Equipe do Projeto – Fotos: Divulgação / Projeto Ybyrá
  • Expedição do Projeto Ybyrá leva exames e pesquisa a 13 aldeias Munduruku no Rio Canumã.
  • Equipe da Fiocruz monitora impactos da crise climática na saúde indígena e no ambiente.
  • Projeto Ybyrá oferece hemograma, HPV e acompanhamento de doenças crônicas em área remota.
  • Modelo de pesquisa e assistência pode inspirar políticas públicas para territórios indígenas.

O Projeto Ybyrá, da Fiocruz Amazônia, iniciou em 7 de fevereiro uma expedição de 16 dias pela calha do Rio Canumã, entre Borba e Nova Olinda do Norte (AM), para oferecer exames de saúde e mapear os impactos da crise climática em 13 aldeias indígenas Munduruku, em uma das áreas mais remotas a cerca de 300 km de Manaus.

Financiado pelo edital Inova Saúde Indígena, do Ministério da Saúde, o projeto integra diferentes iniciativas de pesquisa em saúde pública voltadas para populações indígenas isoladas do Amazonas. A equipe reúne pesquisadores da Fiocruz Amazônia, Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP-Fiocruz) e universidades parceiras, em uma abordagem que combina assistência, vigilância e pesquisa em campo.

Saúde indígena na Amazônia em cenário de extremos climáticos

Ao longo da expedição, o Projeto Ybyrá realiza um amplo levantamento de dados clínicos, epidemiológicos e socioambientais junto às comunidades Munduruku. A prioridade é entender como eventos de cheia extrema e seca severa alteram o acesso à água segura, a disponibilidade de alimentos tradicionais, a circulação de patógenos e o controle de doenças crônicas.

Estão sendo coletadas amostras biológicas humanas e de animais para rastrear possíveis patógenos em áreas peridomiciliares, além da oferta de exames que deveriam ser rotina no Sistema Único de Saúde, mas são de difícil acesso para populações indígenas isoladas. Entre os procedimentos realizados estão:

  • Hemograma completo;
  • Hemoglobina glicada e PCR para acompanhamento de diabéticos e hipertensos;
  • Exame de HPV para mulheres, com protocolo de autocoletta;
  • Ações de educação em saúde, controle social e empoderamento comunitário.

As atividades incluem palestras sobre direitos humanos, acesso à saúde indígena, insegurança alimentar e hídrica, impacto dos alimentos ultraprocessados, saúde bucal, qualidade da água para uso e consumo, além de oficinas de educação em saúde.

Os atendimentos foram feitos na própria embarcação do projeto.

Um dos coordenadores do Ybyrá, o virologista e pesquisador da Fiocruz Amazônia Pritesh Lalwani, destaca que a proposta é atuar em rede, numa visão integrada de território de saúde:

“Queremos entender o impacto das mudanças climáticas na vida dos indígenas e o que está acontecendo com doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, associadas ao consumo de ultraprocessados nas aldeias, além de doenças causadas por vetores que muitas vezes não são diagnosticadas porque as pessoas não conseguem sair das aldeias para fazer exames.”

A equipe volta à região entre agosto e setembro, no auge da seca extrema, para repetir o levantamento, comparar cenários e apresentar devolutivas às comunidades.

Crise climática, água e comida nos territórios indígenas

Para o pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz Amazônia Rodrigo Tobias, que também coordena a expedição, o Ybyrá pesquisa a inter-relação entre saúde humana, animal e ambiental em uma área indígena remota sob extremos climáticos.

“A crise climática já chegou como crise de água e comida nos territórios indígenas remotos, que já são vulnerabilizados social e ambientalmente. Quando a seca prolonga ou quando a cheia vem extrema e alaga roças e caminhos da floresta, não é só o clima que muda: muda o acesso à água segura, a disponibilidade de alimentos tradicionais, a possibilidade de pescar, plantar e armazenar alimentos e até a logística para chegar a um posto de saúde.”

Segundo Tobias, nesses contextos aumentam os casos de diarreia e outras doenças de veiculação hídrica, agravam-se desnutrição e anemia e piora o controle de doenças crônicas e infecciosas. “Falar de saúde na Amazônia indígena hoje é falar de adaptação climática a partir do território”, resume o pesquisador, que estuda a relação entre insegurança hídrica e alimentar em cenários extremos.

Pesquisa intervenção integrada e consórcio de instituições

O Projeto Ybyrá adota uma estratégia de pesquisa intervenção integrada, reunindo equipes de quatro projetos da Fiocruz e de instituições parceiras como Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade de Campinas (Unicamp), Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi), DSEI Manaus, Agência de Gestão do SUS (Agesus), Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Para Rodrigo Tobias, trata-se de um consórcio de pesquisa colaborativa comprometido com mudança social junto ao controle social indígena. O projeto foi aprovado em comitê de ética e está, neste momento, na fase de coleta de dados, empoderamento comunitário, educação e fortalecimento do controle social, com retorno previsto na seca para repetição das atividades e devolução parcial dos resultados.

