- Professor Wenderson Santos, um marajoara da UFAM, transforma rejeitos da Amazônia em biocombustíveis e bioplásticos com foco em sustentabilidade e ensino.
- Coordenador do LabTermo, ele pesquisa pirólise de tucumã, biodiesel de óleo de fritura e kombucha para criar soluções limpas e acessíveis.
- Defensor da escola pública, o professor Wenderson inspira jovens a estudar ciência e engenharia como caminho de mudança social.
O professor Wenderson Gomes dos Santos, de 41 anos, coordenador do Laboratório de Termodinâmica Aplicada da UFAM, construiu uma trajetória que liga a ilha do Marajó aos desafios da Amazônia, transformando rejeitos em biocombustíveis, bioplásticos e oportunidades para alunos da escola pública. Entre experimentos com caroço de tucumã, óleo de fritura e kombucha, ele se define como um pesquisador apaixonado por ciência aplicada à sustentabilidade e à formação de novos engenheiros.
Nascido em São Sebastião da Boa Vista, no arquipélago do Marajó, no Pará, Wenderson cresceu em família numerosa, estudou em escola pública e migrou para Belém em busca de educação de qualidade. Foi ali que se formou em engenharia química pela Universidade Federal do Pará, fez mestrado e concluiu o doutorado em engenharia de recursos naturais, construindo a base acadêmica que hoje sustenta suas pesquisas na Amazônia.
Ele recebeu o TechAmazônia no Laboratório de Termodinâmica da Universidade Federal do Amazonas (LabTermo), onde concedeu essa entrevista que também pode ser conferida no Youtube.
“Sou um pesquisador apaixonado por pesquisa, principalmente com rejeitos, aqueles que a gente chama de lixo, que podem transformar em algo de valor”
Da escola pública do Marajó à engenharia
Um dos filhos mais velho de uma família com muitos irmãos, o professor lembra a decisão dos pais de enviar os mais velhos para a capital para estudar, apostando na educação como único caminho possível. Ele estudou em escolas públicas em Belém, enfrentou limitações de estrutura, mas aproveitou cada oportunidade que surgia, até chegar à universidade.
Na graduação em engenharia química, descobriu o universo da pirólise, técnica que permite transformar resíduos em produtos de alto valor agregado. Desde a iniciação científica, ele se aproximou de temas ligados a reaproveitamento de materiais, sempre com o olhar voltado para o que era descartado pela indústria e pela sociedade.

“O objetivo da pirólise é justamente essa, tentar fazer os processos serem sustentáveis”
Depois de formado, trabalhou como professor substituto em Marabá, no interior do Pará, equilibrando o início de carreira acadêmica com as responsabilidades de pai. Essa experiência fora da capital reforçou a percepção de como a presença da universidade e da ciência pode transformar realidades locais, principalmente em regiões distantes dos grandes centros.
A chegada à UFAM e o nascimento do LabTermo
Em 2016, Wenderson foi aprovado em concurso e passou a integrar o quadro da Universidade Federal do Amazonas, na área de engenharia de alimentos. Ao chegar, assumiu o Laboratório de Termodinâmica Aplicada, o LabTermo, um espaço voltado principalmente ao ensino, mas que rapidamente se consolidou também como ambiente de pesquisa e extensão.

No LabTermo, o professor organiza aulas práticas, orienta projetos de iniciação científica e coordena ações que conectam universidade, escola pública e comunidade, sempre com foco em práticas sustentáveis. Ele explica que o laboratório nasceu como estrutura de ensino, porém ganhou dimensão estratégica ao se tornar referência em pesquisas com biocombustíveis e fermentação, a partir de matérias-primas amazônicas.
Hoje, o LabTermo possui bolsistas de iniciação científica e projetos em andamento que envolvem desde a geração de biocombustíveis até o desenvolvimento de bioplásticos, além de ações de extensão voltadas a estudantes do ensino médio. O laboratório também está listado entre os espaços de pesquisa da Faculdade de Ciências Agrárias no site da UFAM, reforçando seu papel na formação em engenharia de alimentos e engenharia química.
Transformar lixo de tucumã em biocombustível
Um dos projetos mais recentes coordenados pelo professor Wenderson é o estudo sobre o aproveitamento do caroço de tucumã para produção de biocombustível, carvão ativado e bioligantes. A proposta parte de um problema cotidiano: na região amazônica, o tucumã é amplamente consumido e os caroços costumam ser descartados, gerando acúmulo de resíduos.
“A preocupação não só com o Amazonas, com o Brasil, mas com o mundo, é tentar diminuir essa dependência desses combustíveis fósseis”
Com a técnica de pirólise, esses caroços passam por um processo controlado de aquecimento na ausência de oxigênio, o que permite gerar diferentes produtos a partir da mesma matéria-prima. A amêndoa rica em lipídios produz um bio-óleo que pode, com o tratamento adequado, se aproximar do desempenho do diesel de petróleo. A parte externa, o endocarpo, pode originar biocarvão e bioligantes, úteis para agricultura e outras aplicações.
Em testes de laboratório com 100 gramas de amêndoa de tucumã, a equipe já conseguiu cerca de metade do material convertido em bio-óleo e uma parcela significativa em biochar, com aproveitamento superior a 80% da amostra. O objetivo é otimizar o processo para aumentar ainda mais esses rendimentos e buscar condições que aproximem o produto final dos padrões exigidos para uso como combustível.
Do óleo de fritura ao biodiesel amazônico
Antes do tucumã, o professor Wenderson já vinha se dedicando à pirólise de óleo de fritura, em projeto iniciado ainda em 2016 e financiado a partir de 2021 por agências de fomento. Nessa linha de pesquisa, o foco é transformar um resíduo urbano abundante em biocombustível com potencial de substituir, parcial ou totalmente, combustíveis fósseis.

O trabalho envolve etapas de estudo de condições de processo, uso de catalisadores e testes em diferentes escalas, desde o laboratório até sistemas semi-piloto. Ao longo desse percurso, o grupo produziu artigos científicos, resultados técnicos e protocolos que indicam faixas de temperatura, tempo e composição ideais para maximizar o rendimento em bio-óleo.
“Para fazer essa transição energética, a gente tem que propor uma solução de forma sustentável”
Além da pirólise, a equipe também desenvolve biodiesel a partir de óleo de fritura, aproveitando o fato de que, por lei, uma fração do diesel comercial já deve conter biocombustível. O professor ressalta que o biodiesel funciona como aditivo, com composição química distinta do diesel mineral, enquanto o óleo obtido via pirólise se aproxima mais do comportamento do combustível fóssil.
Kombucha, celulose bacteriana e bioplástico
Outra faceta da produção científica de Wenderson envolve a kombucha, bebida fermentada à base de chá, que ganhou popularidade durante a pandemia. No olhar do pesquisador, o mais interessante não era apenas a bebida, mas a camada de celulose bacteriana que se forma durante a fermentação.
A partir dessa estrutura, conhecida como SCOBY, o grupo do LabTermo fez testes mecânicos e físicos e conseguiu obter um tipo de bioplástico com propriedades semelhantes às de plásticos convencionais. A aposta é que, com mais pesquisa, seja possível conformar esse material em formas como sacolas e embalagens, oferecendo alternativa biodegradável para substituir polímeros derivados de petróleo.
Essa linha se conecta com uma agenda global de redução do uso de plásticos tradicionais, sobretudo em grandes centros urbanos que começam a restringir sacolas plásticas. Em vez de depender apenas de bioplásticos feitos de cana-de-açúcar ou outras matérias-primas agrícolas, o uso da celulose bacteriana da kombucha abre mais um caminho para inovação com base em processos fermentativos.
Ensino, extensão e defesa da escola pública
Embora acumule resultados em artigos, projetos e tecnologia, Wenderson se define, antes de tudo, como um professor que acredita na educação como motor de transformação. Ele insiste em levar experiências de biodiesel, pirólise e produção de sabão a partir de óleo usado para dentro de escolas públicas, em projetos de extensão com estudantes do ensino médio.

O objetivo é desmistificar a engenharia, mostrando que processos complexos podem ser compreendidos de forma acessível quando apresentados de maneira prática. Em suas aulas, ele utiliza experimentos do LabTermo para aproximar conceitos teóricos de situações reais, reforçando a importância de práticas sustentáveis desde a formação básica.
“O ensino fundamental médio precisa ter práticas que mostrem os alunos não só a parte teórica, que fica um pouquinho chato e tedioso”
Orgulhoso de sua origem em escola pública, o professor defende que o sistema público de ensino seja fortalecido com investimentos constantes, e não apenas em anos eleitorais. Para ele, melhorar o ensino fundamental e médio com laboratórios, projetos e vivências científicas é essencial para formar futuros pesquisadores, engenheiros e profissionais comprometidos com a região.
Vencer barreiras e conquistar fomento
No início da carreira na Amazônia, Wenderson conta que enfrentou dificuldades para captar recursos como jovem doutor. Faltavam editais específicos, redes de contatos e experiência em networking, fatores que muitas vezes interferem na aprovação de projetos, mesmo quando a proposta é tecnicamente sólida.
“É necessário também olhar para os jovens doutores, porque quem está começando precisa ter um olhar. Isso vai chegar lá no topo, se tiver ajuda aqui na base”
Com o tempo, a situação começou a mudar. Em 2021, ele conseguiu aprovação de projeto sobre óleo de fritura; em 2025, outro projeto foi contemplado pela Fapeam; e, mais recentemente, uma iniciativa de extensão também obteve financiamento. Na visão do professor, essa evolução representa um avanço importante, mas ainda insuficiente para garantir continuidade na pesquisa regional.
Ele ressalta a necessidade de políticas permanentes de fomento para jovens doutores, de modo que novas gerações de pesquisadores consigam se estabelecer e criar seus próprios grupos. Com estabilidade maior hoje, Wenderson diz olhar para quem está chegando, defendendo que o apoio na base é o que permite que mais gente alcance o topo na ciência.
Uma mensagem para quem pensa em desistir
Ao final da entrevista, Wenderson deixa um recado direto para estudantes e famílias que duvidam do valor da educação em tempos de imediatismo. Ele diz aos filhos, aos alunos e a quem o escuta que estudar continua sendo o melhor instrumento para descobrir novos mundos, resolver problemas antigos e enfrentar desafios contemporâneos.
Para ele, a ciência é um caminho seguro em meio a incertezas, especialmente em uma região como a Amazônia, onde biodiversidade, energia e alimentos se cruzam com desigualdade social e falta de infraestrutura. E, num tom bem pessoal, o professor faz um convite especial para os jovens: se a escolha for pela engenharia, melhor ainda, porque ali teoria e prática se encontram para gerar impacto concreto.
Entre um experimento e outro, o professor marajoara que veio do interior do Pará segue repetindo sua mensagem central: estudar abre portas, e a ciência, quando feita com responsabilidade e paixão, muda destinos individuais e coletivos.
“Estudem, não parem de estudar, que existe uma solução, é estudar”
Glossário
- Pirólise: Processo que aquece materiais sem oxigênio para transformá-los em gás, óleo e carvão.
- Biocombustível: Combustível produzido a partir de matérias-primas renováveis, como óleos vegetais ou resíduos orgânicos.
- Biochar: Tipo de carvão obtido por pirólise, usado para melhorar a qualidade do solo.
- Kombucha: Bebida fermentada feita com chá e açúcar, que forma uma camada de celulose bacteriana.
- Bioplástico: Material semelhante ao plástico convencional, mas produzido a partir de fontes renováveis ou biodegradáveis.
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