• Pesquisadores da Ufam transformam caroço de tucumã em biocombustível e carvão sustentável por meio de pirólise experimental.
  • O estudo coordenado pelo professor doutor Wenderson Santos já produz bio-óleo com rendimento superior a 50%, com potencial de substituir o diesel.
  • O Laboratório de Termodinâmica também pesquisa bioligantes, biodiesel e bioplásticos a partir de resíduos amazônicos.

O caroço do tucumã, fruto símbolo da mesa amazônica, pode se transformar em energia limpa. Pesquisadores do Laboratório de Termodinâmica (LabTermo) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) desenvolvem um projeto pioneiro que converte o resíduo do tucumã em biocombustível, carvão ativado e bioligantes. A pesquisa é coordenada pelo professor doutor Wenderson Gomes dos Santos e foi iniciada em agosto de 2025.

Do caroço descartado ao combustível limpo

Segundo o professor Wenderson, o caroço do tucumã é um resíduo abundante e pouco aproveitado. A maior parte do fruto consumido na região amazônica tem destino incerto após a retirada da polpa, o que gera acúmulo de resíduos orgânicos. O estudo em andamento busca, portanto, transformar esse rejeito em produtos de valor agregado.

Processo de pirólise para a extração do bio-óleo. Foto: Divulgação/LabTermo

O processo utilizado é a pirólise, uma técnica termoquímica que decompõe biomassa em altas temperaturas na ausência de oxigênio. A partir desse método, o laboratório conseguiu resultados promissores: “Em testes com 100 gramas do caroço, obtivemos 53% de bio-óleo e cerca de 30% de biochar”, explicou Wenderson. O aproveitamento total — somando gases secundários — pode superar 80% da matéria-prima.

Bio-óleo do tucumã pode substituir o diesel

O principal produto da pesquisa é o bio-óleo, que apresenta características semelhantes ao diesel de petróleo em densidade e poder calorífico. “Nosso objetivo é chegar a um biocombustível competitivo e ambientalmente viável, capaz de substituir gradualmente o diesel fóssil”, afirmou o pesquisador. O estudo está na fase de otimização do processo para aumentar o rendimento e melhorar a qualidade do combustível.

Quando comparado a outros estudos anteriores com óleos vegetais e de fritura, o tucumã se mostra uma alternativa estratégica. O professor destaca que o valor de mercado dos óleos vegetais é crescente, enquanto os resíduos do tucumã são praticamente gratuitos — um ganho duplo para o meio ambiente e para a economia regional.

Do caroço do tucumã, a pesquisa extrai o bio-óleo, o biochar e o bioligante. Fotos: Márcio Azevedo/TechAmazônia

Triplo aproveitamento: bio-óleo, biochar e bioligante

O projeto com o tucumã explora três frentes complementares de produtos sustentáveis. Da amêndoa, mais rica em lipídios, extrai-se o bio-óleo utilizado como combustível. Da parte externa do caroço — o endocarpo —, o grupo desenvolve um biochar voltado à agricultura. Esse carvão biológico pode aumentar a retenção de nutrientes no solo e melhorar sua fertilidade, reforçando o papel ambiental do processo.

Uma terceira aplicação em estudo é a produção de bioligantes, substâncias que servem como agente de adesão em misturas orgânicas e em materiais compostos. A ideia é que cada parte do tucumã tenha um destino produtivo, sem gerar rejeitos. “Nosso objetivo é o aproveitamento total do material. A pirólise é o caminho para processos realmente sustentáveis”, destacou Wenderson.

Transição energética e independência de fósseis

Com o avanço global das metas de transição energética, a pesquisa se insere em uma pauta urgente. “O mundo precisa reduzir a dependência do petróleo. Nosso trabalho apresenta uma solução local, sustentável e com potencial de expansão industrial”, afirmou o coordenador do LabTermo.

De acordo com Wenderson, a equipe opera hoje em duas escalas experimentais. A primeira, em escala de laboratório, trabalha com até 150 gramas de biomassa e produz cerca de 200 ml de bio-óleo por ciclo. A segunda, em fase de implementação, é a escala semi-piloto de 12 litros, que permitirá resultados mais próximos da realidade industrial.

Potencial de mercado e escalabilidade

Os dados iniciais sugerem que o biocombustível do tucumã tem propriedades semelhantes e, em alguns casos, superiores às do diesel convencional. O desafio atual é captar investimento para ampliar os testes e permitir a transferência de tecnologia para empresas do setor energético. “Tudo indica que o processo é escalonável. Mas precisamos de fomento contínuo e parcerias com a iniciativa privada para chegar ao mercado”, explicou.

O pesquisador prevê um horizonte de desenvolvimento de médio prazo, enfatizando que os ganhos ambientais são significativos, principalmente em regiões onde há acúmulo de resíduos vegetais.

Outros estudos apontam o potencial energético do tucumã

A pesquisa coordenada por Wenderson Santos na Ufam soma-se a uma frente ainda pequena, mas consistente, de trabalhos que enxergam o caroço de tucumã como biomassa estratégica para a transição energética da Amazônia. Na Unicamp, por exemplo, a equipe do engenheiro Claudio Silva Lira realizou a pirólise rápida da semente de tucumã-do-Amazonas, gerando bio-óleo com poder calorífico comparável ao do diesel e um carvão rico em minerais, com potencial para uso agrícola e energético — resultados divulgados pela própria universidade, em reportagem disponível em unicamp.br, e em artigo técnico sobre a pirólise do tucumã publicado na plataforma ScienceDirect.

Na própria Amazônia, há iniciativas complementares que caminham na mesma direção. Projetos apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) já caracterizaram o caroço do fruto do tucumã como matéria-prima promissora para processos de termoconversão, avaliando suas propriedades físicas e térmicas para uso como combustível sólido. Em outra frente, pesquisadores da própria Ufam e de instituições como UnB e UFRJ já analisaram a carbonização e gaseificação de resíduos vegetais, incluindo o tucumã, para geração de eletricidade em sistemas isolados na região.

Juntos, esses trabalhos desenham um panorama em que o “lixo” das bancas de café regional se transforma em vetor de energia limpa, renda e tecnologia produzida na própria floresta.

Outras pesquisas do LabTermo

Desde 2016, o LabTermo concentra esforços em pesquisas sobre energia renovável, economia circular e valorização de resíduos. O grupo iniciou suas atividades com projetos de pirólise de óleo de fritura usado, que já renderam três artigos científicos publicados e testes em diferentes escalas. O laboratório também atua no desenvolvimento de biodiesel e de bioplásticos a partir de fontes alternativas.

Bioplástico obtido a partir da celulose bacteriana

Entre os projetos recentes, destaca-se a experimentação de uma celulose bacteriana obtida a partir da fermentação de kombucha, uma bebida milenar. A pesquisa avalia seu uso como substituto do plástico convencional em produtos biodegradáveis. A equipe também mantém ações de extensão universitária, levando experimentos práticos de pirólise e produção de sabão reciclado a escolas públicas do Amazonas, como forma de incentivar jovens na ciência.

O que é o LabTermo

O Laboratório de Termodinâmica é vinculado aos cursos de Engenharia de Alimentos e Engenharia Química da Ufam. Criado com foco no ensino e na pesquisa aplicada, o espaço promove experiências sustentáveis para estudantes e bolsistas. Seu objetivo é integrar conhecimento científico com impacto ambiental positivo, estimulando a formação de profissionais engajados com os desafios amazônicos.

Impactos para a Amazônia

O aproveitamento do caroço de tucumã representa um avanço estratégico para a bioeconomia amazônica. A transformação de resíduos regionais em fontes de energia limpa contribui para reduzir a poluição, fortalecer arranjos produtivos locais e diminuir a dependência de combustíveis fósseis importados. Além disso, essa nova pesquisa abre caminho para a criação de cadeias sustentáveis que unam ciência, comunidades e inovação tecnológica.

Glossário

  • Pirólise: Processo químico que decompõe materiais orgânicos em altas temperaturas, sem oxigênio, gerando gases, óleos e carvão.
  • Biochar: Também chamado de biocarvão, é o carvão obtido pela pirólise de biomassa, usado na agricultura para enriquecer o solo.
  • Bioligante: Substância orgânica com propriedades adesivas, obtida de biomassas processadas.
  • Bio-óleo: Líquido obtido pela pirólise, com potencial para uso como combustível renovável.

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