- Fiocruz Amazônia lança livro sobre vigilância da exposição ao mercúrio em povos indígenas e o utiliza em cursos de capacitação na região.
- Obra de 68 páginas reúne base técnica sobre toxicologia, ciclo ambiental, riscos à saúde e desafios da vigilância em terras indígenas.
- Capacitações em Rondônia e Amazonas formam profissionais da APS para monitorar e mitigar impactos da contaminação mercurial.
O Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) concluiu a produção do livro “Mercúrio na Amazônia – Aspectos Introdutórios sobre Vigilância e Monitoramento em Populações Indígenas Expostas e Potencialmente Expostas”, utilizado em março de 2026 em cursos de capacitação para profissionais da Atenção Primária à Saúde nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) de Porto Velho e Vilhena, em Rondônia e Amazonas, com foco na vigilância da exposição ao mercúrio em povos indígenas historicamente afetados pelo garimpo.
A obra é resultado de um Acordo de Cooperação Técnica entre o Ministério Público do Trabalho, a Procuradoria Regional do Trabalho da 1ª Região (RJ), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec). O objetivo é oferecer base técnica para vigilância, monitoramento e manejo da contaminação mercurial em territórios indígenas da Amazônia.
Livro reúne base técnica sobre mercúrio na Amazônia
O livro tem autoria do pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz Amazônia Jesem Orellana, com coautoria da pesquisadora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) Lihsieh Marrero e do supervisor do Centro de Formação do Museu das Culturas Indígenas de São Paulo, Aly David Arturo Yamall Orellana.
Na apresentação, Jesem Orellana explica que a publicação discute aspectos introdutórios da vigilância do mercúrio em terras indígenas na Amazônia e situa o tema no contexto da poluição química global. Ele destaca que o mercúrio está entre os três contaminantes ambientais mais relevantes e que, na região amazônica, a principal fonte de exposição é o garimpo de ouro.
“Há mais de 50 anos, diferentes gerações de amazônidas têm testemunhado e sido fortemente impactadas pela extração predatória do ouro na região, especialmente ribeirinhos e povos indígenas”, relata o pesquisador.
Segundo Orellana, nas últimas três décadas o avanço de maquinário e estratégias de extração ilegal ampliou os danos ambientais em solos e corpos d’água, o que aumenta a exposição de populações vulneráveis aos efeitos da poluição. Ele lembra que exposições acima dos limites toleráveis definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) podem causar danos aos sistemas nervoso central e periférico, renal, cardiovascular, digestivo, pulmonar, imunológico e endócrino, além de risco de morte.
Estudos citados na obra indicam que a exposição pré-natal ao metilmercúrio pode estar associada a atrasos cognitivos, quadros de retardo mental leve e prejuízos à audição e à visão após o nascimento.
Conteúdo da obra e foco na vigilância em saúde
Com 68 páginas, o livro está organizado em cinco capítulos:
- Introdução à toxicologia do mercúrio e aspectos históricos
- Ciclo do mercúrio no ambiente e atividades antrópicas
- Exposição aguda e crônica ao mercúrio na Amazônia
- Principais ameaças e riscos do mercúrio à saúde humana
- Desafios da vigilância do mercúrio em indígenas da Amazônia
Orellana ressalta que o cenário atual reforça a necessidade de monitorar efeitos da contaminação mercurial em indivíduos expostos ou potencialmente expostos e, ao mesmo tempo, prevenir e manejar a exposição humana, com atenção especial ao segmento materno-infantil indígena. Ele aponta que ainda há pouco conhecimento sistematizado sobre o tema e que persistem desafios na oferta de atenção qualificada em saúde, incluindo a formação profissional específica em contaminação por mercúrio.
De acordo com o pesquisador, a produção do livro foi articulada ao planejamento de um curso de capacitação profissional alinhado às prioridades do Ministério da Saúde, contribuindo para ampliar o debate sobre mercúrio e saúde indígena na região amazônica.
Para aprofundamento técnico sobre toxicidade do mercúrio e diretrizes globais, a Organização Mundial da Saúde e o Ministério do Meio Ambiente disponibilizam notas técnicas e fichas de orientação.

Cursos de capacitação em Rondônia e Amazonas
Entre 17 e 25 de março, sob coordenação de Jesem Orellana, a Fiocruz Amazônia realizou um curso de capacitação profissional de 20 horas nos municípios de Cacoal (RO) e Humaitá (AM), voltado a trabalhadores da Atenção Primária à Saúde dos DSEIs Porto Velho e Vilhena.
A iniciativa contou com apoio da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), dos docentes da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) Cristiano Lucas de Menezes Alves e Maurício Viana Gomes de Oliveira, além de técnicos designados pelos dois DSEIs.
O curso abordou:
- riscos associados à exposição ao mercúrio em contextos de garimpo e contaminação ambiental;
- estratégias de vigilância e monitoramento em saúde;
- ações de mitigação de danos em populações expostas e potencialmente expostas.
Segundo Lihsieh Marrero, a experiência utilizou metodologias participativas, articulando conteúdos técnicos com os saberes e vivências dos profissionais de saúde, para favorecer a aplicação prática do conhecimento nos territórios indígenas.
Lacunas na formação em saúde sobre mercúrio
Para Jesem Orellana, a exposição mercurial em populações indígenas ainda é pouco abordada na formação de trabalhadores da saúde, tanto na Amazônia quanto em outras regiões do país. Ele lembra que o uso indiscriminado do mercúrio em garimpos ilegais há pelo menos 40 anos provoca destruição de solos e águas e gera uma variedade de efeitos negativos à saúde humana.
Esse quadro coloca povos indígenas da Amazônia Legal e outras populações tradicionais, já em situação histórica de vulnerabilidade, sob risco ainda maior. A combinação entre degradação ambiental, exposição crônica a contaminantes e acesso desigual a serviços de saúde reforça a necessidade de políticas de vigilância específicas e de formação continuada para equipes que atuam em campo.
Iniciativas como o livro e o curso de capacitação buscam preencher parte dessas lacunas, oferecendo referencial técnico para profissionais que lidam diretamente com os impactos do garimpo e da contaminação mercurial em territórios indígenas.
Glossário
- Mercúrio: Metal pesado tóxico, usado em atividades como garimpo de ouro e processos industriais, que pode se acumular em organismos vivos e causar danos à saúde.
- Metilmercúrio: Forma orgânica do mercúrio, altamente tóxica, que se forma no ambiente aquático e se concentra na cadeia alimentar, especialmente em peixes.
- Vigilância em saúde: Conjunto de ações para coletar, analisar e interpretar dados sobre eventos relacionados à saúde, orientando intervenções de prevenção e controle.
- Atenção Primária à Saúde (APS): Nível de atenção que organiza o primeiro contato da população com o sistema de saúde, com foco em cuidado contínuo e territorial.
- Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs): Estrutura do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena responsável pela organização dos serviços de saúde em territórios indígenas.
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