• A Ufam registrou a primeira defesa de doutorado com banca inteiramente indígena do Brasil, conduzida por Jaime Diakara Dessano em língua Tukano no PPGAS.
  • A tese investiga o poder do sopro de fumaça (bahsese) e da saliva feminina (üsekoda) nos rituais Dessana do Alto Rio Negro.
  • O evento marca 15 anos de políticas afirmativas que reconhecem línguas indígenas, grafismos e narrativas visuais como produção científica legítima.

A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) protagonizou um marco inédito na história acadêmica brasileira. Pela primeira vez, uma defesa de doutorado foi conduzida por uma banca examinadora formada inteiramente por professores indígenas. O evento aconteceu no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da instituição, em dezembro de 2025.

O doutorando Jaime Diakara Dessano, do povo Dessana, apresentou sua tese escrita em língua Tukano. O trabalho investiga a força do sopro e da saliva nos rituais de seu povo no Alto Rio Negro. A defesa incluiu elementos cerimoniais como cantos, grafismos, bebida tradicional e defumação.

Resultado de 15 anos de políticas afirmativas

O momento histórico é fruto de mais de quinze anos de políticas afirmativas implementadas pelo PPGAS/Ufam. O programa criou editais específicos para candidatos indígenas e reconheceu as línguas indígenas como línguas acadêmicas válidas. Além disso, passou a aceitar grafismos, desenhos e narrativas visuais como formas legítimas de pesquisa científica.

Segundo Jaime Diakara Dessano, é um marco histórico para todos os povos indígenas do Brasil. O pesquisador destaca a importância de a universidade compreender como o indígena pensa, tem conhecimento e cria conceitos para a antropologia indígena. Essa perspectiva busca afirmar o pensamento indígena como produção científica legítima dentro da academia.

“Nós estamos marcando um histórico com bancas indígenas de vários povos para os programas da antropologia indígena que podem ser vistos de uma maneira diferente. E ver a presença indígena de uma maneira diferente: como que o indígena pensa, como que o indígena tem conhecimento, como que o indígena quer criar o conceito, a teoria para a antropologia indígena”, comemorou.

O que investiga a tese de Jaime Diakara?

A pesquisa explora dois elementos centrais da cosmologia Dessana: o bahsese e a üsekoda. O bahsese é o sopro de fumaça de tabaco emitido pelo kumu (pajé), que ativa e orienta processos rituais, festas e cuidados. Já a üsekoda representa a saliva produzida pela mulher como fonte de fermentação, criação e transformação.

O preparo da bebida foi feito durante a apresentação da tese. Fotos: reprodução/Instagram

O trabalho demonstra como o corpo feminino funciona como um microcosmo capaz de gerar vida. Enquanto isso, o local de preparo do caxiri (bebida fermentada) representa a extensão do corpo masculino, ativado pelo sopro para circular conhecimento e alegria nas festas.

A tese articula corpo, mito e prática social. Mostra como esses elementos se conectam na produção do caxiri e na circulação de saberes durante as celebrações comunitárias. O trabalho foi desenvolvido inteiramente em língua Tukano, reafirmando essa língua indígena como língua de produção acadêmica.

Defesa integrou rito acadêmico e ritual indígena

A defesa de doutorado transcendeu o formato tradicional acadêmico. O evento reuniu elementos cerimoniais como canto, grafismos, bebida tradicional e defumação. Essa integração aproximou o ritual indígena do rito acadêmico, criando uma experiência híbrida de validação científica.

A presença de uma banca inteiramente formada por professores indígenas de diversos povos fortalece o reconhecimento da diversidade epistêmica. O evento evidencia que existem múltiplas formas de produzir e validar conhecimento dentro da universidade. Essa abordagem desafia a política única tradicionalmente aplicada pelas instituições acadêmicas.

Quem é Jaime Diakara Dessano?

Jaime Diakara Dessano é pesquisador indígena do povo Dessana, originário do Alto Rio Negro. Ele já havia apresentado sua dissertação de mestrado em língua Tukano no mesmo programa. Sua trajetória acadêmica representa um modelo de resistência e afirmação cultural.

O pesquisador integra o Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI), grupo de pesquisa do PPGAS/Ufam. O núcleo reúne estudantes e pesquisadores indígenas que desenvolvem projetos voltados à compreensão da complexa realidade cultural amazônica.

O papel do NEAI na produção científica indígena

O NEAI desempenha função estratégica no fortalecimento da pesquisa indígena na Amazônia. O grupo promove a articulação entre saberes tradicionais e métodos acadêmicos. Seus integrantes desenvolvem investigações sobre cosmologia, línguas, práticas rituais e organização social dos povos indígenas.

