Marcelo, Ana e David são de escolas distintas mas se uniram para dar continuidade a um projeto já reconhecido na Febrace de 2025 – Fotos: Divulgação

Doze estudantes do ensino médio de Manaus embarcam para São Paulo na próxima semana para apresentar seus projetos na 24ª edição da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace 2026), realizada de 17 a 20 de março na Universidade de São Paulo (USP). São cinco trabalhos selecionados entre 297 projetos finalistas de todo o país, cobrindo temas que vão de detecção de arritmias cardíacas por inteligência artificial ao ensino de química pelo celular, passando por pesquisa sobre o Alzheimer e mapeamento de epidemias de dengue.

Um detector de arritmias pensado para quem mora longe de hospital

Da Fundação Matias Machline, Marcelo Ruan Leão Nunes, Ana Paula de Souza Andrade e Davi da Silva Sarmento desenvolveram o CardioSystem, um sistema portátil que realiza eletrocardiograma e classifica arritmias cardíacas em tempo real usando inteligência artificial embarcada. O dispositivo combina um Raspberry Pi e o sensor AD8232 e dispensa conexão com a internet, o que, segundo os autores, é o diferencial central do projeto.

“O nosso hardware vai fazer um exame de eletrocardiograma e a nossa inteligência artificial vai ser capaz de identificar as arritmias cardíacas. O diferencial é que ele não vai precisar de internet. A gente vai poder acessar lugares que não têm fácil acesso, como comunidades distantes da cidade e ribeirinhos”, explicou Ana Paula.

O sistema atingiu 95,85% de acurácia nos testes. Ela fez questão de delimitar o escopo: o CardioSystem não substitui o médico, funciona como ferramenta de apoio.

Davi disse que a aprovação na Febrace trouxe um “sentimento de realização pessoal”, e que a maior expectativa vai além das premiações: “O principal é que algum dia esse projeto seja integrado na sociedade, que possa ajudar as pessoas, que seja comercializado e sirva de ferramenta realmente para essas comunidades, pensando no nosso contexto aqui.” Marcelo resumiu sua motivação em poucas palavras: a vontade de continuar estudando e pesquisando.

O CardioSystem não é estreante na Febrace. No ano passado, em sua primeira participação, o projeto conquistou o 3º lugar em Ciências Exatas e da Terra, foi reconhecido como melhor projeto do Amazonas e recebeu destaque em sua categoria. Os resultados renderam um convite para a Fenecit, onde a equipe obteve credenciais para apresentar o trabalho em uma feira científica no Paraguai este ano. A coorientadora do projeto, a professora Acsa Souza Magalhães Leão, disse que a busca por patrocínio para essa viagem está em andamento.

Os três estudantes vêm de escolas diferentes: uma escola particular, um colégio estadual e a Fundação Matias Machline. A professora Acsa conta que o grupo se formou de maneira espontânea: ela conheceu um dos alunos na igreja, outro é filho de uma amiga, e Ana Paula foi aluna do orientador Davi na Fundação.

Foi essa trajetória que motivou a equipe a submeter uma segunda versão à Febrace. “Ficamos muito felizes, porque sabemos que as vagas são bastante concorridas em uma feira que é considerada a maior feira científica estudantil do Brasil”, afirmou a professora. A expectativa, ela deixou claro, não é só de troféu:

“Queremos ganhar, mas o mais importante também é aprender com os outros projetos e, quem sabe, conquistar uma nova credencial para outra feira internacional.”

A equipe tem uma origem incomum. Os três estudantes vêm de escolas diferentes: uma escola particular, um colégio estadual e a Fundação Matias Machline. A professora Acsa conta que o grupo se formou de maneira espontânea: ela conheceu um dos alunos na igreja, outro é filho de uma amiga, e Ana Paula foi aluna do orientador Davi na Fundação. O ponto em comum era o interesse em tecnologia e a vontade de participar de uma feira científica. “Na Fundação Matias os alunos já têm mais contato com projetos científicos; nos outros colégios isso não é tão comum”, observou. A equipe se uniu em torno disso.

pH pelo celular: IA para suprir a falta de laboratório

Na Escola SESI Dra. Emina Barbosa Mustafa, Raquel Silva Cassiano e Ana Caroline Araujo Duarte da Silva criaram o pHDectect, aplicativo que usa inteligência artificial para identificar o nível de pH de soluções químicas pela câmera do celular. O modelo foi treinado no Teachable Machine com 84 imagens e atinge aproximadamente 89% de acerto. O aplicativo, desenvolvido no MIT App Inventor, inclui escala interativa, banco de dados com substâncias comuns e leitura em tempo real, tudo de forma gratuita.

