- Projeto da Ufam transforma óleo de cozinha usado em biocombustível através de craqueamento termocatalítico entre 400° e 600°C.
- Iniciativa agrega valor ao resíduo doméstico e contribui para redução de emissões de carbono na transição energética amazônica.
- Pesquisa será apresentada no CONIC em dezembro e reforça necessidade de investimentos em energia limpa para interior do Brasil.
A Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Amazonas desenvolveu tecnologia que converte óleo de fritura usado em biocombustível. O projeto, coordenado pelo professor Wenderson Santos, utiliza craqueamento termocatalítico.
A iniciativa transforma um resíduo sem valor comercial em diesel verde. O processo ocorre em temperaturas entre 400° e 600°C, com catalisador de origem natural.
O bio-óleo resultante possui características semelhantes ao diesel convencional. A técnica reduz impactos ambientais e oferece alternativa sustentável para a matriz energética regional.
Como funciona o craqueamento termocatalítico
O método expõe o óleo usado a temperaturas elevadas em presença de catalisador. Esse composto acelera reações químicas que quebram moléculas grandes em menores.
O catalisador natural utilizado torna o processo mais econômico. A técnica dispensa etapas complexas de purificação presentes em outros métodos.
O professor Santos explicou ao Portal da Ciência que o óleo de fritura normalmente é descartado incorretamente. “Além de agregar esse valor, nós melhoramos não só a parte ambiental, mas a sociedade em geral”, afirmou.
Parcerias fortalecem pesquisa amazônica
O projeto reúne instituições regionais comprometidas com a sustentabilidade. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) financia parte dos estudos.
Colaboram também a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e a Universidade Federal do Pará (UFPA). Essa rede acadêmica fortalece o desenvolvimento tecnológico local.
Vinícius Ribeiro, estudante de Engenharia de Alimentos da Ufam, é bolsista de Iniciação Científica no projeto. Ele apresentará os resultados no Congresso Nacional de Iniciação Científica (CONIC), em dezembro.
“A quantidade de pessoas e empresas que utilizam óleo é muito grande. Se a gente puder aproveitar esse óleo, haveria uma grande redução nas emissões de carbono”, destacou o pesquisador.
Biocombustível na transição energética brasileira
O diesel verde produzido integra estratégias nacionais de descarbonização. A transição energética exige substituição progressiva de combustíveis fósseis por renováveis.
Santos participou das discussões da COP 30 em Belém. Ele defendeu investimentos maciços em energia limpa, especialmente para regiões interioranas.
“A maioria dos países estão em busca dessas energias renováveis e o Brasil, como sede da COP vai investir maciçamente nos próximos anos”, observou o professor. Ele ressaltou a importância de levar conhecimento científico às comunidades amazônicas.
A produção de biocombustível a partir de resíduos resolve dois problemas simultaneamente:
- Destinação adequada de óleo usado, evitando contaminação de solos e corpos d’água
- Geração de energia renovável com menor pegada de carbono
- Criação de cadeia produtiva sustentável em áreas isoladas
- Redução de dependência de diesel importado ou fóssil
Impactos para a Amazônia
A tecnologia desenvolvida na Ufam tem potencial transformador para comunidades ribeirinhas e municípios isolados. Essas localidades dependem majoritariamente de geradores a diesel para eletricidade.
O professor Santos, natural do interior amazônico, conhece as dificuldades energéticas regionais. “A gente sabe que na capital já não é tão fácil, mas é necessário e a gente só vai conseguir isso com investimentos”, afirmou.
A interconexão entre ciência e comunidades beneficiadas é crucial. O projeto pode gerar renda através da coleta de óleo usado e produção descentralizada de biocombustível.
Com a COP 30 realizada em Belém, a Amazônia ganha visibilidade global em questões climáticas. Iniciativas locais como esta demonstram capacidade técnica e científica da região.
O biocombustível de óleo de fritura representa solução adaptada às realidades amazônicas. A tecnologia une conhecimento acadêmico, recursos naturais e necessidades socioambientais urgentes.
Glossário
- Craqueamento termocatalítico: Processo químico que quebra moléculas grandes em menores usando altas temperaturas e catalisador.
- Catalisador: Substância que acelera reações químicas sem ser consumida no processo.
- Bio-óleo: Combustível líquido obtido de biomassa ou resíduos orgânicos.
- COP 30: 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada em Belém.
- Descarbonização: Processo de redução de emissões de dióxido de carbono na atmosfera.
- CONIC: Congresso Nacional de Iniciação Científica.