Pritesh Lalwani ressalta a importância da assistência em saúde oferecida pelo projeto:

“Essa é a contribuição social desse projeto em rede. Atuando juntos, trazemos uma visão integrada do território, buscando entender os impactos das mudanças climáticas e ambientais para uma população negligenciada, que enfrenta dificuldades de acesso. Também queremos compreender o impacto na saúde de animais domésticos, que atuam como sentinelas de patógenos nessas áreas. Juntamos pesquisa e assistência para um povo isolado e estamos desenhando um modelo inédito que pode se tornar política pública para territórios indígenas do país.”

Coleta de dados em barco adaptado e uso de tecnologia

Antes de partir para o campo, as equipes passaram por reuniões de alinhamento em Manaus e treinamento no uso do software REDCap, ferramenta de preenchimento de questionários e gerenciamento de dados de pesquisa amplamente utilizada em estudos clínicos e epidemiológicos. De acordo com a comunidade internacional do REDCap, a plataforma é hoje padrão em projetos multicêntricos de saúde.

Indígenas foram atendidos no barco do projeto

Todos os envolvidos no Ybyrá coletam dados sobre Saúde Única, englobando condições de vida, qualidade da água, alimentação, condições climáticas, controle social e educação em saúde.

A expedição ocorre em uma embarcação adaptada que desce o Rio Canumã e visita aldeias mais distantes. Os indígenas entram no barco e percorrem um circuito planejado para aplicação de questionários, triagem clínica e coleta de amostras de sangue.

Segundo Tobias, esse formato permite uma pesquisa interativa, com oficinas temáticas, grupos focais com lideranças e atividades de educação em saúde, sempre em diálogo com as comunidades em seu ambiente. Ele destaca o caráter inédito do roteiro de coleta de dados embarcado, com diversos grupos de pesquisa convivendo no mesmo espaço.

Impacto social para o território Munduruku

Para a tecnologista em Saúde Pública e pesquisadora da Fiocruz Amazônia Katia Maria Lima de Menezes, integrante da coordenação do Ybyrá, o projeto é crucial para o território Munduruku, onde a realização de exames básicos exige longos deslocamentos.

“Essa é uma área onde os indígenas têm muitas dificuldades de realizar exames, precisam viajar muito para conseguir um simples hemograma. O Projeto Ybyrá está possibilitando essa oportunidade com o compromisso de entrega dos resultados. Esse é, sem dúvida, o maior impacto social do projeto.”

Katia Lima, que coordena outro projeto do Programa Inova Fiocruz voltado ao fortalecimento do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional em territórios indígenas, destaca ainda a relevância da coleta de amostras para diagnóstico de HPV. O exame tem potencial de impacto direto na prevenção do câncer de colo de útero, principal causa de morte por câncer entre mulheres no Amazonas, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA).

Protagonismo indígena e controle social

Para as lideranças do controle social indígena na região, a chegada do Projeto Ybyrá representa um marco histórico para as comunidades da calha do Canumã. Pedro Santa Rita, presidente do Condisi e liderança local, resume o sentimento das aldeias:

“A vinda do projeto para essa região tão isolada é um grande avanço e uma grande conquista para o nosso povo. Saber que todas as coletas terão retorno é uma novidade e uma realização histórica. Agradecemos em especial à Fiocruz por cuidar do nosso povo com responsabilidade.”

Algumas aldeias ficam a muitos quilômetros da sede de Nova Olinda do Norte, onde a embarcação do projeto fica atracada. A logística complexa reforça o caráter inovador da iniciativa.

Outra liderança, Kleuton Munduruku, reforça o potencial de desdobramentos do Ybyrá para a saúde indígena:

“Sabemos que a saúde indígena tem muitas dificuldades em relação a exames, principalmente os que estão sendo oferecidos pelo Projeto Ybyrá. Estamos muito felizes e orgulhosos de ter vocês no nosso território, trazendo melhorias para a qualidade do acesso à saúde das populações indígenas, em uma iniciativa que pode se estender a outros territórios.”

Sobre o edital Inova Saúde Indígena

O edital Inova Saúde Indígena foi lançado em 2021 pela Presidência da Fiocruz, por meio das vice-presidências de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS), de Produção e Inovação em Saúde (VPPIS) e de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB). O objetivo é apoiar projetos que contribuam para o aprimoramento do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), desenvolvendo produtos e modelos que ampliem e qualifiquem os serviços de saúde prestados aos povos indígenas.

Iniciativas como o Projeto Ybyrá dialogam com a agenda de saúde indígena do Ministério da Saúde e com a pauta global de justiça climática, ao evidenciar como a crise do clima se manifesta de forma mais severa em territórios já vulnerabilizados, como os povos indígenas da Amazônia.

Últimas Notícias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *