• Fapeam lançou dois editais exclusivos para pesquisadoras com investimento de R$ 3,8 milhões no Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência
  • Projetos coordenados por mulheres no Amazonas cresceram mais de 70% entre 2019 e 2025, saltando de 550 para 940 pesquisas
  • Apenas 33% dos pesquisadores no mundo são mulheres, que recebem menos financiamento, reconhecimento e promoção, segundo dados da ONU

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) anunciou dois editais exclusivos para pesquisadoras do Amazonas com investimento total de R$ 3,8 milhões. O lançamento ocorreu nesta terça-feira (11/2), durante o Sarau Científico e Tecnológico Mulheres e Meninas na Ciência, que celebra o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. A iniciativa faz parte do Movimento Mulheres e Meninas na Ciência, coordenado pela Fapeam desde 2020.

Os novos editais são o Programa Amazonidas Mulheres e Meninas da Ciência 2026, voltado para o interior do estado, e o Programa de Apoio à Liderança Feminina na Inovação e Sustentabilidade da Amazônia (Lidera Cientista Amazonas), que atende todo o estado. Juntos, os programas devem aprovar até 20 projetos de pesquisa coordenados por mulheres cientistas.

Investimento crescente em liderança feminina

O Programa Amazonidas destinará R$ 1,5 milhão para até dez projetos no interior do Amazonas. O edital objetiva estimular o protagonismo de pesquisadoras em municípios do interior na coordenação de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PDI). A iniciativa busca soluções inovadoras para problemas da região amazônica.

Já o Lidera Cientista Amazonas investirá R$ 2,3 milhões em até dez projetos conduzidos por pesquisadoras com título de doutorado. O programa é inédito e fomenta a criação de produtos, serviços ou processos inovadores. As pesquisadoras devem atuar em instituições de pesquisa, ensino superior, centros de pesquisa ou órgãos públicos e privados sem fins lucrativos.

Com os dois novos editais, a Fapeam chega a 17 editais abertos em 2026. A fundação prevê a contratação de 3.500 novos projetos de pesquisa e o fomento de 5.300 novas bolsas neste ano. O investimento total ultrapassa R$ 85 milhões em ciência, tecnologia e inovação no Amazonas.

Crescimento de 70% em projetos liderados por mulheres

A professora doutora Márcia Perales Mendes Silva, presidente da Fapeam, destacou os avanços conquistados desde 2020. De 2019 a 2025, o número de projetos coordenados por mulheres cresceu mais de 70%, saltando de 550 para 940 pesquisas. A estratégia prioriza a liderança feminina, não apenas a participação em equipes.

Entre 2021 e 2025, a Fapeam lançou 12 editais exclusivos para mulheres, com investimentos públicos de aproximadamente R$ 14 milhões. Os programas apoiaram pesquisadoras na capital e no interior em todas as áreas do conhecimento. Nomes como Amazônidas, Cunhã, Mulheres Mais Estrem, Empreendedorismo Feminino e Mulher Faz Ciência marcaram esse período.

“Nosso objetivo não era ter mais mulheres nas equipes. Nosso objetivo era ter mais mulheres liderando as equipes”, afirmou a professora Márcia Perales. Ela ressaltou que cada edital representa uma porta aberta, cada projeto uma voz ampliada e cada bolsa um futuro em construção.

Mulheres avançam na pós-graduação no Amazonas

Os resultados concretos aparecem nos relatórios de gestão da Fapeam. Houve crescimento expressivo de mulheres na pós-graduação, especialmente no doutorado, onde ocupam 53% das vagas disponíveis. No mestrado elas já eram maioria, com 1.662 mulheres no cadastro ativo, representando 60% das vagas.

A Fapeam tornou-se uma das principais instituições promotoras da equidade de gênero na ciência na Amazônia. As políticas de indução e ações afirmativas transformam vidas. Mais de 10.595 pesquisadoras foram contempladas em editais da fundação entre 2019 e 2024, segundo dados da Agência Amazonas.

O Movimento Mulheres e Meninas na Ciência vai além do fomento. A iniciativa cria uma rede de sororidade científica que ancora política pública com afeto, gestão com empatia e liderança com escuta e competência. Professoras inspiram, gestoras abrem caminhos e meninas se reconhecem em outras mulheres.

Desafios globais e cenário brasileiro

A professora doutora Marne Carvalho de Vasconcellos apresentou dados globais sobre a participação feminina na ciência durante o evento. Apenas 33% dos pesquisadores no mundo são mulheres, segundo dados da ONU. Elas recebem menos financiamento, menos reconhecimento e menos promoção.

Professora dr. Marne trouxe os dados mundiais sobre as mulheres na ciência: Fotos: TechAmazônia

O Fórum Econômico Mundial estima que serão necessários cerca de 100 anos para eliminar a disparidade de gênero global. No entanto, dobrar o número de mulheres na força de trabalho tecnológica até 2027 poderia adicionar 600 bilhões de euros ao produto interno bruto global.

O Brasil é o terceiro país do mundo com maior participação feminina na ciência, ficando atrás apenas da Argentina e Portugal, ambos com índice de 52%. Segundo relatório da Elsevier-Bori, a participação de mulheres na ciência brasileira cresceu 29% em 20 anos. Em 2022, 49% da produção científica nacional contou com pelo menos uma autora, percentual maior em relação aos 38% registrados em 2002.

Áreas de destaque e desafios persistentes

No Brasil, mulheres representam 55% dos matriculados em cursos de mestrado e doutorado, segundo o CNPq. Porém, apenas uma em cada quatro pesquisadores em posições de liderança é mulher. Os dados revelam o chamado “efeito tesoura”, quando mulheres perdem espaço à medida que avançam na carreira.

As áreas com maior participação feminina globalmente incluem enfermagem, farmacologia, toxicologia, imunologia e microbiologia. Já áreas em crescimento incluem economia, finanças, administração, comunicação e ciências ambientais. Na solicitação de patentes, apenas 17% são feitas por mulheres no mundo, segundo dados de 2025.

A professora Marne Carvalho destacou a importância da diversidade de gênero nas equipes de pesquisa. Estudos mostram que equipes diversas integram diferentes ideias, crenças e perspectivas. A presença de mulheres amplia perspectivas, questiona verdades e cria soluções mais humanas, completas, justas e inclusivas.

Fazer ciência na Amazônia como ato de resistência

Pesquisadoras amazonenses compartilharam suas experiências durante o evento. A professora Jânia Lília, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), afirmou que ser pesquisadora na Amazônia é um imenso prazer e desafio. Pesquisadores da região são desbravadores. “A ciência na Amazônia é um grande caminho a ser percorrido e desenvolvido”, lembrou.

A professora Mariana Vieira Mitoso, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), enfatizou que fazer ciência na Amazônia é um ato de resistência. Ela começou sua relação com a Fapeam no Programa Ciência na Escola (PCE), no ensino médio. Continuou na graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado. “Fazer ciência sendo mulher na Amazônia é também um ato de confiança para abrir portas para outras mulheres”.

A pesquisadora Cecília Verônica Nunes, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), destacou os desafios de conciliar múltiplas funções. “Ser pesquisadora, coordenar projetos, ter alunos de pós-graduação e cuidar da família é um grande desafio. Mas também é muito gratificante simultaneamente”, enfatizou.

Por que isso importa

O investimento em mulheres na ciência não é apenas uma questão de equidade. É uma necessidade para o desenvolvimento científico, econômico e social. A humanidade não pode se dar ao luxo de perder o talento de mulheres que transformam indagações em conhecimento, perguntas em descobertas e desafios em avanço científico.

A igualdade de gênero é essencial para o desenvolvimento sustentável em qualquer lugar do mundo. A ciência avança mais quando é diversa. Valorizar pesquisadoras amplia perspectivas e cria soluções mais completas. O Movimento Mulheres e Meninas na Ciência fortalece a construção de um mundo onde meninas possam sonhar sem limites e mulheres possam existir sem barreiras.

Para mais informações sobre os editais, acesse o site da Fapeam.

Glossário

  • Fapeam: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, responsável pelo fomento à pesquisa científica no estado.
  • PDI: Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, sigla que designa projetos científicos com aplicação prática.
  • ODS: Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, metas globais estabelecidas pela ONU para 2030.
  • PCE: Programa Ciência na Escola, iniciativa da Fapeam para iniciação científica no ensino básico.
  • Efeito tesoura: Fenômeno em que mulheres perdem representatividade à medida que avançam na carreira acadêmica.

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