O núcleo representa um espaço de produção epistêmica diferenciada dentro da universidade. Ali, pesquisadores indígenas conduzem suas investigações a partir de suas próprias categorias conceituais. Essa perspectiva amplia o escopo da antropologia e desafia visões coloniais sobre o que constitui ciência.

Línguas indígenas como línguas acadêmicas

O reconhecimento das línguas indígenas como línguas acadêmicas representa avanço institucional significativo. Por décadas, a universidade brasileira exigiu que toda produção científica fosse redigida em português. Essa imposição silenciava formas próprias de expressão e elaboração conceitual.

A aceitação da língua Tukano como idioma de tese quebra essa barreira. Permite que pesquisadores indígenas elaborem seus trabalhos nos idiomas que estruturam seu pensamento. Essa mudança reconhece que cada língua carrega categorias conceituais únicas, essenciais para expressar conhecimentos específicos.

Além das línguas, o programa passou a aceitar grafismos, desenhos e narrativas visuais como formas legítimas de pesquisa. Essa ampliação metodológica valoriza as múltiplas formas de registro e transmissão de conhecimento dos povos indígenas.

Como funcionam o bahsese e a üsekoda?

O bahsese é o sopro de fumaça de tabaco emitido pelo kumu durante rituais. Esse sopro ativa processos cerimoniais, orienta cuidados e estabelece conexões entre os participantes e os seres cosmológicos. Funciona como veículo de comunicação e transformação ritual.

A üsekoda representa a saliva produzida pelas mulheres durante a mastigação da mandioca na preparação do caxiri. Essa saliva contém enzimas que iniciam o processo de fermentação. Na cosmologia Dessana, ela é compreendida como potência feminina de criação e transformação.

A tese demonstra como esses dois elementos se complementam:

  • O sopro masculino circula e ativa processos rituais
  • A saliva feminina transforma matéria e gera novas substâncias
  • Ambos são fundamentais para a realização das festas e para a circulação de conhecimento
  • Eles articulam corpo, cosmologia e prática social

O caxiri como símbolo de integração social

O caxiri é bebida fermentada central nas celebrações Dessana. Sua produção envolve trabalho coletivo e conhecimentos específicos transmitidos entre gerações. A bebida circula durante as festas, promovendo alegria, integração e troca de saberes.

Segundo a tese, o local de preparo do caxiri representa a extensão do corpo masculino. Esse espaço é ativado pelo sopro do kumu para propiciar a circulação de conhecimento. Já o corpo feminino funciona como microcosmo gerador de vida, através da produção da saliva fermentadora.

Essa articulação entre corpo, espaço e substância revela a complexidade do pensamento Dessana. Mostra como elementos aparentemente simples carregam significados cosmológicos profundos e estruturam relações sociais.

Impactos para a Amazônia

A primeira defesa com banca inteiramente indígena abre precedente para outras instituições. Demonstra a viabilidade de modelos acadêmicos que respeitam e incorporam epistemologias próprias dos povos originários. Esse caminho fortalece a presença indígena qualificada nas universidades amazônicas.

O evento também impacta as políticas linguísticas na região. Ao validar a língua Tukano como idioma científico, a Ufam contribui para a valorização de idiomas historicamente marginalizados. Essa valorização pode estimular jovens indígenas a manter suas línguas maternas.

Para os povos do Alto Rio Negro, o marco representa reconhecimento de seus sistemas de conhecimento. Demonstra que saberes ancestrais sobre corpo, ritual e cosmologia têm valor científico. Esse reconhecimento fortalece a autoestima cultural e estimula novas gerações a investir em formação acadêmica.

A iniciativa da Ufam pode inspirar outras universidades brasileiras a adotar políticas afirmativas diferenciadas. Essas políticas devem ir além das cotas de ingresso e criar condições para que estudantes indígenas desenvolvam pesquisas a partir de suas próprias categorias conceituais.

Glossário

  • Bahsese: Sopro de fumaça de tabaco emitido pelo kumu (pajé) durante rituais, que ativa e orienta processos cerimoniais entre os Dessana.
  • Üsekoda: Saliva produzida pelas mulheres durante a preparação do caxiri, compreendida como potência feminina de fermentação, criação e transformação.
  • Kumu: Pajé ou especialista ritual dos povos Tukano do Alto Rio Negro, responsável por conduzir cerimônias e processos de cura.
  • Caxiri: Bebida fermentada tradicional dos povos indígenas amazônicos, produzida principalmente a partir da mandioca e consumida em festas e rituais.
  • PPGAS: Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, curso de mestrado e doutorado que forma pesquisadores na área de antropologia.
  • NEAI: Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena, grupo de pesquisa do PPGAS/Ufam dedicado à investigação da realidade cultural dos povos amazônicos.

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