- Pesquisadoras do Amazonas relatam desafios, conquistas e desigualdades de gênero na ciência durante trajetória em universidades, INPA, Fiocruz e Fapeam.
- Elas destacam sobrecarga de trabalho, custos da pesquisa na Amazônia, necessidade de apoio institucional e avanço lento na ocupação de cargos de liderança.
- A matéria mostra como mulheres na ciência amazonense transformam barreiras em protagonismo, inspirando meninas e reforçando políticas públicas de fomento.
Fazer ciência na Amazônia, sendo mulher, é prazer, desafio e resistência cotidiana. As trajetórias de pesquisadoras amazonenses revelam conquistas importantes, mas também uma rotina de sobrecarga, desigualdade e luta por reconhecimento.
Em universidades, institutos de pesquisa e fundações de fomento, elas ocupam espaços antes majoritariamente masculinos. Ao mesmo tempo, lidam com jornadas múltiplas, custos elevados da pesquisa na região e desafios estruturais.
Quem são as mulheres que movem a ciência amazonense
Entre as vozes que constroem a ciência no estado estão professoras, gestoras e pesquisadoras de diferentes gerações. Elas atuam em áreas que vão da fitossanidade à aquicultura, da biotecnologia à saúde pública.

A professora Jânia Lília da Silva Bentes, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), trabalha com fitossanidade e define a Amazônia como um “imenso bioma a ser explorado”, onde pesquisadores são também desbravadores. Para ela, fazer ciência na região é ao mesmo tempo um grande prazer e um grande desafio.
“Ser pesquisadora na Amazônia é um imenso prazer e um imenso desafio. A Amazônia é um imenso bioma a ser explorado e nós, pesquisadores amazonenses, com o suporte da Fapeam, temos conseguido desenvolver pesquisas significativas de amplo impacto na realidade do povo amazônida.” – Jânia Lília
Cecília Verônica Nunes, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), atua com biotecnologia e bioprospecção de plantas e fungos. Ela ressalta que, mesmo com maridos mais presentes, a sobrecarga de funções ainda recai de forma desproporcional sobre as mulheres, especialmente para quem tem filhos em idade escolar.
“Fazer ciência na Amazônia é fantástico, temos um campo imenso, mas realmente, como mulher, ainda temos alguns desafios.” – Cecília Verônica
A jovem pesquisadora Mariana Vieira Mitoso, professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), começou a carreira científica ainda no ensino médio, em programas apoiados pela Fapeam. Hoje, aos 29 anos, ela considera que fazer ciência na Amazônia é um ato de resistência e de confiança na capacidade de abrir portas para outras mulheres.
“Como pesquisadora e cientista hoje, eu sei que fazer ciência na Amazônia, sendo mulher, é também um ato de confiança. De confiança de que nós podemos abrir portas para outras mulheres.” – Mariana Mitoso

Da sala de aula à gestão: mulheres em posições de liderança
A trajetória da professora Márcia Perales Mendes Silva sintetiza o avanço feminino em espaços estratégicos. Ela foi a primeira mulher reitora da Ufam em mais de cem anos de história da instituição, ocupando o cargo por oito anos.

Desde 2019, Márcia preside a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), principal órgão de fomento à pesquisa científica no estado. Segundo ela, a partir de 2020 o governo intensificou ações voltadas ao protagonismo feminino na ciência, tecnologia e inovação, com editais exclusivos, eventos e programas voltados a pesquisadoras.
“Ser mulher e fazer ciência é difícil em todo lugar do mundo.” – Márcia Perales
Essa política reflete em números. A fundação destaca que, em 2023, 834 pesquisadoras coordenavam projetos no estado, um recorde de liderança feminina em pesquisa. Além disso, o percentual de mulheres com título de doutorado superou o de homens pela primeira vez, alcançando pouco mais da metade dos cadastros ativos.
Muito antes desses avanços, a realidade era outra. Dados globais citados por Márcia mostram que apenas cerca de um terço das pesquisadoras no mundo são mulheres, o que reforça o peso simbólico da ocupação de cargos de gestão por cientistas amazonenses.
Entre a pesquisa de campo e a vida doméstica
Se a presença de mulheres em programas de pós-graduação cresce, os desafios cotidianos permanecem intensos. Cecília Nunes resume o cenário ao falar das múltiplas funções: ser pesquisadora, coordenar projetos, orientar alunos de pós-graduação, cuidar da família e manter a vida pessoal.

Ela destaca que, apesar de algum avanço no compartilhamento das tarefas domésticas, os filhos ainda exigem mais presença das mães. Conciliar viagens de campo, prazos de projetos, aulas e reuniões com responsabilidades em casa se torna um exercício permanente de equilíbrio, muitas vezes acompanhado de culpa e cansaço.
Para Mariana Mitoso, o desafio também passa pela necessidade de respeito e inclusão dentro das instituições. Ela lembra que, ao longo da formação, foi percebendo o peso de ser mulher na academia e a importância de ocupar espaços de fala para que outras meninas se vejam na ciência.
Essa dimensão simbólica, de representatividade, é um eixo forte nos relatos. As pesquisadoras apontam que cada conquista, bolsa ou cargo assumido abre brechas em estruturas ainda marcadas pelo machismo e por desigualdades históricas.
Fazer ciência na Amazônia é caro e complexo
A pesquisadora em saúde pública Ani Beatriz Jackisch Matsuura, da Fiocruz Amazônia, chama atenção para a dimensão territorial e logística da região. Segundo ela, realizar pesquisa na Amazônia é extremamente caro e difícil.

“Ir a campo em municípios do interior exige longos deslocamentos, muitas vezes por rios e estradas em condições precárias, com custo elevado de transporte, hospedagem e equipamentos. A isso se somam desafios ambientais, como cheias, secas severas e um clima que interfere diretamente na coleta de dados e nas condições de trabalho”, lembrou.
Nesse contexto, ter uma fundação de apoio como a Fapeam é considerado fundamental. Ani destaca que a competição por recursos é alta e que, sem editais específicos e um olhar sensível para questões de gênero, muitas cientistas acabariam ficando de fora de oportunidades de financiamento.
“Fazer pesquisa na Amazônia tem muitos desafios, mas com certeza ter uma fundação de apoio como a Fapeam ajuda muito a gente, porque a competição é alta, é difícil conseguir recurso e o apoio da Fapeam é fundamental” – Ani Matsuura
Ela reforça que os editais que incentivam a igualdade de gênero são decisivos para garantir que pesquisadoras tenham acesso a recursos. Sem esse suporte, a combinação entre custos altos, baixa infraestrutura e responsabilidades familiares torna ainda mais difícil a permanência das mulheres na carreira científica.
Mulheres ganham espaço na pós-graduação e em áreas antes masculinas
Os depoimentos mostram também uma mudança gradual no perfil de quem faz pesquisa na região. A pesquisadora Beatriz Ronchi Teles, do INPA, atua há quatro décadas na Amazônia e relata que a presença feminina aumentou de forma expressiva ao longo do tempo.

Ela cita como exemplo a própria instituição, onde as mulheres já são maioria em alguns programas de pós-graduação. Em um dos cursos, mais da metade dos estudantes de mestrado e doutorado é composta por mulheres, um indicativo de que as novas gerações estão ocupando esse espaço com força.
”No Inpa, 53% das mulheres estão na pós-graduação. Nós somos mais mulheres do que homens na pós-graduação inclusive. Isso é um dado muito importante e mostra o crescimento das mulheres na ciência.” – Beatriz Teles
Na aquicultura, área historicamente associada a homens, a virada também é clara. Elizabeth Gusmão Affonso, pesquisadora do INPA e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Aquicultura, conta que hoje mais de 60% dos alunos de pós-graduação na área são mulheres.
Ela lembra que, não faz muito tempo, a aquicultura era vista como atividade essencialmente masculina, ligada a trabalhos pesados em campo. Hoje, mulheres estão de igual para igual nessa área, atuando em pesquisa, inovação e formação de novos profissionais.

“A aquicultura, há algum tempo atrás, era muito exclusiva de homens. Hoje nós temos mais de 60% dos nossos alunos da pós-graduação, mestrado e doutorado fazendo aquicultura, estando de igual para igual com todos os homens.” – Elizabeth Gusmão
Fapeam e o fomento à ciência feita por mulheres
Nos últimos anos, o Amazonas passou a investir de forma mais estruturada em programas voltados para mulheres na ciência. Em 2024, por exemplo, a Fapeam anunciou um conjunto de editais que somam cerca de R$ 38 milhões para apoiar cientistas mulheres em diferentes fases da carreira.
Os editais incluem apoio a projetos coordenados por pesquisadoras, bolsas para estudantes e ações específicas para fortalecer a participação feminina em áreas nas quais elas ainda são minoria. A iniciativa integra uma política mais ampla de combate à desigualdade de gênero na pesquisa e de incentivo à permanência de mulheres na academia.
Esse movimento se soma a uma realidade em que, segundo dados da própria fundação, as mulheres já eram maioria entre os pesquisadores cadastrados, com mais de metade das inscrições em programas de iniciação científica, mestrado e doutorado no estado. No entanto, o quadro muda quando se observa os níveis mais altos de qualificação e liderança.
Ao direcionar recursos especificamente para cientistas mulheres, o governo do Amazonas busca equilibrar esse cenário e garantir que mais pesquisadoras cheguem a posições de comando em projetos, grupos de pesquisa e instituições.
O avanço não é apenas quantitativo, mas também qualitativo. Ao fortalecer lideranças femininas, a política de fomento amplia a diversidade de olhares sobre problemas amazônicos e estimula pesquisas que dialogam mais diretamente com questões sociais, de saúde, educação e meio ambiente.
Por que isso importa
A presença de mulheres na ciência amazonense impacta diretamente a forma como a região pensa seu desenvolvimento. Pesquisadoras que vivem e trabalham na Amazônia trazem consigo experiências de gênero, território e classe que ajudam a formular perguntas e soluções mais conectadas à realidade local.
Quando uma mulher se torna reitora, preside uma fundação de fomento ou lidera um programa de pós-graduação, ela não apenas rompe barreiras pessoais. Ela abre caminho institucional para que meninas de escolas públicas, jovens da periferia de Manaus ou de municípios do interior visualizem a ciência como um horizonte possível.
Ao mesmo tempo, reconhecer os desafios que essas cientistas enfrentam – da sobrecarga de trabalho à dificuldade de financiamento e logística – é fundamental para que políticas públicas avancem. Sem medidas concretas, como editais exclusivos, redes de apoio e infraestrutura adequada, muitas trajetórias promissoras se interrompem no meio do caminho.
A história das mulheres na ciência amazonense é, portanto, uma história de desbravamento e construção coletiva. Ela mostra que o conhecimento produzido na região ganha força quando incorpora diversidade, equidade e compromisso com a transformação social.
Glossário
- Fapeam: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, principal agência de fomento à ciência no estado.
- INPA: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, instituição federal dedicada à pesquisa científica na região amazônica.
- Aquicultura: Área que estuda e desenvolve técnicas de criação de organismos aquáticos, como peixes, de forma sustentável e controlada.
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