- A Região Norte tem 22 projetos finalistas na FEBRACE 2026, a maior feira de ciências e engenharia pré-universitária do Brasil.
- O Pará lidera com 9 projetos; o Amazonas vem em seguida com 5 finalistas representando escolas públicas e técnicas.
- Os trabalhos cobrem áreas como inteligência artificial, sustentabilidade amazônica, astronomia indígena, acessibilidade e biotecnologia.
- A feira ocorre entre os dias 17 e 20 de março de 2026 na Universidade de São Paulo (USP).
A Região Norte chega à 24ª edição da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) com 22 projetos finalistas, distribuídos entre sete estados. O evento ocorre de 17 a 20 de março de 2026 na Universidade de São Paulo (USP) e reúne 297 trabalhos selecionados entre milhares de propostas enviadas por estudantes do ensino básico e técnico de todo o país. O Pará é o estado com mais representantes, com nove projetos, seguido do Amazonas, com cinco.
Os trabalhos da região abordam desde o uso de nanopartículas para remoção de microplásticos em rios amazônicos até aplicativos com inteligência artificial para diagnóstico de arritmias cardíacas. A presença de soluções voltadas à realidade local, como elevadores ribeirinhos, biokits de tratamento de água e tintas solares com pigmentos de urucum e jenipapo, marca a identidade dos projetos nortistas nesta edição.
Pará: nove projetos, da floresta à sala de aula
A escola estadual Padre José Nicolino de Souza, de Oriximiná, coloca dois projetos na final. O Sensores Biomiméticos para Monitoramento Ambiental, de Amanda Sofia Portilho da Cunha, Yuri Cauã Lira Costa e Maria Clara Oliveira dos Santos, usa sensores DHT11, MQ135 e de turbidez integrados a Arduino para detectar poluentes como mercúrio, gases tóxicos e partículas de queimadas em tempo real, inspirando-se em plantas nativas amazônicas. O segundo projeto da mesma escola é a Tinta Solar Fotossintética com Pigmentos Naturais da Amazônia, de Heitor Calderaro Nunes, Maria Sophia Brito Franco e Maysa Lorrana Franco Lavôr, que combina pigmentos de urucum, jenipapo e clorofila com nanopartículas de TiO2 para gerar corrente elétrica em pequena escala, com foco em comunidades ribeirinhas sem acesso à rede elétrica.
De Abaetetuba, o projeto Elevador Ribeirinho — Acessibilidade e Inclusão na Amazônia, de Hilary da Silva Costa e Rafael Gonçalves da Silva, do IFPA Campus Abaetetuba, propõe uma tecnologia inédita no Brasil: um elevador com estrutura metálica anticorrosiva, base adaptativa ao nível do rio e acionamento solar, voltado a pessoas com deficiência, idosos, gestantes e crianças em comunidades ribeirinhas.
Em Belém, o projeto AquaBin — Lixeira Aquática Inteligente, de Ana Vitória Pacheco Moy e Sofia Quadros de Moraes, da Escola SESI Belém, apresenta uma lixeira flutuante feita de PETG reciclado com sensores que medem o volume de resíduos em tempo real, enviando dados para um aplicativo que agiliza a coleta de lixo nos rios da Amazônia. Também de Belém, o Floreser Amazônia: Uma Alternativa Sustentável para o Tratamento de Água, de Anderson Lucas Brandão Esteves, Izys de Oliveira Quaresma e Yasmim Cavalcante de Sousa, do Colégio Equipe Cristal em parceria com o Colégio Militar de Belém, propõe um biokit de baixo custo com biocoagulantes, teste rápido de pH e biofiltro para tratar águas não potáveis, testado em amostras do rio Guamá. O projeto parte de um dado alarmante: cerca de 36% da população paraense, mais de 3,8 milhões de pessoas, não tem acesso garantido à água potável.
De Itaituba, o EcoLábios — Batom Sustentável Amazônico, de Ashylla Isabella Seade Arai, Lara Bandeira da Silva e Maria Eduarda de Souza Vasconcelos, desenvolveu um batom ecológico com óleos e corantes naturais da Amazônia, sem pigmentos inorgânicos com metais potencialmente nocivos. Em Igarapé-Miri, o projeto Cacau que Cresce, “Mundo” que Respira e Inclusão que Floresce, de Samira Nonato da Silva, Waldiney Ladir Pinheiro da Costa e Wendson Campelo Pantoja, conduzido por estudantes do Atendimento Educacional Especializado (AEE), propõe o cultivo do cacau como alternativa sustentável para recuperar áreas desmatadas pela implantação de infraestrutura elétrica em comunidades ribeirinhas.
Monte Alegre contribui com dois projetos. O O Céu dos Nossos Ancestrais: Uma Jornada pela Astronomia Indígena, de Jamily Naelca Morais Silva e Manuela Costa dos Reis Barbosa, da escola estadual Presidente Fernando Henrique Cardoso, produziu um livreto ilustrado com constelações indígenas brasileiras e o aplicou em oficina com 29 alunos do 7º ano, demonstrando que a maioria conhecia apenas constelações ocidentais e despertando curiosidade e engajamento sobre os saberes astronômicos dos povos originários. Da mesma escola, o projeto Técnicas e Materiais na Arte Rupestre: Um Estudo sobre a Criatividade e Habilidade dos Artistas, de Kauan Moura de Oliveira, recriou as tintas usadas nas pinturas do Parque Estadual de Monte Alegre (PEMA), identificando como prováveis pigmentos os óxidos de ferro e manganês, com aglutinantes como mel, água e andiroba, em pinturas que existem há mais de 12 mil anos.
Amazonas: cinco projetos de Manaus
Todos os cinco projetos do Amazonas são de Manaus. O MEMO Fase II, de Ada Jamile Gomes de Oliveira e Roberto Alexandre Alves Barbosa Filho, do Colégio Militar de Manaus, investiga os efeitos de batidas binaurais de 12 Hz sobre células H4, analisando genes relacionados ao Alzheimer (APP, MAPT, BACE). Os resultados demonstraram redução de 48% na expressão do gene MAPT, fortemente associado à formação dos emaranhados neurofibrilares da doença.
A Fundação Matias Machline inscreve três projetos. O Slyban, de Jennifer Lameira Pereira e Eliana de Castro Freire, é um dispositivo físico inspirado no ábaco Soroban, com sensores magnéticos e displays digitais, voltado ao diagnóstico da discalculia e ao ensino de matemática, com transmissão de dados para um aplicativo destinado a professores e psicopedagogos. O Software de Auxílio à Detecção Automática de Arritmias Cardíacas, de Ana Paula de Souza Andrade, Davi da Silva Sarmento e Marcelo Ruan Leão Nunes, é um sistema portátil com Edge AI (Raspberry Pi e sensor AD8232) que classifica arritmias em tempo real com 95,85% de acurácia. O terceiro projeto da instituição é o Vector, de José César Oran Bendaham, Ayla Saraiva Prata, Guilherme Giovany Assunção Lima e Emerson Leão Brito do Nascimento, um sistema de mapeamento probabilístico que identifica espacialmente os riscos de epidemias transmitidas pelo Aedes aegypti para apoiar ações de controle e prevenção de arboviroses.
A Escola SESI Dra. Emina Barbosa Mustafa inscreve o pHDectect, de Raquel Silva Cassiano e Ana Caroline Araujo Duarte da Silva, um aplicativo com inteligência artificial treinada pelo Teachable Machine com 84 imagens para reconhecer o pH de soluções por câmera, atingindo aproximadamente 89% de acerto, voltado a suprir a falta de equipamentos laboratoriais nas escolas.
Amapá, Tocantins, Rondônia, Roraima e Acre
O Amapá tem três projetos finalistas. O Raízes Seguras, de Julia Maria Lidoni dos Santos e Aira Beatriz Cardoso de Souza, do Instituto Nacional Leva Ciência, em Macapá, é um sistema de monitoramento do solo para prevenção de desastres como deslizamentos e suporte à agricultura familiar. O IFAP Campus Macapá inscreve dois trabalhos: a Análise Multitemporal de Imagens de Satélite entre 2014 e 2024, de Analícia Rithiely Costa Silva, Nathally Vitoria Lima Rodrigues e José Bruno de Souza Furtado, que usa imagens de satélite e drones para mapear as transformações em pontos turísticos de Macapá; e a Caracterização Tecnológica de Cerâmica com Adição de Ossos de Peixe da Amazônia, de Alicia Luizzi de Oliveira Pastana, Alice Dandara Amoras Loureiro e Maria Gabrielly Lima da Silva, que investiga o uso desse subproduto amazônico como componente em cerâmicas.
Tocantins inscreve quatro projetos. O Das Águas do Tocantins às Mãos em Libras, de Luiza Scolari Gosch de Melo, do IFTO Campus Porto Nacional, conecta a ictiofauna regional à Língua Brasileira de Sinais. A Fraude em Leite, de Fellipe Oliveira Souza, Luiz Carlos Junior Souza da Silva e Paulo Henrique Gomes Silva Miranda, do IFTO Campus Paraíso do Tocantins, investiga adulterações no produto. As Raízes da Resistência: Beleza Negra e o Combate ao Racismo Estético, de Alícia Silva Nascimento, Arthur Oliveira Paiva e Ana Beatriz Carvalho Barros, da E.E. Aldinar Gonçalves de Carvalho, em Araguatins, analisa o tema pela perspectiva sociológica. Já a Síntese Verde de Nano e Micropartículas de Óxido de Zinco a partir de Extratos de Psidium guajava L., de Emanuel Araujo Alves, do IFTO Campus Araguaína, propõe aplicação na despoluição de água.
Rondônia tem dois projetos. O AudioTrap, de Beatriz Souza da Rocha, Geovana Evangelista Barros de Freitas e Maria Luisa Lôbo Gutierrez, do IFRO Campus Porto Velho Calama, é um aplicativo de tecnologia assistiva que detecta sons do ambiente, como alarmes e buzinas, e alerta usuários com deficiência auditiva via vibração e recursos visuais, com geolocalização e intérprete de LIBRAS. O Xilofone Automatizado com Arduino e Motores DC, de Emilly Alves Siqueira e Iasmin Eduarda de Paiva Silveira, da E.E.E.F.M. Migrantes, em Mirante da Serra, usa garrafas de vidro recicladas para produzir notas musicais controladas por aplicativo Bluetooth.
Roraima é representada pelo HydroMag, de Ana Beatriz Carneiro de Souza Cruz, Maria Paula Barbosa Machado e Sophia Cabral Mota Magalhães Menezes, do Colégio Militar Cel. PM Derly Luiz Vieira Borges, em Boa Vista. O projeto usa nanopartículas de magnetita (Fe₃O₄) manipuladas por ímã de ferrite para remover microplásticos das águas do Rio Branco, com eficiência estimada em até 85%.
O Acre tem dois finalistas. O Formulação de Sabonete à Base de Óleo de Buriti com Potencial Cicatrizante e Rejuvenescedor, de Ana Luiza Andrade da Silva, Anna Lis Gomes de Lima e Isabele Santana da Silva, do Colégio Presbiteriano João Calvino, em Rio Branco, desenvolve um biocosmético natural que une saberes indígenas e ciência, usando a técnica Melt and Pour sem soda cáustica. O Alimentador Automático para Animais de Rua, de Débora Thaylline Aquino Fernandes, Jamilly Eduarda Menezes dos Santos e Khamily Vitória da Silva Rodrigues, da E.E. Raimundo Hermínio de Melo, usa Arduino UNO R3, sensor ultrassônico e mecanismo baseado no parafuso de Arquimedes para liberar ração de forma autônoma e de baixo custo.
Premiação e representação internacional
Os projetos finalistas serão avaliados por mais de trezentos professores universitários e especialistas voluntários durante a Febrace 2026. Os autores dos melhores trabalhos receberão troféus, medalhas, bolsas e estágios, totalizando cerca de 300 prêmios e oportunidades no Brasil e no exterior. Nove projetos serão selecionados para representar o país na Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF) 2026, prevista para 9 a 15 de maio, em Phoenix, nos Estados Unidos.
A Febrace 2026 tem o patrocínio da Petrobras, da Finep e da Embaixada dos EUA no Brasil, entre outros apoiadores. Esta edição envolveu diretamente mais de 72.100 estudantes de todas as unidades federativas do país, com apoio de 132 feiras afiliadas em 21 estados, resultando nos 297 projetos finalistas apresentados por 682 estudantes.
Importância da Feira
Historicamente, os projetos da Febrace já apresentavam soluções inovadoras em diferentes áreas do conhecimento — como Ciências Agrárias, Ciências Biológicas, Ciências Exatas e da Terra, Ciências Humanas, Ciências da Saúde, Ciências Sociais Aplicadas e Engenharia. Nesta edição, chama atenção a presença crescente de ferramentas digitais e computacionais no desenvolvimento das pesquisas, com estudantes utilizando recursos como visão computacional, redes neurais, biossensores, dispositivos vestíveis e realidade virtual para investigar diferentes problemas contemporâneos.
“A Febrace sempre refletiu as inquietações da juventude brasileira. O que vemos agora é uma geração que se apropria de ferramentas tecnológicas cada vez mais sofisticadas e começa a utilizá-las para investigar problemas reais, com responsabilidade social e rigor científico”, afirma a professora Roseli de Deus Lopes, coordenadora geral da Febrace.
“Eles não estão apenas aprendendo tecnologia — estão experimentando formas de aplicá-la para compreender e transformar contextos concretos.”
Glossário
- Febrace: Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, realizada anualmente pela USP desde 2003.
- ISEF: International Science and Engineering Fair, maior feira internacional de ciências para estudantes pré-universitários.
- Edge AI: Inteligência artificial embarcada, que processa dados localmente no dispositivo sem depender de servidores externos.
- VANT: Veículo Aéreo Não Tripulado, popularmente conhecido como drone.
- AEE: Atendimento Educacional Especializado, serviço da educação especial voltado a alunos com deficiência.
- LIBRAS: Língua Brasileira de Sinais.
- PEMA: Parque Estadual de Monte Alegre, no oeste do Pará, que abriga pinturas rupestres com mais de 12 mil anos.