O cultivo do curauá, no estado do Amazonas, ainda é muito pouco difundido e existem poucos trabalhos a essa cultura no estado, principalmente em relação à adubação e à nutrição mineral da espécie”, explica o professor Felipe Padilha, orientador de doutorado do pesquisador Francisco Célio Chaves.
Projeto-piloto conecta campo e indústria
Em 2024, o governo do Amazonas lançou um projeto-piloto de produção de fibras do curauá na Comunidade Santo Antônio de Caxinauá, em Itacoatiara, a 176 quilômetros de Manaus. A iniciativa envolve a Suframa, a Sepror, a Sedecti e o CBA, com foco em abastecer indústrias do Polo Industrial de Manaus (PIM) com matéria-prima local e sustentável.
O produtor rural Claudimar Mendonça, que aderiu ao projeto-piloto e hoje cultiva um hectare com 12.500 plantas, destaca a semelhança entre o curauá e o abacaxi como fator de confiança para os agricultores da região. “A tradição agrícola do Novo Remanso pode contribuir para isso porque o curauá e o abacaxi têm o mesmo gênero botânico e os cultivos têm características semelhantes”, afirma. Para ele, a cultura chega como alternativa de renda em uma região que já tem base consolidada em fruticultura.

A expectativa é que os dados coletados no projeto-piloto, combinados com os resultados da pesquisa da Embrapa, formem um arcabouço técnico capaz de orientar a expansão dos plantios e a formalização de uma cadeia produtiva do curauá no Amazonas, beneficiando agricultores familiares e atendendo à crescente demanda industrial por fibras naturais de origem sustentável.
Glossário
- Bromélia: Família botânica que inclui plantas como o abacaxi e o curauá, adaptadas a climas tropicais e com folhas longas que armazenam água.
- Compósito polimérico: Material formado pela combinação de um polímero (plástico) com fibras de reforço, como a fibra de vidro ou fibras naturais, para aumentar resistência e reduzir peso.
- Cultura de tecidos: Técnica de multiplicação de plantas em laboratório, em ambiente estéril e controlado, garantindo uniformidade genética e sanidade das mudas.
- PIM: Polo Industrial de Manaus, complexo industrial da Zona Franca com benefícios fiscais para produção de eletrônicos, motocicletas e outros segmentos.
- Latossolo amarelo distrófico: Solo profundo e de baixa fertilidade natural, comum na Amazônia, que exige manejo cuidadoso de adubação para cultivos produtivos.