O aplicativo pHDectect usa inteligência artificial para identificar o nível de pH de soluções químicas pela câmera do celular foi desenvolvido pela estudante Raquel Cassiano com orientação da professora Ana Caroline Araújo, da escola do Sesi.

A motivação, contou Raquel, veio de uma dificuldade concreta:

“O estudo do pH é essencial para compreender se uma substância é ácida, neutra ou básica, mas tem enfrentado desafios nas escolas, como a falta de equipamentos e infraestrutura. Muitos estudantes têm dificuldades em classificar por ser um processo lento e também em compreender esse conceito visualmente.”

A proposta não é substituir o experimento tradicional, mas viabilizá-lo onde ele simplesmente não acontece por falta de recursos.

Raquel está ansiosa pela premiação que acontece em São Paulo.

Alzheimer, genes e batidas sonoras

O MEMO Fase II, do Colégio Militar de Manaus, investiga se batidas binaurais de 12 Hz conseguem reduzir a expressão de genes associados ao Alzheimer. Ada Jamile Gomes de Oliveira e Roberto Alexandre Alves Barbosa Filho analisaram células H4 expostas ao estímulo sonoro e mediram a atividade dos genes APP, MAPT e BACE. Os resultados mostraram redução de 48% na expressão do gene MAPT, ligado à formação dos emaranhados neurofibrilares característicos da doença.

Ada começou o projeto no segundo ano do ensino médio. Quando chegou à Febrace 2026, já havia concluído o ensino médio, e o MEMO havia percorrido com ela esse caminho.

Mais dois projetos completam a representação

Também da Fundação Matias Machline, o Slyban, de Jennifer Lameira Pereira e Eliana de Castro Freire, é um dispositivo físico inspirado no ábaco Soroban. Com sensores magnéticos e displays digitais, o aparelho foi criado para auxiliar no diagnóstico da discalculia e no ensino de matemática, transmitindo dados para um aplicativo voltado a professores e psicopedagogos.

O quinto projeto amazonense é o Vector, de José César Oran Bendaham, Ayla Saraiva Prata, Guilherme Giovany Assunção Lima e Emerson Leão Brito do Nascimento, sistema de mapeamento probabilístico que identifica geograficamente os riscos de epidemias transmitidas pelo Aedes aegypti, com foco no apoio a ações de controle de arboviroses como dengue, zika e chikungunya.

22 projetos da Região Norte

A Região Norte chega à Febrace 2026 com 22 projetos finalistas distribuídos entre sete estados. O detalhamento completo de todos os trabalhos nortistas foi publicado pelo TechAmazônia: Pará lidera com nove projetos, seguido do Amazonas com cinco. Amapá tem três finalistas, Tocantins quatro, Rondônia dois, Roraima um e Acre dois.

Os temas cobrem desde sensores biomiméticos para monitoramento ambiental e elevadores ribeirinhos acessíveis, no Pará, até sistemas de mapeamento de epidemias de dengue e dispositivos para diagnóstico de discalculia, no Amazonas. Amapá leva projetos de monitoramento de solo e cerâmica com ossos de peixe amazônico; Tocantins inclui pesquisas sobre adulteração de leite e racismo estético; Rondônia apresenta aplicativo de tecnologia assistiva para surdos; Roraima aposta em nanopartículas para remoção de microplásticos; e o Acre leva um biocosmético à base de buriti e um alimentador automático para animais de rua.

O que está em jogo em São Paulo

A Febrace 2026 reúne 297 projetos finalistas avaliados por mais de trezentos professores universitários e especialistas voluntários. Os melhores trabalhos concorrem a troféus, medalhas, bolsas e estágios, em um total de cerca de 300 prêmios. Nove projetos serão selecionados para representar o Brasil na Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF) 2026, prevista para maio, em Phoenix, nos Estados Unidos.

A edição deste ano envolveu mais de 72 mil estudantes de todo o país, com 132 feiras afiliadas em 21 estados. O Amazonas chega com cinco dos 22 projetos que a Região Norte coloca na final, atrás apenas do Pará, que tem nove. Mais informações sobre a feira estão disponíveis no site oficial da Febrace.

Glossário

  • Febrace: Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, realizada anualmente pela USP desde 2003.
  • ISEF: International Science and Engineering Fair, maior feira de ciências para estudantes pré-universitários no mundo.
  • Edge AI: Inteligência artificial embarcada, que processa dados diretamente no dispositivo, sem depender de servidores externos.
  • MAPT: Gene associado à proteína tau, ligada à formação de emaranhados neurofibrilares no cérebro de pacientes com Alzheimer.
  • Discalculia: Transtorno de aprendizagem que afeta a capacidade de compreender e manipular números.
  • Aedes aegypti: Mosquito transmissor de dengue, zika e chikungunya, entre outras arboviroses.

Últimas notícias

Comentários
Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *